Crises acumuladas, descrença nas instituições e velocidade das redes sociais aceleram troca de governos, cujos ciclos de poder são cada vez mais curtos 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O candidato presidencial da Colômbia pelo movimento Defensores de la Patria, Abelardo de la Espriella, fala aos apoiadores por trás de um vidro à prova de balas após os resultados preliminares do segundo turno das eleições presidenciais no monumento Ventana al Mundo em Barranquilla, Colômbia, em 21 de junho de 2026 — Foto: JUAN BARRETO / AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 27/06/2026 - 17:57 Troca Rápida de Governos na América Latina Reflete Frustração Popular Na América Latina, a troca rápida de governos se tornou comum, independente da ideologia, impulsionada por crises econômicas, polarização e a velocidade das redes sociais. A vitória de Abelardo de la Espriella na Colômbia exemplifica essa tendência de frustração com governos que não cumprem promessas. Esse fenômeno também é visto em partes da Europa e EUA, com uma busca por líderes outsiders que prometem mudanças rápidas, mas podem ameaçar a democracia. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO A vitória do outsider de extrema direita Abelardo de la Espriella, que derrotou o candidato governista na Colômbia há uma semana, reforçou uma tendência que vem se consolidando na América Latina: governos têm sido substituídos em ritmo cada vez mais acelerado, independentemente de sua orientação ideológica. Em um cenário marcado por frustração econômica, crises múltiplas e polarização crescente, 20 dos últimos 24 pleitos presidenciais na região terminaram com a derrota do grupo no poder. Para especialistas ouvidos pelo GLOBO, se antes essa alternância era impulsionada essencialmente por diferenças ideológicas, hoje ela reflete um eleitorado mais impaciente, menos fiel a partidos políticos e disposto a substituir rapidamente governos que não entreguem respostas imediatas para crises profundas. A dinâmica é potencializada pelas redes sociais, que aceleram a circulação de discursos de ataque e amplificam a insatisfação, em um contexto de crescente desconfiança nas instituições democráticas. — As pessoas estão sofrendo múltiplas crises ao mesmo tempo e procuram soluções rápidas. Elas perderam a confiança nos políticos e utilizam o voto para castigar governos que fizeram promessas e não as cumpriram — afirma a pesquisadora colombiana Julia Zulver, especialista em mobilização política e violência na América Latina. — É por isso que estamos vendo a ascensão de tantos líderes (supostamente) carismáticos: as pessoas querem um salvador. E também querem punir aqueles que fizeram promessas que elas consideram não cumpridas. A alternância acelerada de poder não é exclusiva da América Latina. Trata-se de uma tendência que, nos últimos anos, também pode ser observada em partes da Europa e nos Estados Unidos, onde historicamente era comum que um partido — no caso dos EUA, Democrata ou Republicano — permanecesse no governo por mais de um mandato. Mas ela se manifesta de forma especialmente intensa na região, afirma o cientista político Pedro Abramovay, vice-presidente de Programas da Open Society Foundations. Frustração constante Abramovay explica que, além de favorecerem discursos de ódio em vez de narrativas voltadas à promoção de resultados, as redes sociais também ampliam a sensação de frustração econômica, ao expor padrões de consumo que parecem cada vez mais inalcançáveis para grande parte da população. — As pessoas passam a ter a sensação permanente de que o dinheiro não é suficiente para alcançar aquilo que desejam consumir. Isso produz uma frustração econômica constante — diz. — Nesse ambiente, os governos enfrentam um ciclo de desgaste muito mais curto. Nem a esquerda nem a direita conseguem escapar dessa lógica. As pessoas se frustram rapidamente com as contradições de cada um dos lados do espectro político. Juan Agulló, professor do Instituto Latino-Americano de Economia, Sociedade e Política da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), concorda que a lógica “vai além da disputa entre esquerda ou direita”. — A população está cansada de governos e respostas tradicionais — afirma. Um dos problemas centrais da região, a escalada da violência, incluindo de grupos armados, impacta a maneira como as pessoas vivem e circulam em suas comunidades. Ao mesmo tempo, crises econômicas provocadas pela pandemia em toda a região elevaram o custo de vida e ampliaram a percepção de desigualdade entre ricos e pobres. Nesse ambiente de insatisfação, ganham espaço lideranças que se apresentam como outsiders ou prometem mudanças radicais, oferecendo respostas rápidas para problemas complexos — soluções que, embora sedutoras para um eleitorado frustrado, podem cobrar um preço alto para a democracia. — Líderes como [Nayib] Bukele, [Javier] Milei, [José Antonio] Kast e, agora, Espriella apresentam uma retórica muito atraente no que diz respeito à melhoraria da vida das pessoas em áreas como a segurança pública. Muitos cidadãos sentem que a esquerda e a direita tradicionais, que detêm o poder há décadas, pouco fizeram para mudar esse cenário — diz a pesquisadora colombiana. — As pessoas veem os políticos como uma elite distante. Por isso, quando surge um “novato” fazendo promessas ousadas, elas estão dispostas a votar nele, mesmo que isso signifique abrir mão de outros valores. Alternância de poder na América Latina — Foto: Editoria de arte Exceções dos dois lados Para Abramovay, a aceleração da alternância de poder também alterou o próprio sistema político. Um dos efeitos foi o enfraquecimento da centro-direita liberal, que dominou parte da política latino-americana nos anos 1990. Em seu lugar, consolidou-se a polarização entre uma extrema direita que faz ataques profundos às instituições democráticas e uma esquerda que busca defendê-las. — Essa postura pode fazer com que a esquerda seja percebida como defensora do status quo, justamente em um momento em que o eleitorado deseja mudanças — explica Abramovay. Apesar da elevada rotatividade, o cientista político observa que alguns governos conseguiram romper essa lógica, ao convencer a população de que o país atravessa uma transformação estrutural — um exemplo claro é justamente El Salvador de Bukele. Outro caso é o México, onde o ex-presidente Andrés Manuel López Obrador, de esquerda, conseguiu eleger sua sucessora, Claudia Sheinbaum. Paraguai e República Dominicana também aparecem entre as exceções recentes à tendência de derrota dos governistas, enquanto países como Peru e Venezuela seguem dinâmicas políticas próprias, que dificultam comparações. — No caso de Bukele, a narrativa está centrada na segurança. No México, nas transformações sociais. Em ambos os casos, há uma percepção de que existe um projeto de futuro, de que a vida poderá melhorar para além do presente — afirma Abramovay.