Maior nome da literatura infantil brasileira será homenageada pela Mancha Verde e relança livro ilustrado por Ziraldo 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 A escritora Ruth Rocha em sua casa, em São Paulo: 'Fui envelhecendo muito naturalmente, sabe? Nunca fui daquelas que ficam alarmadas quando fazem 50 anos' — Foto: André Seiti/ Fundação Itaú Ruth Rocha está confortavelmente acomodada numa poltrona no meio da mostra que festeja sua trajetória no Itaú Cultural, em São Paulo. A imagem é tão bonita que até parece que ela é parte da exposição. Mas a mãe do espevitado Marcelo (aquele do “marmelo” e do “martelo”) está só de visita mesmo. O penteado, sempre impecável, agora está iluminado por fios grisalhos, os lábios estão pintados de vermelho (sua marca registrada) e um colar de pérolas dá três voltas no pescoço da escritora — que jura não ser vaidosa. Maior nome da nossa literatura infantil, Ruth completou 95 anos em março. A voz está mais rouca e ela reclama que já não ouve nem enxerga tão bem. Mas a mente não perdeu a agilidade e o bom humor está intacto. — Fui envelhecendo muito naturalmente, sabe? Nunca fui daquelas que ficam alarmadas quando fazem 50 anos. Depois dos 90, comecei a ter algumas dificuldades. Não tenho nenhuma doença, mas fiquei mais desanimada, mole e sonolenta. É chato ficar velha. Mas ainda estou lúcida e tenho minhas alegrias. Acho graça em tudo, sou muito risonha. Meus netos são engraçados. São meu maior orgulho. Tenho paixão por eles e eles têm paixão por mim também — gaba-se a avó coruja de Miguel, de 31 anos, e Pedro, de 28. Na Flip A “Ocupação Ruth Rocha” está em cartaz até 2 de agosto, mas a celebração da contribuição da escritora para a formação de leitores não para por aí. Chegou há pouco às livrarias a nova edição de “Um cantinho só pra mim” (Salamandra), que tem texto de Ruth e ilustrações de Ziraldo (1932-2024). No dia 24 de julho, o cartunista Caco Galhardo vai dar a oficina “Quem sabe desenhar a Ruth Rocha?” na Flipinha, a programação infantil da Festa Literária Internacional de Paraty, e apresentar aos pequenos a nova edição da série “As aventuras de Alvinho”, escrita por Ruth e ilustrada por ele. No ano que vem, a escritora será homenageada pela Mancha Verde no carnaval paulistano. Um espaço de leitura com o nome dela será inaugurado na sede da agremiação, na Barra Funda, em julho. Ruth Rocha em 1948, aos 17 anos. A autora é homenageada numa exposição no Itaú Cultural, em São Paulo — Foto: Acervo de Ruth Rocha A mostra no Itaú Cultural expõe os mais de 200 títulos que a autora publicou e que juntos já superaram as 40 milhões de cópias vendidas e foram traduzidos para 25 idiomas. O mais querido deles, “Marcelo, marmelo, martelo”, protagonizado por um menino que, como se fosse um filósofo francês, questiona o nexo entre as palavras e as coisas e começa a chamar leite de “suco de vaca” e cachorro de “latildo”, vendeu sozinho mais de 20 milhões de cópias: — Sempre me perguntam como explico o sucesso do “Marcelo”. Respondo: se eu soubesse, fazia outro — brinca ela. A principal atração da mostra é a instalação “Ruth de A a Z”. Cada letra joga luz sobre um aspecto da vida e da obra de Ruh. “A” é de “amigos” e exibe fotos dela com parceiros como Ana Maria Machado, Luis Fernando Verissimo e Nélida Piñon. “B” é de “borboleta” e conta como Ruth escreveu sua primeira história para crianças, na década de 1960, quando era orientadora educacional no Colégio Rio Branco, em São Paulo. Um dia, sua amiga Sonia Robatto, editora da revista Recreio, a convidou para nadar e tomar sol em seu sítio. Chegando lá, trancou Ruth no escritório e disse que só a libertaria depois que ela escrevesse uma história. E assim saiu “Romeu e Julieta”, o conto de uma borboleta azul e uma amarela que não podem brincar juntas por causa de uma rixa familiar. Publicada em 1977, a obra foi lida como uma denúncia do racismo. — Ser formada em sociologia e política influenciou muito o meu pensamento. Eu tenho horror ao preconceito e isso aparece nos livros. Sou muito preocupada com os problemas sociais, com política. No Brasil, a gente tem que ser — diz ela, que acompanha pouco os telejornais devido aos problemas de visão e audição, mas conta com a família para se manter a par das notícias. — Pergunto para eles: “Como está o Vorcaro? Está preso ainda?”. ‘Fui muito feliz no casamento’ Ruth Rocha diz que a “Ocupação” a emocionou muito, principalmente os depoimentos da família. Há vídeos da filha, Mariana, dos netos queridos e um registro antigo do marido de Ruth, o ilustrador Eduardo Rocha, que morreu em 2012. — Nos vídeos eles disseram coisas que não falam para mim. Gostei de ouvir — afirma a escritora, que se anima ao falar da família. — Eu fui muito feliz no casamento. Fomos casados por 56 anos. Meu marido era uma pessoa excepcional. Tinha um gênio bom, e eu também, então a gente nunca brigava. Quer dizer, a gente discutia. Um dia, recém-casados, tivemos uma discussão no carro e ele falou: “Você já pensou se quer fazer as pazes antes ou depois do jantar?”. E a gente riu! Era assim. Ilustração de Ziraldo para o livro "Um cantinho só pra mim", de Ruth Rocha — Foto: Instituto Ziraldo A letra Z da instalação é de Ziraldo. A nova edição de “Um cantinho só pra mim”, livro que os dois fizeram juntos em 2005, traz na folha de rosto a dedicatória do ilustrador à escritora: “Ruth, quero ‘Um cantinho só pra mim’ no seu coração”, escreveu Ziraldo aproveitando as palavras do título. — Quisemos trazer para o livro o afeto que existia entre esses dois amigos — afirma Adriana Lins, diretora artística do Instituto Ziraldo. “Um cantinho só pra mim” conta a história de Pedro (sim, o nome é uma homenagem ao neto da autora), um menino tão cheio de coisas para fazer (aula de inglês, de natação, de música) que não tinha mais “tempo pra pensar”. Mas numa visita à casa da avó ele cai de novo no mundo da imaginação. O livro passou por uma leitura sensível — procedimento editorial que visa a atualizar as obras e purgá-las de tudo o que pode ser considerado ofensivo ou preconceituoso — e houve pequenas alterações no texto e nas ilustrações. A roda de crianças que aparece no meio do livro ganhou mais diversidade racial. O cavalo branco, daqueles de príncipe encantado, que Pedro galopa virou um “cavalo baio” e o cavaleiro com quem ele luta não é mais “negro” (no sentido de sombrio, trevoso), mas “misterioso”. Ruth não se incomoda em “mexer nos livros” quando acha “justo”, mas resiste às propostas de alterar a obra de autores clássicos, como Monteiro Lobato. — Monteiro Lobato é o maior de todos nós. Ele falou umas besteiras racistas mesmo, mas dá para ver que ele tem carinho pela Tia Nastácia, porque ela é quem inventa a Emília e o Visconde de Sabugosa, que são símbolos da liberdade e do conhecimento. Ruth também é símbolo de liberdade e conhecimento. Carnavalesco da Mancha Verde, Rodrigo Meiners afirma que o samba-enredo “Ruth Rocha: a palavra que ensina a criança a voar” vai ressaltar a dimensão questionadora da obra da escritora e destacar personagens inesquecíveis, como Marcelo (o criador de neologismos) e as borboletas Romeu e Julieta. — Nosso samba vai falar da liberdade que Ruth Rocha dá à criança, de como ela cria cidadãos que questionam em vez de aceitar o mundo ele é — explica o carnavalesco. — Queremos agradecê-la por dedicar sua vida à literatura infantil. A obra dela nos permite pensar num desfile lúdico, totalmente fora da casinha, com alegorias e fantasias diferentes do que as pessoas estão acostumadas a ver no carnaval. Palavra de Vovô Yoyô Ruth afirma que, se estiver bem, vai acompanhar o desfile no Sambódromo. — Sou sambista — brinca a autora, que aparece cantando samba com a filha num vídeo da exposição. Ruth sempre foi apaixonada por música. Nos anos 1970, ela e um grupo de amigos se apresentavam no Café Piu Piu, em São Paulo. Cantavam clássicos do cancioneiro americano, como “Blue Moon”. É uma mulher de muitos talentos. Numa carta de outubro de 1946, reproduzida na exposição, seu avô Yoyô a cumprimenta por seu progresso na pintura (“creio que ainda serás grande artista”), mas lamenta que a neta de 15 anos não tivesse abraçado a literatura. “Estava louco para ler um romance seu, que devia ser admirável, cheio de contações extraordinárias”. Vovô Yoyô, grande contador de histórias, não viveu para ver a neta ingressar na literatura, mas estava certo sobre a grandeza da obra que ela viria a criar.