Gerações da MPB recriam músicas do francês nascido na Guiana, que teria mostrado o caminho das pedras para a bossa nova ao desacelerar o samba com ‘Dans mon île’ 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O cantor, compositor e humorista franco-guianense Henri Salvador — Foto: Divulgação O cantor, compositor e pianista Marcos Valle, de 82 anos, encontrou Henri Salvador (1917-2008) em pessoa uma única vez, em 2006, quando o cantor, humorista e compositor franco-guianense chegou ao Rio para gravar um disco, com produção do violoncelista e arranjador Jaques Morelenbaum. Foi numa festa promovida pelo mítico executivo da indústria fonográfica brasileira, o franco-sírio André Midani (1932-2019) — “Henri era maravilhoso, cheio de piadas, cheio de alegria”, recorda-se Marcos. Mas, na verdade, ele conhecia o artista desde os 17 anos, quando, numa dessas epifanias adolescentes, viu o filme “Europa à noite” (1959), do italiano Alessandro Blasetti. — De repente, aparece a cena daquele cara cantando uma música linda, e uma nativa dançando, uma menina muito bonita. Logicamente, olhei para a garota, achando ela maravilhosa, mas aí a música começou a me atrair... e era “Dans mon île” — conta o produtor do álbum “Henri Salvador do Brasil”, lançado ontem no streaming. — Em outra cena, ele cantou “Rose”, com outra moça, aí já com vestido, porque era uma coisa mais elegante. Fiquei apaixonado por aquela música, voltei ao cinema e vi o filme mais cinco ou seis vezes. Muitos então futuros bossa-novistas também viram “Europa à noite” — e a lenda é a de que Tom Jobim teria se inspirado para tocar o samba de forma mais lenta por causa de “Dans mon île”. Mais tarde, em 1981, Caetano Veloso gravou a canção no LP “Outras palavras” — e ainda citou o autor na canção “Reconvexo” (“quem é você, que não sentiu o suingue de Henri Salvador?”). Pois “Dans mon île”, essa não faz parte do disco de Marcos Valle. Já “Rose” está lá, num dueto do produtor com Joyce Moreno. Outras canções tornadas célebres por Salvador ganharam interpretações de um diverso time da MPB que vai de Simone (em “Jardim”, versão de “Jardin d’hiver”, antecipada em single), Bebel Gilberto (“Uma canção doce”, que é “Le loup, la biche et le chevalier”, também lançada previamente), Zélia Duncan e Seu Jorge a Moreno Veloso, Rogê, Dora Morelenbaum e Zé Ibarra. Os cantores Marcos Valle e Bebel Gilberto em gravação de disco em homenagem a Henri Salvador — Foto: Divulgação/Emmanuel de Ryckel O convite para Marcos Valle produzir “Henri Salvador do Brasil” veio de Emmanuel de Ryckel, um belga entusiasta tanto da música brasileira quanto daquela de Henri Salvador (que já foi classificado, em uma peça publicitária, como “o mais brasileiro dos cantores franceses”). A ligação do franco-guianense com o país, por sinal, vem do começo dos anos 1940: durante a Segunda Guerra, ele passou quatro anos no Rio, cantando com a orquestra de Ray Ventura em palcos como o do Cassino da Urca, e convivendo com artistas como Dorival Caymmi. — Emmanuel veio aqui em casa, e perguntou se eu gostava da música do Henri Salvador. Nesse momento, fui para o piano e, intuitivamente, toquei o tal do “Rose”, que eu não tocava desde que eu vi aquele filme — conta Marcos, que imediatamente foi convocado pelo belga para gravar a canção com Joyce. — Quando a música ficou pronta, a Catherine, viúva do Henri, ouviu e disse: “A gente tem que fazer um projeto, e tem que ser com o Marcos!” Emmanuel veio então com a ideia de fazer disco inteiro das músicas do Henri, com cantores diferentes do Brasil. E eu me empolguei, porque aquilo estava realmente no meu coração. O LP "Henri Salvador do Brasil", produzido por Marcos Valle — Foto: Reprodução Marcos foi então buscar as possíveis ligações de Henri Salvador com a música brasileira, além da bossa nova. Ouviu a obra completa do artista (e algumas versões em português que já existiam, muitas delas feitas por Lucas Santtana) e saiu ligando para quem achava que poderia gostar de participar do disco — “para minha surpresa, todo mundo gostava de Henri Salvador”, conta. Além de coordenar as participações e montagem das bandas, ele escreveu os arranjos (junto com o trompetista Jessé Sadoc) e tocou os pianos e teclados. Na reta final, entraram artistas de gerações mais novas, como Zé Ibarra (“Le wagon”) e Dora Morelenbaum (“Et des mandolines”), mas estes cuidaram dos arranjos das próprias gravações. Os cantores Marcos Valle e Seu Jorge, em gravação de disco em homenagem a Henri Salvador — Foto: Divulgação No início de “Henri Salvador do Brasil”, ainda não havia uma gravadora, o disco era todo bancado por Emmanuel de Ryckel. Mas aí apareceu a Universal Music e a ideia da gravadora de ter também artistas franceses, participando de duetos. Entraram o lendário roqueiro Eddy Mitchell (em “A cannes cet été”, com Zélia Duncan, que verteu para o português sua parte na canção), o rapper Féfé (com Rogê em “Maladie d’amour / Mal de desamor”, adaptado pelo brasileiro), a cantora Flore Benguigui (com Moreno Veloso em “Chambre avec vue”) e o próprio Henri Salvador (num encontro póstumo com Paula Morelenbaum em “Je parie”). Surpreendeu Marcos Valle, ao longo do trabalho, a versatilidade temática da obra de Henri Salvador (que ele acabou trazendo para o disco), em canções como “Les Voleurs d’eau” (que em 1989 criticava a privatização da água, e que acabou cantada por Seu Jorge, em português, na versão de Lucas Santtana) e “Pauvre Jesus Christ” (de 1971, na qual Henri aconselha Jesus a nunca mais voltar à Terra, alertando que a Humanidade o transformaria em um produto de consumo, e que acabou gravada por Silva e com o Quarteto do Rio, ex-Os Cariocas). — Me identifiquei totalmente com essa versatilidade dele, porque eu sou assim também! — garante Marcos.
O Brasil sente o suingue de Henri Salvador em disco produzido por Marcos Valle
Gerações da MPB recriam músicas do francês nascido na Guiana, que teria mostrado o caminho das pedras para a bossa nova ao desacelerar o samba com ‘Dans mon île’






