A recente e ruidosa lavação de roupa suja na franquia Bolsonaro trouxe às telas um espetáculo delicioso de ironia política.
De um lado, a ex-primeira-dama Michelle veio a público expor o enteado, o senador Flávio. Acusou-o de humilhação e desrespeito durante uma ligação motivada por palanques regionais. Do outro, o herdeiro político, ungido para liderar os planos eleitorais do clã, primeiro disse que nada o aborrece. "É dia de jogo", numa referência à partida do Brasil contra Escócia. Mas aborrece, sim. Flávio e os caciques conservadores sentem na pele o amargor de lidar com uma mulher que se recusa a curvar-se aos mandos da dinastia.
O ponto verdadeiramente sublime desse racha doméstico reside na contradição ideológica. Michelle é a mesma que, em palanque, defende a "submissão saudável" –como se isso fosse possível– da esposa ao marido, professando o papel feminino como o de uma eterna ajudadora do seu esposo, cujo auge do zelo cristão consiste em deixar a comidinha pronta na geladeira antes de viajar.
Michelle pode não compreender ou jamais admitir, mas o fato de ela hoje usufruir de uma voz pública independente, gerir uma robusta estrutura partidária e peitar o enteado na internet é fruto direto do feminismo que ela tanto demoniza.













