Segunda atração mais visitada da Itália depois do Coliseu, museu tem ritmo de trabalho intenso, especialmente às segundas-feiras, quando está fechado ao público 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Parte da obra 'O Nascimento de Vênus', de Botticelli, refletida no vidro da vitrine aberta que a abriga, na Galeria Uffizi, em Florença, Itália — Foto: Clara Vannucci/The New York Times Simone Verde, diretor das Galerias Uffizi em Florença, na Itália, chegou com alguns minutos de atraso para a entrevista, pedindo mil desculpas. Ele tinha ficado no museu até 3h30 da manhã, supervisionando a equipe que reinstalava a obra "Primavera", de Botticelli, e dormiu poucas horas antes de voltar para acompanhar os retoques finais nas salas dedicadas ao artista, que haviam sido recentemente reformuladas. A alegoria da primavera pintada por Botticelli e o seu "Nascimento de Vênus" são, possivelmente, as duas principais atrações do Uffizi, um dos museus mais visitados do mundo. Elas agora ficam acomodadas em novas vitrines feitas sob medida, que se abrem para facilitar a inspeção. Verde estava empenhado em garantir que a instalação das obras ocorresse sem qualquer contratempo. "Temos trabalhado incansavelmente", disse Verde, exagerando propositalmente seu sotaque romano, traço que normalmente passa despercebido. Ultimamente, tem havido muitos dias de trabalho intenso, especialmente às segundas-feiras, quando o museu fecha ao público — 5,3 milhões no ano passado. Então, o burburinho dos turistas dá lugar a uma cacofonia de furadeiras, martelos e serras em cerca de 25 frentes de obra espalhadas pelo Uffizi e por outros dois marcos históricos sob a gestão de Verde: o Palazzo Pitti, do outro lado do rio Arno, e os Jardins de Boboli, com sua vasta área de 81 acres. Uma pintura é instalada no Palazzo Pitti — antiga residência dos Médici, situada do outro lado do rio em relação à Galeria Uffizi, em Florença, Itália — Foto: Clara Vannucci/The New York Times Com pouco mais de dois anos de um mandato de quatro, a visão curatorial de Verde vem ganhando força. Ele busca apresentar os espaços como enciclopédias vivas da história do museu, proporcionando aos visitantes uma noção de como as coleções foram formadas ao longo dos séculos. Cada fase reflete os interesses e as prioridades de sua época, afirmou ele, acrescentando que conhecer essa trajetória ajuda a compreender a história do colecionismo museológico. As salas dedicadas a Botticelli, recém-restauradas, são um exemplo disso. Quando foram reorganizadas pela última vez, há uma década, o curador da época optou por uma apresentação mais contemporânea, dispondo as principais pinturas em nichos de grandes dimensões em uma galeria de paredes brancas. Verde retornou a um estilo de exposição mais tradicional, que resgata elementos do passado dos Uffizi. As paredes agora são pintadas no tom que ele chamou de "cinza renascentista", e um rodapé mais escuro remete ao revestimento de madeira que existiu na galeria até a década de 1950. As barreiras de proteção em latão evocam aquelas projetadas durante uma instalação modernista na primeira metade do século XX. Outros pontos dos Uffizi apresentam toques semelhantes. Novos bancos de madeira que margeiam os corredores do segundo andar são réplicas modernas dos bancos de pedra que o arquiteto do edifício, Giorgio Vasari, criou para o pátio. Nesse caso, as barreiras de latão imitam as cordas usadas para isolar esculturas, remetendo ao gosto do século XIX. Há também alguns toques do século XXI. As novas legendas do museu incluem QR Codes com informações detalhadas e monitores digitais explicam a ligação de Botticelli com a família Medici, que governou Florença. Na visão de Verde, o Palazzo Pitti, onde a família viveu, é parte integrante de sua missão, embora muitas vezes fique em segundo plano em relação ao seu vizinho mais famoso. "Historicamente, tratam-se da mesma coleção, parte da mesma história", disse Verde. Cosimo I de Medici, Duque de Florença, comprou o palácio em 1550 para servir de residência e logo encomendou a Vasari a construção de um novo edifício para as repartições administrativas da cidade — o que hoje são as Galerias Uffizi. ("Uffizi" significa "escritórios" em italiano.) Os visitantes de Florença muitas vezes desconhecem que, durante três séculos, o Pitti abrigou três dinastias sucessivas: os Medici, os Habsburgo-Lorena e os Saboia. Verde espera dar ao local o devido reconhecimento. "Vocês não imaginam quanto dinheiro investimos no Pitti, mas acho que estamos começando a ver os resultados", disse Verde. Um projeto de reforma do "Corredor Vasari", que liga o Palácio Pitti à Galeria Uffizi, foi concluído em dezembro de 2024, e a passagem revitalizada agora ajuda a redistribuir os visitantes entre os dois locais. No entanto, não é fácil controlar o fluxo de visitantes na segunda atração mais visitada da Itália (o Coliseu ocupa o primeiro lugar). No ano passado, um visitante esbarrou de costas em uma pintura enquanto tirava uma selfie. Embora tecnicamente proibidas, Verde afirmou que os seguranças geralmente faziam vista grossa — embora sejam mais rigorosos quanto à proibição de bastões de selfie. O Corredor Vasari é ladeado por dezenas de bustos da Roma Antiga que antes permaneciam esquecidos nas reservas técnicas do museu. "Faltam apenas sete para serem posicionados", disse Verde. Com as reformas, ele também pretende ampliar o espaço expositivo de ambos os museus. Tapeçarias valiosas e mobiliário real também voltarão a ser exibidos ao público, acrescenta. Uma vista do “Corredor de Vasari”, que liga o Palazzo Pitti à Galeria Uffizi, em Florença, Itália — Foto: Clara Vannucci/The New York Times Os Jardins de Boboli, situados nos fundos do Palácio Pitti, também estão passando por uma revitalização. "Administrar um jardim histórico é como gerir uma coleção. É um museu vivo", disse Verde. Centenas de árvores e "milhares de outras plantas" foram replantadas no Jardim de Boboli sob o olhar atento de Gianni Simonti, o jardineiro-chefe. Elementos arquitetônicos, incluindo um anfiteatro do século XVI e uma pequena ilha no centro de um lago artificial, estão sendo restaurados ao seu antigo esplendor. Antes de chegar a Florença, Verde passou quase cinco anos no Louvre Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, e sete anos revitalizando um conjunto de museus em Parma, na Itália. Ele parecia apreciar a tarefa de reformular sua nova área de atuação, facilitada pelos recursos gerados pela administração de um local tão popular. A Galeria Uffizi arrecadou 68 milhões de euros com a venda de ingressos no ano passado, e Verde também pode contar com outras fontes de receita, incluindo taxas de empréstimo de obras e doações. O melhor ainda está por vir, disse ele em uma entrevista em seu escritório no sótão, onde um pequeno guindaste de brinquedo sobre a mesa serve de lembrete para uma das maiores dores de cabeça que herdou: um guindaste detestado no pátio da Galeria Uffizi, que ele finalmente conseguiu mandar desmontar no ano passado, provocando um suspiro coletivo de alívio entre os florentinos. Um novo restaurante está sendo construído no térreo e a entrada e a bilheteria serão transferidas para abrir espaço a uma nova seção dedicada à história do museu. Verde afirmou que essa área mostrará "como as coleções evoluíram e as obras foram reinventadas em função dos projetos culturais, sociais e políticos" daqueles que detinham o poder. No entanto, dada a sua rica história, o objetivo final é deixar que o museu fale por si mesmo, disse ele. "Acredito que a melhor contribuição que posso oferecer", acrescentou Verde, "é fazer com que quem entra tenha a impressão de que a Uffizi sempre foi assim."
Madrugada com Botticelli enquanto a Galeria Uffizi passa por uma renovação
Segunda atração mais visitada da Itália depois do Coliseu, museu tem ritmo de trabalho intenso, especialmente às segundas-feiras, quando está fechado ao público









