Peça sobre autor Roald Dahl, de ‘A fantástica fábrica de chocolates’, simboliza necessidade de enfrentar ideias antissemitas 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O escritor Roald Dahl autografa livros infantis em uma livraria de Amsterdã, em 12 de outubro de 1988: atual editora do escritor britânico decidiu retirar trechos de algumas das suas obras — Foto: Rob Bogaerts/Anefo/12-10-1988 RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 26/06/2026 - 08:09 Peça "Giant" Expõe o Lado Antissemita de Roald Dahl em 1983 A peça "Giant", de Mark Rosenblatt, explora o legado do autor Roald Dahl, ressaltando a necessidade de enfrentar ideias antissemitas. Situada em 1983, a obra revela como o preconceito pode seduzir até mentes brilhantes, com Dahl criticando Israel e evoluindo para declarações antissemitas. O drama reflete sobre a influência contemporânea de figuras públicas e a importância de combater narrativas de ódio. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Roald Dahl, autor de clássicos como “Matilda”, “A fantástica fábrica de chocolate” e “O bom gigante amigo”, encantou gerações de leitores. Sua literatura ensinou crianças a acreditar que, mesmo pequenas diante de um mundo de gigantes, eram capazes de imaginar, distinguir o certo do errado e lutar pelo seu espaço. A peça “Giant”, do dramaturgo Mark Rosenblatt, mostra, porém, que o talento literário e a capacidade de fazer milhões de leitores se sentirem compreendidos por suas palavras não imunizam ninguém contra o preconceito. Mais do que um retrato de Dahl, a obra investiga como ideias antissemitas podem seduzir pessoas inteligentes, admiradas e influentes. A trama se passa em 1983, quando Dahl enfrenta uma crise provocada por declarações feitas após a invasão israelense do Líbano. Indignado com a destruição em Beirute, ele insiste que está apenas criticando Israel. Aos poucos, porém, sua crítica deixa de mirar um governo ou uma ação militar específica e passa a atingir os judeus como coletividade. Primeiro, fala do suposto poder judaico sobre a imprensa e sobre os Estados Unidos. Depois, aceita conceder uma entrevista ao New York Times na tentativa de conter a repercussão das declarações, mas acaba reafirmando suas convicções. Em seu raciocínio, chega a afirmar que Adolf Hitler teve razões para perseguir os judeus. É nesse ponto que a peça demonstra a tese de que o antissemitismo não se resume ao ódio pontual e episódico. Ele sobrevive por meio de narrativas antigas que apresentam os judeus como um grupo dotado de poder excepcional, capaz de controlar governos, mercados ou meios de comunicação. A genialidade da peça está justamente em mostrar como essa lógica conspiratória se revela aos poucos. Ao longo da conversa, Dahl deixa escapar comentários cada vez mais perturbadores, que começam com observações aparentemente banais e terminam na defesa aberta de estereótipos antissemitas. Quando o espectador percebe, o preconceito de Dahl já deixou de ser insinuado e passou a ser explicitamente defendido. Mas Giant vai além do retrato de Roald Dahl. A peça nos obriga a refletir sobre quem são os gigantes do mundo contemporâneo. Hoje, eles não usam coroas nem armaduras. São as redes sociais, os grandes veículos de imprensa e os formadores de opinião — intelectuais, artistas, atletas e influenciadores digitais. São eles que moldam narrativas e conferem respeitabilidade a determinadas ideias. O problema é que influência nunca foi sinônimo de verdade. O fato de um gigante da cultura reproduzir um preconceito não transforma esse preconceito em fato. Tampouco a adesão de multidões, o barulho das redes sociais ou o prestígio acadêmico convertem uma mentira em verdade ou um erro moral em virtude. A história demonstra justamente o contrário: sociedades inteiras podem ser seduzidas por ideias falsas. Na Alemanha nazista, foram justamente intelectuais os que legitimaram a histeria coletiva e a barbárie. Desde os relatos bíblicos, o povo judeu aprendeu a enfrentar gigantes. Davi derrota Golias — o gigante filisteu — quando todos acreditavam ser impossível vencê-lo. Jacó luta com o anjo e, depois desse combate, recebe o nome de Israel, “aquele que luta com Deus”. Em ambos os episódios, a força não está no tamanho do adversário, mas na disposição de enfrentá-lo em nome de uma causa justa. A editora americana Jessie Stone ocupa esse mesmo lugar na peça. Inicialmente intimidada pelo escritor que sempre admirou, ela encontra coragem para confrontá-lo quando percebe que seu silêncio significaria legitimar o preconceito. Mesmo diante de alguém cuja influência poderia comprometer sua carreira, insiste que ele lhe deve um pedido de desculpas. Ao tentar humilhar a editora, o gigante da literatura revelou-se moralmente pequeno. Combater o antissemitismo não interessa apenas aos judeus. A história ensina que o ódio que começa com eles jamais termina neles. Quando uma sociedade aceita que um grupo seja transformado em bode expiatório para explicar seus conflitos, abre caminho para novas perseguições e para o enfraquecimento da própria democracia. A história de Roald Dahl merece ser contada para nos lembrar de que mesmo os gigantes podem tombar quando sua megalomania desafia a verdade. Nossa estatura não é definida pelos olhos dos que nos miram de cima, mas pela força moral da promessa que sabemos carregar. Ao final da apresentação, uma plateia lotada em um teatro na Times Square levantou-se para aplaudir de pé. Não era apenas uma homenagem ao elenco, mas também a demonstração de que ainda existe coragem no mundo para enfrentar gigantes. *Gustavo Binenbojm é professor titular da Faculdade de Direito da UERJ. *Laura Binenbojm é estudante da Universidade de Yale.