Entenda operação que mira Faria Lima, PCC e setor de combustíveisOperação Carbono Oculto é a maior feita até hoje contra a infiltração do crime organizado na economia formal. Crédito: João Abel/Estadão (edição)Gerando resumoApós a Polícia Federal (PF) deflagrar a Operação Carbono Oculto, para investigar a Reag Investimentos por lavagem de dinheiro bilionária e sonegação, em 2025, executivos deixaram a empresa e levaram com eles dezenas de fundos e clientes para montar uma nova gestora. Para o novo negócio, esses ex-dirigentes da companhia se uniram a um antigo cliente da Reag que também é suspeito de usar fundos para driblar a Receita Federal. Esses ex-executivos da Reag, que integram uma empresa chamada Asarock, passaram a atuar em parceria com um grupo de administradoras e gestoras de fundos de investimentos chamado ID, que pertence a investigados pela PF pelas fraudes no banco Digimais, do bispo Edir Macedo. A ID foi aberta por um lobista que foi alvo da Polícia Federal em diversas investigações nos últimos anos. Reag foi um dos alvos da Operação Carbono Oculto (Foto: Werther Santana/Estadão)Nos últimos meses, atuando juntas, a Asarock e a ID tiveram um salto de investimentos e ergueram uma espécie de Reag 2.0, empresas que administram e gerem fundos bilionários questionados e até investigados na Justiça.PublicidadePUBLICIDADEProcurados, os ex-executivos da Reag não se manifestaram. A empresa ID, que é investigada no caso Digimais, defendeu a regularidade de seus fundos e que segue rigorosos padrões de governança. Ela nega formar um “mesmo grupo” com as empresas dos ex-dirigentes da Reag. A Asarock afirma que a relação com a ID é somente profissional. E diz que os fundos da Reag foram regularmente transferidos para sua gestão. (Leia a íntegra mais abaixo)Do lado dos egressos da Reag, o novo negócio começou com o ex-head Comercial Gabriel Pupo Nogueira. Ele passou a controlar a Asarock Asset Management, uma gestora goiana que pertenceu ao empresário Lelio Vieira Carneiro Junior, um antigo cliente da Reag. Ele é alvo de cobranças de mais de R$ 250 milhões da União e suspeito de cometer fraudes com uso de fundos alocados na Reag. Ele repassou a empresa a Pupo, que levou ex-dirigentes da Reag para a Asarock. Os fundos ligados a Lelio também migraram para a gestora. Lelio afirma ter sido incluído indevidamente no processo da União e nega sonegação (leia a íntegra abaixo).A Asarock tem atuado em parceria com o grupo ID, integrado por diversas administradoras e gestoras do mercado financeiro, que foram alvo de buscas e apreensões da PF nas investigações sobre fraudes no banco Digimais, do bispo Edir Macedo. PublicidadeAs administradoras e gestoras do grupo ID pertencem a dois ex-dirigentes da corretora do Banco Máxima, que deu origem ao Master, Rodrigo Balassiano, o Bala, e José Roberto Giancoli Filho, o Beto. Fundos bilionários geridos pela Asarock são administrados por empresas do grupo ID. Nos últimos dias a ID, Beto e Bala foram alvo de buscas da PF no caso Digimais. Uma gestora ligada a ela teve seu sigilo quebrado. Eles administram ainda fundos que enfrentam questionamentos judiciais ligados à Ambipar e à OAS. ‘Nova Reag’ teve crescimento bilionário em mesesAs empresas ainda são pouco conhecidas no mercado, mas tiveram uma ascensão rápida. A Asarock, dos ex-dirigentes da Reag, nem sequer tinha uma página nas redes sociais em setembro de 2025. Hoje, tem R$ 15 bilhões sob gestão. Já a administradora desses fundos, a ID, dos ex-executivos do Master, tem uma carteira de R$ 40 bilhões de investidores. Há dois anos, o valor era bem mais baixo, na casa de R$ 5 bilhões. PublicidadeDos mais de 600 fundos sob tutela do grupo formado por Asarock e empresas de nome ID, pelo menos 50 foram levados da Reag. O crescimento acelerado, em um período de meses, é semelhante ao da gestora liquidada no início do ano pelo BC. Ex-dirigente da Reag se uniu a cliente suspeito de sonegaçãoUm mês após a deflagração da Operação Carbono Oculto, o diretor da Reag Gabriel Pupo Nogueira resolveu deixar a empresa. Dois meses depois, se tornou sócio de uma gestora até então completamente desconhecida, a Asarock Asset Management. Sua sede ficava em um edifício comercial de Goiás. Com a entrada de Pupo, ela mudou seu endereço para a Faria Lima e se capitalizou em R$ 10 milhões. Até antes da chegada de Pupo, o sócio da empresa era o empresário Lélio Vieira Carneiro Junior, um conhecido cliente da Reag. Ele deixou, formalmente, a sociedade. Mas manteve dirigentes de confiança — um deles alocado em Goiás, apesar de a empresa ter sede em São Paulo — e uma cifra bilionária em fundos sob gestão da empresa. PublicidadePUBLICIDADELélio pertence a uma família conhecida por ter erguido um império de empresas de serviços terceirizados, como segurança e limpeza, e que também geriu presídios federais concedidos à iniciativa privada. As companhias faliram, com dívidas de R$ 400 milhões. O processo se arrasta há mais de uma década. Seus donos, no entanto, continuam com alto padrão de vida. Lelio é corredor de rally e já anunciou que iria comprar o Vila Nova, clube da Série B do Brasileirão, por R$ 500 milhões. Depois, desistiu. O processo de falência é conturbado. Credores acusam constantemente Lelio, seu pai e outros familiares, de fraude. O mais pesado desses processos, no entanto, vem da União. Na ação, que está sob sigilo, a Procuradoria da Fazenda Nacional desvendou uma teia de 8 fundos geridos pela Reag que escondem o patrimônio do clã. PublicidadeNo último ano, a Justiça Federal reconheceu a fraude e bloqueou mais de R$ 250 milhões das contas desses fundos e várias empresas ligadas aos Carneiro e sua família. Ele tentou, sem êxito, cassar a decisão em três instâncias. Lelio era um cliente VIP da Reag. Em diversas oportunidades, juízes cobraram a gestora por entregar respostas vagas ou incompletas sobre quem seriam os cotistas de fundos suspeitos de esconder dinheiro do empresário. Foi só depois da saída de Pupo dos quadros da Reag e de Lélio da carteira de clientes da gestora que a empresa passou a responder à Justiça que ele era o verdadeiro dono dos fundos em ações que buscam o bloqueio bancário do empresário. Pupo e Lélio são amigos há mais tempo. Em 2024, bem antes da Carbono Oculto, Lelio publicou em suas redes sociais uma matéria de conteúdo pago em jornal na qual aparecia em investimentos como especialista defendendo a proteção do mercado de fintechs “contra práticas ilícitas”. Logo abaixo, Pupo comentou: “Craque!”. Ambos disseram em entrevistas que se sentiram surpresos com a operação policial contra a Reag. Lelio disse que tirou seus fundos de lá. Pupo disse que precisava proteger sua reputação de “30 anos de mercado”. Dos dez maiores fundos da Asarock, pelo menos um é atribuído a Lelio, e tem R$ 800 milhões em patrimônio líquido. Este fundo é alvo da ação em que a União aponta fraudes. Há, ainda, mais de R$ 1 bilhão em fundos atribuídos a Lelio em administradoras e gestoras ID. Pupo também passou a mão no telefone e levou antigos clientes para atraí-los para a Asarock. Entre os grandes investidores, estão fundos que investem em concessionárias de transporte, hidrelétricas, gestoras de criptomoedas. O mais popular é o fundo da Arena Corinthians. PublicidadeAdministração fica com gestora que abrigou personagens de investigaçõesOs fundos de Lélio Vieira Carneiro Junior e seu clã na Asarock, assim como 28 fundos oriundos da Reag, são administrados pela ID Gestora e Administradora de Recursos, empresa fundada em 2014 cujos quadros se confundem os escândalos da última década. A ID só deixou de ser uma empresa de prateleira em 2019. Antes, foi fundada por Francisco Emerson Maximiano, o Max, lobista que colecionou buscas e apreensões em seus endereços em diferentes investigações da Polícia Federal nos últimos anos. A mais antiga diz respeito aos desfalques em fundos de pensão, como o Postalis, dos Correios, no âmbito da Operação Greenfield. A mais recente denúncia contra Max diz respeito à fraude na tentativa de venda da vacina indiana Covaxin, por R$ 1,6 bilhão, em meio à pandemia, ao governo federal. PublicidadeMax saiu da empresa em 2018 em meio a uma briga com um sócio e alocou seus recursos em outra empresa. A ID foi vendida a um quinteto de ex-dirigentes do antigo Banco Máxima, já sob gestão de Daniel Vorcaro, que seria rebatizado mais tarde de Master. Entre eles, os atuais sócios do liquidado Banco Pleno. Eles já deixaram a ID. Após anos de brigas e trocas de acusações entre sócios e ex-sócios, a empresa ainda é controlada por dois desses ex-executivos. Um deles é Rodrigo Balassiano, o Bala, que foi da corretora do Banco Máxima. Nos últimos anos, ele firmou um acordo de não persecução penal para se livrar de uma acusação de desfalques em fundos de pensão em uma operação da PF. Outro sócio é José Roberto Giancoli Filho, o Beto, que foi também do Máxima. Ele também tem um passado na Umuarama, liquidada pelo BC em 2019. Dirigentes foram acusados à época de fraudes. Ele foi absolvido pela CVM. Comandada por Beto e Bala, a ID é um grupo de várias empresas entre gestoras, administradoras, além de companhias que estão só no papel. PublicidadeTrata-se de um emaranhado de CNPJs registrados, não raro, nas mesmas salas comerciais, ou em diferentes andares de um mesmo prédio comercial na Avenida Juscelino Kubitschek, que cruza com a Faria Lima e também é um reduto do mercado financeiro. Estão espalhadas pelo sétimo, décimo segundo, décimo nono, vigésimo e vigésimo quarto andar do edifício Spazio JK, e recheiam o quadro de vidro com nomes de companhias sediadas nele. Entre elas, estão as gestoras GRID, que é a sigla “ID Gestora de Recursos” ao contrário. Também a ID Serviços Fiduciários e a ID Exclusive. Na mesma sala onde funcionam empresas ID, também fica a Bless Capital e a GIAA Investimentos, que pertence a um outro empresário, Rafael Barbieri. Ele também gere fundos administrados pela ID e não é sócio formal do trio. Barbieri ainda é dono da gestora ID Exclusivo, que fica no mesmo endereço da Bless. Mesmo assim, diz que a empresa não tem relação com as outras IDs, que são vizinhas ou registradas no mesmo endereço de sua companhia. PublicidadeEm 2023, o grupo ID tinha R$ 5,3 bilhões sob gestão e administração. Essa cifra saltou para mais de R$ 40 bilhões com a abertura de novos fundos e a recepção de dezenas de fundos da Reag. Antes desse movimento de fundos da Reag para essa união entre a ID e a Asarock, o grupo tinha um cliente mais importante: o banco Digimais, do bispo Edir Macedo, da Igreja Universal. Como mostrou o Estadão, o banco está em crise e tem usado fundos de investimentos para camuflar prejuízos multimilionários — em uma conta que pode chegar aos bilhões. Esses fundos são administrados justamente pelas empresas do trio. Eles são administrados pela ID e geridos pela Bless.Na última semana, Beto e Bala foram alvo de buscas da Polícia Federal por supostamente operarem fundos fraudulentos para maquiagem contábil do Digimais. A Bless Capital teve seu sigilo bancário quebrado na operação a pedido da PF. PublicidadeA ascensão e a queda da ReagFundada em 2012 pelo empresário João Carlos Mansur, a Reag teve forte crescimento entre 2020 e 2025, quando passou a ser a maior gestora independente do país. Nesse período, saltou de R$ 25 bilhões para R$ 340 bilhões sob sua gestão. A derrocada da empresa começou em agosto de 2025, quando a Polícia Federal cumpriu busca e apreensões em sua sede para apurar se fundos de investimentos geridos pela empresa haviam sido usados para esconder do fisco bilhões de reais de empresários do ramo de combustível. Esses fundos compraram imóveis e até refinarias em uma teia recheada de empresas de fachada e laranjas feita para esconder que os ativos pertenciam aos donos das distribuidoras de petróleo Copape e Aster. Seus donos, Beto Louco e Mohamad, estão foragidos e tentaram, sem sucesso, emplacar uma delação premiada. A situação da Reag se agravou nos meses seguintes à Carbono Oculto, quando a empresa se viu novamente alvo de uma investigação, desta vez, sobre as fraudes no banco Master. Novamente, a gestão de fundos estava sob suspeita. A PF afirma que fundos geridos pela gestora foram usados para inflar artificialmente o patrimônio do banco. Em janeiro todo o conglomerado de administradoras e gestoras de fundo da Reag foi liquidado pelo Banco Central (BC), assim como o Master. ID afirma que segue ‘padrões de governança’A ID afirmou ao Estadão que, no caso das investigações sobre fundos do Digimais, “sente-se no dever de esclarecer que a corretora adota rigorosos padrões de governança e esclarecerá as autoridades sobre suas atividades e comprovará a lisura das suas operações”.A empresa afirma que “foi fundada pela BR Partners em 2012 e vendida em 2018 para a holding Bekoach, cujo acionista majoritário é o Rodrigo Balassiano”. “Francisco Emerson Maximiano fez parte Guiar Gestora de recursos, que se transformou em IDGR em 2019 e não existe mais. Essa empresa nunca possuiu vínculo com a ID CTVM e seu controlador Rodrigo Balassiano”, afirma. Diversas empresas estão cadastradas nos mesmos endereços como ID. Uma delas é a ID Gestora de recursos, identificada pela reportagem. Eles abriram diversos outros CNPJs com os mesmos nomes e endereços semelhantes. E ainda desempenham a atividade de gestores de fundos. Leia tambémFundador da Reag é suspeito de lavagem de dinheiro no inquérito de respiradores de Rui CostaQuem é João Carlos Mansur, fundador da Reag, alvo de operação contra o Banco MasterCarbono Oculto: segunda fase mira 6 fintechs envolvidas em esquema do PCC no setor de combustíveisA ID ainda afirma que “Roberto Giancoli Filho atuou por três meses na parte comerciaal do Máxima, junto com Rodrigo Balassiano e encerraram qualquer vínculo quando saíram”. “Atualmente, Roberto é sócio da ID Partners que contempla a gestora (GRID) e a ID FIP. Rodrigo Balassiano é sócio majoritário da ID CTVM”, afirma.A ID CTVM afirma ainda que não é “parte de um mesmo grupo” da Asarock e a Bless Capital. Eles afirmaram que a Bless somente locou uma sala para uma das IDs, e que esse contrato já foi rescindido. Afirmam ainda que não são sócios formais da ID Exclusivo, que é “100% de sociedade da Bless Capital”. Asarock diz ter relação apenas profissional com a ID A Asarock afirma que “possui governança própria, foi adquirida em setembro de 2025 e tem Gabriel Pupo como seu único acionista”. “Com mais de 20 anos de atuação no mercado financeiro, Gabriel sempre desenvolveu sua atividade profissional como agente autônomo de investimentos, construindo ao longo desse período relacionamento próprio com investidores, cotistas e demais participantes do mercado, trajetória que culminou na constituição de uma carteira com mais de 60 fundos de investimento atualmente sob gestão da companhia”, diz. Segundo a empresa, a “migração desses fundos ocorreu dentro dos procedimentos regulatórios aplicáveis e mediante as aprovações necessárias de administradores fiduciários, cotistas e demais instâncias competentes, conforme a estrutura de cada veículo”. A empresa afirma cumprir a legislação e regulamentação da CVM e diz que “a relação da gestora com administradores fiduciários, incluindo empresas do grupo ID, é estritamente profissional”. “A empresa trabalha com diferentes administradores do mercado e avalia continuamente a estrutura mais adequada para os fundos sob sua gestão. Não integra nem compõe grupo econômico com a ID ou qualquer outra administradora fiduciária”. Lelio Carneiro afirma que vendeu participação em gestoraLelio Vieira Carneiro Junior afirma que a “Asarock não foi fundada por mim”. “Adquiri a companhia em 2024, quando decidi atuar no segmento de gestão de fundos de investimento, e vendi integralmente minha participação em setembro de 2025″. “Com a venda, toda a estrutura operacional da empresa — incluindo seus profissionais e contratos — permaneceu na companhia, como ocorre normalmente em operações dessa natureza. Desde então, não possuo mais nenhuma participação societária, função executiva ou influência sobre a gestão da Asarock”, diz.Ele afirma que foi “incluído pela União como suposto responsável solidário antes mesmo da conclusão da discussão administrativa”. “O CARF, em primeira e segunda instâncias, já afastou integralmente minha responsabilidade no caso”, diz.“Também não possuo vínculo societário com as empresas que discutem os débitos tributários objeto da ação. Não existem atualmente bens bloqueados em meu nome relacionados a esse processo, uma vez que a empresa envolvida está questionando os débitos e apresentou garantia suficiente para assegurar a discussão judicial”, afirma. ELe afirma que nunca houve “utilização de fundos de investimento para prática de sonegação fiscal”. “As decisões do CARF registraram expressamente que as operações analisadas não caracterizam ilícito tributário e determinaram o afastamento da responsabilidade que me havia sido atribuída”, afirma.Bless Capital afirma que não integra mesmo grupo da IDA Bless Capital afirmou “que não possui vínculo societário com a ID e não integra o mesmo grupo econômico da companhia”. “Trata-se de empresas independentes, com estruturas societárias, governança e administrações próprias, que atuam em funções distintas dentro do ecossistema do mercado de capitais”.“Em relação aos fundos sob sua gestão, a Bless reafirma que todas as operações são conduzidas em estrita observância à regulamentação vigente, aos normativos dos órgãos reguladores e às melhores práticas de governança do mercado. Não procede qualquer alegação de utilização de fundos geridos pela companhia para fins de maquiagem contábil ou qualquer outra prática irregular”, afirma.A empresa afirma que não tomou conhecimento de medidas contra ela adotadas pela PF.