O caso Digimais —o banco de Edir Macedo investigado pela Polícia Federal— expõe uma fronteira nova: a fé deixou de ser vendida apenas em livros, shows e cursos e passou a aparecer associada a contas digitais, cartões, crédito e bancos.

Seria injusto transformar isso em acusação contra evangélicos. A maioria dos fiéis não é acionista nem beneficiária dessas engrenagens. O problema não é o povo evangélico —é o uso da confiança religiosa como ativo econômico.

Essa confiança é mensurável. A Genial/Quaest registrou, em 2025, 65% de confiança nas igrejas evangélicas, acima dos partidos e em patamar próximo ao dos próprios bancos, com 63%. A Artplan, em estudo sobre cultura e consumo, mostrou que o crescimento evangélico ultrapassa os templos e alcança linguagem, música, moda e decisões de compra. A fé se tornou força cultural e reputacional disputada também pelo mercado.

Antes dos bancos, lideranças religiosas já haviam aprendido a operar na lógica da mídia: audiência, marca, publicidade, presença cotidiana. Rádios, TVs e redes transformaram autoridade espiritual em reputação pública. A financeirização é o passo seguinte, levando essa confiança a um terreno mais sensível —o do crédito, do investimento e do risco.