Alvo de uma operação da Polícia Federal nesta terça-feira, o Banco Digimais, controlado pelo bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, entrou no centro de uma investigação sobre crimes contra o Sistema Financeiro Nacional. A Operação Miragem apura suspeitas de manipulação de balanços, ocultação da real situação financeira da instituição e operações supostamente ilegais realizadas durante a gestão do banco. Mais de 50 policiais federais cumprem nove mandados de busca e apreensão expedidos pela Justiça Federal em São Paulo. Macedo é um dos investigados por ser proprietário do banco. A decisão judicial também autorizou o afastamento dos sigilos bancário e fiscal dos investigados, além do sequestro e bloqueio de bens e valores de até R$ 670.348.945,70. Segundo a Polícia Federal, as investigações analisaram relatórios produzidos pelo Banco Central que apontaram graves irregularidades na condução dos negócios pelos administradores da instituição financeira. As apurações indicam que o esquema envolvia a manipulação sistemática de balanços e resultados contábeis para ocultar a real situação econômico-financeira do banco e aparentar solvência perante os órgãos de controle. Ainda de acordo com a investigação, a prática teria permitido a supervalorização de ativos e a geração artificial de receitas no montante de centenas de milhões de reais. A PF também apura operações financeiras supostamente ilegais realizadas em benefício da empresa controladora do banco, além da possível falsificação e manipulação de informações inseridas em sistemas oficiais de registro do órgão regulador. Os investigados poderão responder, na medida de suas responsabilidades, pelos crimes de gestão fraudulenta, inserção de dados falsos em demonstrativos contábeis e realização de operações de crédito vedadas, previstos na Lei nº 7.492/1986, que define os crimes contra o Sistema Financeiro Nacional. O g1 pediu posicionamento ao Digimais e aguarda resposta. Conheça o Digimais O Banco Digimais foi fundado em 1981, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, originalmente com o nome de Banco Renner, criado pela família homônima. A instituição passou por mudanças de controle e adotou o nome Digimais em 2020, quando foi reestruturada para atuar como banco digital. Digimais — Foto: Reprodução Foi naquele ano que Edir Macedo assumiu o controle integral do antigo Banco Renner, ao adquirir a totalidade das ações da instituição. Ele já era acionista minoritário desde 2009, quando comprou 40% de participação no banco. Em 2020, ao assumir todo o controle, rebatizou a instituição e colocou o bispo João Urbanela para dirigi-la. Após dois anos, uma instituição descrita como de finanças sólidas na era Renner passou a dar prejuízo. Em 2022, o balanço do banco apontou um vermelho de R$ 740 milhões no caixa. O banco também vinha sendo alvo de disputas e suspeitas envolvendo carteiras de crédito. Desde novembro do ano passado, a gestora Yards, que administra um fundo de direitos creditórios, abriu uma disputa na Justiça com o Digimais. A gestora afirma que a instituição financeira possui falhas na carteira de créditos oferecida para se tornar cotista do fundo. De acordo com a ação, ao menos 22 mil CCBs, as Cédulas de Crédito Bancário, de um total de 54 mil oferecidas para a participação, teriam problemas de lastro. A parcela restante, segundo o fundo à época, teria inconsistências relevantes que prejudicariam a cobrança dos créditos. Em março, a revista piauí revelou um modus operandi fraudulento do Digimais semelhante ao do Banco Master. Uma das irregularidades está sendo analisada na 13ª Vara de São Paulo em ação movida pelo fundo EXP1, que acusa o banco da Universal de vender R$ 650 milhões em carteiras de crédito falsas. Nesta semana, o Estado de S. Paulo mostrou que há repasses de carteiras do Digimais para outras instituições com cerca de 60% de inadimplência. Negociação com o BTG A crise também entrou no radar do mercado financeiro. Em abril, o BTG Pactual confirmou que celebrou acordos para adquirir o Banco Digimais. O banco de André Esteves já havia conversado com o Banco Central sobre o negócio. Segundo comunicado divulgado após o fechamento do mercado, o BTG entraria em um processo competitivo para verificar condições. A operação depende de aprovações regulatórias, como do Banco Central e do Conselho Administrativo de Defesa Econômica, o Cade. André Esteves, presidente do Banco BTG Pactual, durante uma sessão de painel no Fórum Econômico Mundial (WEF) em Davos, Suíça, em 2023 — Foto: Bloomberg De acordo com dados do Banco Central, o Digimais possuía, no fim do ano passado, 199 mil clientes. A instituição ainda não divulgou o balanço de 2025, mas, segundo dados da plataforma IF.Data, do Banco Central, até o fim do terceiro trimestre do ano passado o banco de Edir Macedo tinha R$ 9,297 bilhões em ativos e patrimônio líquido de R$ 420,5 milhões. Naquele momento, detinha R$ 1,92 bilhão em carteira de crédito e outros R$ 2,285 bilhões em títulos e valores mobiliários. Na esteira da nova legislação do Conselho Monetário Nacional, o BTG passou a ser apontado como participante do leilão que o Banco Central faria do Digimais. Outros bancos do S1 também participariam, mas o BTG era descrito como a instituição com maior apetite. As negociações em torno do banco envolveram ainda a possibilidade de um aporte de R$ 7 bilhões do Fundo Garantidor de Créditos, o FGC, para que a operação avançasse. Diante da resistência do fundo em seguir com o resgate nos termos negociados com o BTG Pactual, Edir Macedo passou a ser apontado como disposto a fazer ele próprio um aporte de R$ 1,5 bilhão no banco. Em dezembro do ano passado, o fundador da Universal já havia injetado R$ 250 milhões para reforçar o capital da instituição. A situação do Digimais também teve reflexos políticos. O Republicanos, partido controlado pela Igreja Universal, ainda não decidiu quem apoiará na eleição presidencial deste ano. Integrantes da cúpula da legenda estão focados em salvar o banco, que tem rombo estimado em R$ 8,5 bilhões. A eventual neutralidade na disputa passou a ser considerada uma alternativa em meio às negociações para tentar viabilizar a solução financeira. Desde a Semana Santa, a histórica postura da Universal contra o PT mudou de tom. Embora a igreja tenha passado o mês de março anunciando que enviaria um recado crítico à esquerda nos eventos da Sexta-feira da Paixão em estádios lotados pelo Brasil, isso não ocorreu. Depois disso, o presidente do Republicanos, o bispo licenciado Marcos Pereira, passou a dar entrevistas cogitando não apoiar Flávio Bolsonaro na corrida presidencial, uma aliança considerada natural diante da maior aceitação de nomes da direita no segmento evangélico. Em janeiro de 2025, Edir Macedo chegou a transferir o controle do Banco Digimais para o empresário Maurício Quadrado. O grupo de Quadrado, rebatizado recentemente de BlueBank, no entanto, não chegou a enviar toda a documentação ao Banco Central e desistiu do negócio em razão da deterioração recente do mercado. A transação já havia sido aprovada pelo Cade. Maurício Quadrado foi sócio e head de Investment Banking do Banco Master entre 2020 e 2024, período em que liderou aquisições importantes para o grupo. O executivo vendeu sua participação de 30% no banco em 2024. Enquanto não resolve a situação do Digimais e sua posição na eleição, o Republicanos segue alimentando especulações sobre seu futuro. Nos últimos dias, integrantes da sigla passaram a falar da possibilidade de o senador Cleitinho Azevedo se lançar ao Planalto. Cleitinho lidera pesquisas para o governo de Minas Gerais, mas ninguém no estado acredita que ele será candidato de fato. Para a Presidência da República, menos ainda.
Digimais: Conheça banco de Edir Macedo que se tornou alvo de BC e PF por crimes contra sistema financeiro
Operação Miragem apura suspeitas de manipulação de balanços, ocultação da real situação financeira da instituição e operações ilegais; Justiça autorizou bloqueio de até R$ 670 milhões em bens e valores











