Dias antes, na chegada da Celeste ao México, seis perguntas de uma repórter da Fifa produziram seis respostas em 38 segundos e apenas 26 palavras do técnico. Bielsa pode passar uma hora e meia explicando uma derrota, mas não parece disposto a desperdiçar uma sílaba com o ritual de parecer simpático. As duas histórias, viralizadas na primeira semana da Copa, talvez sejam a melhor maneira de apresentá-lo. Mesmo quando responde, produz outras perguntas. Era um protesto ou só uma foto ruim? Sua secura é honestidade ou grosseria? A obsessão que tornou tantos jogadores melhores é o traço de um gênio ou a incapacidade de um homem para viver o futebol — e deixar os outros viverem — sem transformá-lo numa provação? Nesta sexta, contra a Espanha, o Uruguai não jogará apenas por uma vaga. Pode disputar também o último capítulo de uma experiência que começou como revolução e chega ao momento decisivo parecendo um julgamento. Bielsa é o treinador mais influente de sua geração entre os grandes que menos venceram. Sua grandeza é do tamanho do próprio paradoxo. Foi campeão na Argentina, ganhou o ouro olímpico, levou o Leeds de volta à Premier League depois de 16 anos e construiu times lembrados com um afeto normalmente reservado aos campeões. Mas sua estante de troféus não explica a reverência. Pep Guardiola, Mauricio Pochettino e tantos outros não o tratam como mestre porque ele ganhou mais do que eles. Tratam-no assim porque Bielsa os ensinou a enxergar coisas que antes não viam. Sua grande obra talvez não esteja nos campeonatos conquistados, mas na cabeça de quem os conquistou. No Uruguai, toda a carreira de Bielsa coube em três anos. Primeiro veio a revelação. Ele aposentou hierarquias, rejuvenesceu o time e venceu com autoridade o Brasil e, na sequência, a campeã Argentina em Buenos Aires, pelas Eliminatórias. O encontro entre sua fé na intensidade e a velha disposição uruguaia para competir parecia ter produzido uma seleção capaz de afrontar qualquer um, mesmo com uma geração enfraquecida. Depois, na Copa América, eliminou a seleção brasileira e chegou à semifinal, mas caiu diante da Colômbia mesmo jogando todo o segundo tempo com um homem a mais. Era um fracasso bastante bielsista: o time havia ido longe o suficiente para confirmar a ideia, mas não longe o bastante para premiá-la. Técnico Marcelo Bielsa, do Uruguai, em partida contra Cabo Verde na Copa do Mundo — Foto: Lars Baron / Getty Images via AFP O ciclo resume uma definição possível: Bielsa é um gênio de intervenção e um gestor frequentemente incapaz de administrar as consequências da própria intervenção. A rachadura apareceu fora do campo. Luis Suárez — que se aposentou da seleção, manifestou depois o desejo de voltar e não foi chamado, numa sequência com participação direta do técnico — contou que funcionários eram separados dos jogadores, que faltava educação básica e que alguns companheiros chegaram ao limite. Agustín Canobbio, hoje no Fluminense, falou em desrespeito e disse ter sido relegado a recolher bolas ou servir de sparring nos treinamentos; Federico Valverde, o capitão, confirmou que havia verdade nas denúncias. Bielsa, que meses antes defendera seus atletas com fúria contra a Conmebol após a confusão com torcedores colombianos na Copa América, descobriu-se acusado de não protegê-los de si mesmo. Há uma diferença entre exigir e humilhar, entre formar e submeter, mas ela pode ser invisível para quem acredita que todo desconforto é parte do aprendizado. O técnico que vê detalhes antes de todos talvez seja incapaz de perceber alguns dos mais simples. Isso também permite a suspeita oposta. Poucos técnicos receberam tanto crédito pelo futebol jogado pelos outros. Bielsa virou uma espécie de campeão por procuração: quando o time de um discípulo pressiona, ocupa espaços, cria superioridades e vence, alguma porcentagem simbólica da taça parece viajar para Rosario, onde nasceu. É uma homenagem justa a quem abriu caminhos, mas também uma contabilidade generosa com um treinador que tantas vezes chegou perto, encantou e perdeu. Seus times costumam produzir lembranças melhores do que desfechos. Com ele, o caminho é tão intenso que, na hora de levantar a taça, já parece ter durado demaisA Copa pediu a Marcelo Bielsa que olhasse para a câmera. Ele olhou para o chão. Num Mundial em que 48 seleções, mais de mil jogadores, uma multidão de patrocinadores e outra de influenciadores parecem ter recebido a ordem de sorrir, o técnico do Uruguai surgiu na foto oficial de cabeça baixa, as mãos nos bolsos, como quem esperava o elevador. A imagem foi tratada como manifesto. Bielsa, afinal, detestaria o show, os protocolos, o futebol transformado em cenário. Quando lhe pediram uma explicação, estragou também essa interpretação: disse que não era modelo e não devia satisfação sobre a direção dos próprios olhos. Técnico Marcelo Bielsa durante Uruguai x Cabo Verde na Copa do Mundo — Foto: Molly Darlington/ Getty Images via AFP Dias antes, na chegada da Celeste ao México, seis perguntas de uma repórter da Fifa produziram seis respostas em 38 segundos e apenas 26 palavras do técnico. Bielsa pode passar uma hora e meia explicando uma derrota, mas não parece disposto a desperdiçar uma sílaba com o ritual de parecer simpático. As duas histórias, viralizadas na primeira semana da Copa, talvez sejam a melhor maneira de apresentá-lo. Mesmo quando responde, produz outras perguntas. Era um protesto ou só uma foto ruim? Sua secura é honestidade ou grosseria? A obsessão que tornou tantos jogadores melhores é o traço de um gênio ou a incapacidade de um homem para viver o futebol — e deixar os outros viverem — sem transformá-lo numa provação? Nesta sexta, contra a Espanha, o Uruguai não jogará apenas por uma vaga. Pode disputar também o último capítulo de uma experiência que começou como revolução e chega ao momento decisivo parecendo um julgamento. Bielsa é o treinador mais influente de sua geração entre os grandes que menos venceram. Sua grandeza é do tamanho do próprio paradoxo. Foi campeão na Argentina, ganhou o ouro olímpico, levou o Leeds de volta à Premier League depois de 16 anos e construiu times lembrados com um afeto normalmente reservado aos campeões. Mas sua estante de troféus não explica a reverência. Pep Guardiola, Mauricio Pochettino e tantos outros não o tratam como mestre porque ele ganhou mais do que eles. Tratam-no assim porque Bielsa os ensinou a enxergar coisas que antes não viam. Sua grande obra talvez não esteja nos campeonatos conquistados, mas na cabeça de quem os conquistou. Isso também permite a suspeita oposta. Poucos técnicos receberam tanto crédito pelo futebol jogado pelos outros. Bielsa virou uma espécie de campeão por procuração: quando o time de um discípulo pressiona, ocupa espaços, cria superioridades e vence, alguma porcentagem simbólica da taça parece viajar para Rosario, onde nasceu. É uma homenagem justa a quem abriu caminhos, mas também uma contabilidade generosa com um treinador que tantas vezes chegou perto, encantou e perdeu. Seus times costumam produzir lembranças melhores do que desfechos. Com ele, o caminho é tão intenso que, na hora de levantar a taça, já parece ter durado demais No Uruguai, toda a carreira de Bielsa coube em três anos. Primeiro veio a revelação. Ele aposentou hierarquias, rejuvenesceu o time e venceu com autoridade o Brasil e, na sequência, a campeã Argentina em Buenos Aires, pelas Eliminatórias. O encontro entre sua fé na intensidade e a velha disposição uruguaia para competir parecia ter produzido uma seleção capaz de afrontar qualquer um, mesmo com uma geração enfraquecida. Depois, na Copa América, eliminou a seleção brasileira e chegou à semifinal, mas caiu diante da Colômbia mesmo jogando todo o segundo tempo com um homem a mais. Era um fracasso bastante bielsista: o time havia ido longe o suficiente para confirmar a ideia, mas não longe o bastante para premiá-la. O ciclo resume uma definição possível: Bielsa é um gênio de intervenção e um gestor frequentemente incapaz de administrar as consequências da própria intervenção. A rachadura apareceu fora do campo. Luis Suárez — que se aposentou da seleção, manifestou depois o desejo de voltar e não foi chamado, numa sequência com participação direta do técnico — contou que funcionários eram separados dos jogadores, que faltava educação básica e que alguns companheiros chegaram ao limite. Agustín Canobbio, hoje no Fluminense, falou em desrespeito e disse ter sido relegado a recolher bolas ou servir de sparring nos treinamentos; Federico Valverde, o capitão, confirmou que havia verdade nas denúncias. Bielsa, que meses antes defendera seus atletas com fúria contra a Conmebol após a confusão com torcedores colombianos na Copa América, descobriu-se acusado de não protegê-los de si mesmo. Há uma diferença entre exigir e humilhar, entre formar e submeter, mas ela pode ser invisível para quem acredita que todo desconforto é parte do aprendizado. O técnico que vê detalhes antes de todos talvez seja incapaz de perceber alguns dos mais simples. Marcelo Bielsa, técnico do Uruguai, na partida contra Cabo Verde na Copa do Mundo — Foto: Lars Baron / Getty Images via AFP No fim do ano passado, depois de um 5 a 1 sofrido para os Estados Unidos em amistoso, Bielsa ofereceu talvez a melhor definição já feita sobre ele. “Eu sou tóxico”, disse. “Relacionar-se comigo piora quem se relaciona comigo.” Explicou que enxerga primeiro o erro, nunca se satisfaz e sente muito mais a derrota do que desfruta a vitória. Não era uma confissão arrancada por um adversário. Era o próprio Bielsa colocando em palavras aquilo que tantos jogadores já haviam experimentado. A base desse comportamento, autoanalisou, era o medo. A frase pode ser lida como coragem. Poucos treinadores se expõem daquele modo. Também pode ser lida como álibi. Há certa comodidade em transformar defeitos que ferem os outros numa tragédia pessoal quando a lucidez não produz nenhuma mudança. Bielsa sabe que cobra demais, se comunica mal, torna a convivência pesada e contamina os ambientes. Sabe há muito tempo. A pergunta não é mais se compreende o problema, mas por que continua esperando que sejam os outros a suportar a solução. Ainda assim, chamá-lo apenas de chato seria uma forma preguiçosa de não entender o fascínio. Bielsa melhora jogadores, cria identidades e devolve coragem a clubes e seleções. Sua passagem deixa marcas que sobrevivem aos resultados e aos próprios trabalhos. Seu futebol parte de uma ideia comovente: a de que uma equipe pode dominar o medo pelo movimento, recuperar a bola avançando, atacar sem pedir licença e vencer sem trair aquilo em que acredita. O problema é que o método criado para derrotar o medo nasce do homem que mais teme perder. Toda a liberdade oferecida ao time é organizada por alguém que não consegue se libertar. O Uruguai chegou à Copa trazendo essa contradição inteira. Empatou com Arábia Saudita e Cabo Verde, somou dois pontos em partidas que Bielsa acredita ter merecido vencer e agora enfrenta a Espanha, líder do grupo, ainda invicta há 33 jogos. Uma vitória garante a classificação; qualquer coisa abaixo disso entrega seu destino ao saldo e à confusa tabela dos melhores terceiros. A possível última partida de Bielsa pelo Uruguai será também a mais difícil de seu Mundial.
Gênio ou tóxico? Bielsa enfrenta a Espanha em jogo que pode encerrar sua era no Uruguai
De "cabeça baixa" e diante do próprio legado, técnico que ensinou uma geração a enxergar o futebol chega à possível despedida cercado por fascínio, conflitos e contradições














