Prédio da Toshiba no Japão: decisões discutíveis tomadas dez anos atrás tiraram do portfólio negócios que hoje seriam muito lucrativos — Foto: 潇 文/Unsplash A Toshiba planejava ser líder global em chips de memória e energia nuclear, mas acabou renunciando a ambos os negócios por causa de uma crise de gestão que eclodiu em 2016. Ironicamente, uma década depois, ambos os setores estão em plena expansão com o advento da inteligência artificial. Na assembleia geral de acionistas da Kioxia Holdings — antiga divisão de memória da Toshiba — realizada na quinta-feira, 900 investidores lotaram um salão alugado com capacidade para 500 pessoas. Eles parabenizaram a administração da Kioxia, por ela ter se tornado a empresa mais valiosa do Japão. Suas ações dispararam 71 vezes desde o preço da oferta pública inicial (IPO) em dezembro de 2024. No fechamento do pregão de quinta-feira, a empresa valia 56 trilhões de ienes (US$ 346 bilhões). A participação da Toshiba na Kioxia caiu para 16%, e a empresa planeja continuar reduzindo gradualmente sua participação. Atsutoshi Nishida, que liderou a Toshiba entre 2005 e 2014 como presidente e depois como presidente do conselho, tinha como objetivo fazer da energia nuclear e dos semicondutores os pilares do crescimento da Toshiba. Não se sabe ao certo se ele previu a era da inteligência artificial, mas ele entendia a importância de desenvolver internamente tecnologia de ponta. No entanto, o conflito com Norio Sasaki, que sucedeu Nishida na presidência, desestabilizou a estratégia de Nishida. A competição entre as divisões levou a metas de lucros infladas e incentivou fraudes contábeis, enquanto as operações nucleares nos Estados Unidos acumulavam enormes prejuízos, já que a Toshiba adiava a resolução dos problemas naquele país. Para compensar as perdas, a Toshiba se desfez de seus negócios de dispositivos médicos, eletrodomésticos, televisores e computadores pessoais. A unidade nuclear americana Westinghouse Electric entrou com pedido de falência em 2017, deixando o patrimônio líquido da Toshiba em 500 bilhões de ienes no vermelho e ameaçando sua listagem na Bolsa de Valores de Tóquio. Para manter sua posição de empresa aberta, a companhia decidiu vender seu negócio de memória. Mas as negociações estagnaram e, com a aproximação do prazo para a Toshiba recuperar seu patrimônio líquido, a empresa implementou o plano B: uma emissão privada de ações no valor de 600 bilhões de ienes para fundos estrangeiros. No ano fiscal de 2017, o negócio de memória registrou um lucro operacional de 500 bilhões de ienes — o que provavelmente teria sido suficiente para manter a Toshiba na bolsa de valores sem a necessidade de venda de ações. Em sua pressa para permanecer listada, a empresa perdeu o que se tornaria um negócio extremamente valioso. Dito isso, não está claro se o negócio de memória teria se tornado tão valioso sob a gestão da Toshiba. A divisão constantemente reclamava que a matriz era um obstáculo. Em contraste com seu negócio de equipamentos pesados, que construía usinas de energia com horizontes de 40 anos, e suas operações de eletrodomésticos e computadores, onde o desenvolvimento era voltado para anos à frente, a Toshiba tinha pouco conhecimento sobre seu negócio de semicondutores, no qual prever até mesmo os próximos três meses poderia ser um desafio. O setor é propenso a ciclos de expansão e recessão, e o negócio exige investimentos de capital ousados, mesmo quando os lucros são baixos, em preparação para a próxima recuperação. Mas era difícil obter a aprovação da matriz para gastos em uma divisão deficitária, e a Toshiba cedeu terreno para a Samsung Electronics. Os executivos da Toshiba alardeavam a tecnologia da empresa, mas raramente respeitavam os interesses da divisão de semicondutores. Para piorar a situação, a administração entrou em conflito com investidores ativistas que participaram da emissão de ações em 2017, devido a divergências sobre o retorno aos acionistas e a indicação de diretores. A injeção de capital destinada a manter a Toshiba como empresa de capital aberto abriu caminho para seu fechamento de capital. A empresa deixou a bolsa de valores em 2023, após ser adquirida por um consórcio liderado pela Japan Industrial Partners (JIP). "Deveríamos ter fechado o capital em 2017 e recomeçado do zero", disse um membro da liderança da Toshiba na época. "Não conseguimos tomar uma decisão ponderada em meio à turbulência." Em 2023, a atenção começou a se voltar para semicondutores e energia nuclear em meio ao nascente negócio da inteligência artificial. A Westinghouse, que havia levado a Toshiba à beira da falência, passou a fazer parte do grupo de uma mineradora canadense de urânio naquele ano e, desde então, conquistou grandes encomendas como parte dos planos de US$ 80 bilhões do governo americano para a construção de usinas nucleares para data centers. Sem os negócios antes considerados motores de crescimento futuro, a Toshiba agora busca se reerguer sob a gestão da JIP. O plano da empresa é lucrar com equipamentos de geração, transmissão e distribuição de energia, além de elevadores e discos rígidos, enquanto transforma equipamentos de defesa, computação quântica e inteligência artificial física nos próximos motores de crescimento. Um vice-presidente da JIP liderou os esforços de reforma, cortando custos fixos e reestruturando negócios não lucrativos. A transmissão de energia e os discos rígidos foram impulsionados pela inteligência artificial. A Toshiba registrou uma margem de lucro operacional recorde de 8% no último ano fiscal. Mas o impacto da reforma nos lucros foi obscurecido pelos 2,27 trilhões de ienes que a Toshiba ganhou com sua participação na Kioxia — o equivalente a cerca de 60% das vendas.