Kioxia projeta aumento de 47 vezes no lucro líquido graças à explosão das vendas de memórias — Foto: Bloomberg As principais empresas japonesas devem registrar lucro líquido recorde pelo sexto ano consecutivo no atual ano fiscal japonês (até março de 2027), impulsionadas pelo forte desempenho do setor de tecnologia ligado à inteligência artificial, que deve compensar com folga a pressão de custos mais altos de insumos devido aos conflitos no Oriente Médio. A corrida global por infraestrutura de inteligência artificial, especialmente a construção de data centers, tende a sustentar o crescimento de fabricantes de semicondutores, equipamentos para produção de chips e componentes eletrônicos até março de 2027. Projeções de casas de análise no Japão apontam para mais um ano de expansão, segundo informações divulgadas pela Kyodo News. A SMBC Nikko Securities estima que o lucro líquido combinado de 250 grandes companhias listadas em Tóquio avance 19,3% neste ano fiscal, com destaque para empresas do setor de semicondutores. A Nomura projeta crescimento médio de 5,9% no lucro de 242 grandes empresas no exercício de 2026, enquanto a Daiwa Securities prevê alta de 5,1% para 210 companhias acompanhadas. Empresas ligadas a inteligência artificial e semicondutores seguem na liderança dos ganhos, com espaço para continuidade da tendência à medida que fatores de pressão, como o petróleo mais caro, começam a se estabilizar, afirmou à agência de notícias japonesa o estrategista-chefe de ações da SMBC Nikko, Hikaru Yasuda. Os preços do petróleo dispararam após o início de ataques conjuntos dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, em fevereiro, que afetaram o fluxo global de oferta. O Estreito de Ormuz, rota estratégica para o transporte de energia, é vital para o Japão, altamente dependente de importações do Oriente Médio. Mais recentemente, porém, o mercado de petróleo voltou a níveis próximos aos anteriores ao choque. A SMBC Nikko projeta que o lucro líquido do setor de eletrodomésticos mais que dobre no ano fiscal encerrado em março de 2026, enquanto o segmento de instrumentos de precisão — que inclui empresas ligadas a semicondutores — deve crescer 19%. Dados da World Semiconductor Trade Statistics indicam que o mercado global de chips deve avançar 89,9% em 2026, após expansão de 26,2% no ano anterior. Esse cenário favorece empresas japonesas do setor, como Kioxia Holdings, Advantest e Tokyo Electron. A Kioxia, grande fabricante de memórias NAND (um tipo de memória flash não volátil usada para armazenar dados), informou em maio que espera salto superior a 47 vezes no lucro líquido no primeiro trimestre fiscal até junho, chegando a 869 bilhões de ienes (US$ 5,4 bilhões), impulsionada pela demanda de data centers de inteligência artificial. A companhia, no entanto, não divulgou projeções anuais devido à volatilidade geopolítica, embora avalie que o impacto do conflito no Oriente Médio tende a ser limitado por sua diversificação de fornecedores. Para o estrategista-chefe da Daiwa Securities, Kenji Abe, o setor de semicondutores deve liderar revisões positivas nas projeções corporativas ao longo do ano. No front geopolítico, o Irã sinaliza intenção de reabrir o Estreito de Ormuz à navegação comercial, segundo memorando de entendimento com os Estados Unidos. Ainda assim, a incerteza sobre o ritmo dessa reabertura mantém empresas em alerta. Companhias japonesas de navegação, como Nippon Yusen e Mitsui OSK Lines, adotaram cenários conservadores em seus balanços, prevendo continuidade das restrições até o fim de junho e normalização gradual ao longo do ano. Ambas projetam queda no lucro líquido no exercício fiscal até março de 2027. Apesar disso, Yasuda avalia que o cenário no Oriente Médio vem melhorando. Segundo ele, havia temor de manutenção prolongada dos preços elevados do petróleo, mas o mercado já mostra sinais de estabilização. O setor automotivo japonês, por sua vez, também deve ter forte recuperação, com alta estimada de 36,5% no lucro líquido neste ano fiscal, após queda de 34,6% no ano anterior, segundo a SMBC Nikko. Na opinião do estrategista sênior da Nomura Securities, Masaki Motomura, o impacto das tarifas dos Estados Unidos sobre o setor já foi amplamente absorvido pelo mercado. Em abril de 2025, o presidente norte-americano Donald Trump elevou a tarifa sobre carros japoneses para 27,5%, reduzindo-a posteriormente para 15% em acordo firmado em julho e implementado em setembro. A retomada do setor também deve ser impulsionada pelo lançamento de novos modelos e pela desvalorização do iene, segundo a Daiwa Securities. Mesmo com incertezas geopolíticas, analistas afirmam que empresas listadas devem seguir revisando projeções para cima ao longo do exercício. “Grande parte da pressão vinda do Oriente Médio tende a ser ignorada pelo mercado”, disse Motomura.