Balanços iniciais divulgados após dois terremotos atingirem a Venezuela na noite de quarta-feira indicam que ao menos 164 pessoas morreram e outras mil ficaram feridas no desastre, mas o número real ainda pode subir significativamente. Enquanto a presidente interina, Delcy Rodríguez, diz que as informações coletadas ainda não incluem as vítimas de La Guaira, região ao norte da capital que foi a mais atingida, atualizações mais recentes do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) indicam chances de que o número de mortos fique entre mil e 10 mil. O mesmo modelo projeta uma probabilidade de 37% de que o total de mortes seja entre 10 mil e 100 mil. Anteriormente, as projeções indicavam 30% de chance de o número de mortos ultrapassar 100 mil e 44% de probabilidade de ficar entre 10 mil e 100 mil. O USGS também estima que as perdas econômicas provocadas pelos terremotos equivalem a entre 1% e 4% do Produto Interno Bruto (PIB) da Venezuela. O órgão ressalta que esses cálculos não são previsões, mas projeções estatísticas baseadas em terremotos anteriores com características semelhantes. A ausência de dados completos de uma das áreas mais afetadas é um dos principais fatores que indicam que o número oficial de mortos ainda está longe de refletir a dimensão total do ocorrido. Segundo a ONU, mais de 100 edifícios desabaram apenas na cidade de La Guaira, onde prédios de até dez andares vieram abaixo e equipes de resgate continuam procurando sobreviventes. As buscas também seguem em Caracas e em outros estados do norte do país. Autoridades locais relataram que pessoas foram retiradas com vida dos escombros horas após os tremores, um sinal de que ainda há desaparecidos sob estruturas colapsadas. No município de Chacao, na região metropolitana da capital, equipes de emergência resgataram ao menos 22 pessoas de edifícios atingidos. Além do número ainda desconhecido de desaparecidos, especialistas apontam que as características dos terremotos aumentam seu potencial destrutivo. O primeiro tremor teve magnitude 7,2, e o segundo, ocorrido apenas 39 segundos depois, atingiu magnitude 7,5 — o mais forte registrado na Venezuela desde 1900. Ambos ocorreram a menos de 25 km de profundidade, o que significa que foram terremotos rasos, capazes de provocar tremores mais intensos na superfície. Eles foram provocados pelo atrito entre as placas tectônicas do Caribe e da América do Sul. Venezuelanos ficam presos em prédios destruídos após forte terremoto Dois terremotos menores foram registrados posteriormente nas proximidades de Caracas, e sismólogos avaliaram que há grande probabilidade de ocorrer pelo menos uma réplica de magnitude 5,0 ou superior ao longo da próxima semana. Vulnerabilidade estrutural Ainda segundo o USGS, a região afetada apresenta alta vulnerabilidade estrutural. Muitas construções são feitas de alvenaria sem reforço adequado e blocos de adobe, materiais que oferecem menor resistência a terremotos de grande intensidade. De acordo com o órgão, a combinação entre a magnitude dos tremores, a baixa profundidade e as características das edificações elevou o risco de desabamentos. Em alguns bairros de Caracas, edifícios desabaram e houve interrupções no fornecimento de energia elétrica. Testemunhas relataram prédios balançando violentamente, janelas tremendo e tubulações de água se rompendo. Fotos e vídeos verificados pelo New York Times mostram edifícios de concreto reduzidos a escombros e outros gravemente danificados. Na cidade portuária de La Guaira, principal porta de entrada para a capital, prédios de até dez andares desabaram, e torres residenciais de grande altura foram vistas inclinadas. Outro fator que preocupa é a capacidade de resposta do país. A infraestrutura venezuelana já enfrentava dificuldades antes do desastre. Sistemas de energia, transporte, saúde e comunicações foram afetados pelos terremotos, dificultando a chegada de equipes de socorro e a avaliação dos danos. O Aeroporto Internacional Simón Bolívar foi fechado após sofrer avarias, com vídeos mostrando tetos desabados em terminal. Serviços ferroviários e de metrô também foram suspensos. Há relatos, ainda, de interrupções de internet e problemas no abastecimento de combustível em áreas atingidas. Segundo autoridades, muitos moradores passaram a noite nas ruas por medo de novos desabamentos e devido ao risco de comprometimento das redes de gás. Equipes de emergência Autoridades venezuelanas mobilizaram centenas de agentes de emergência para procurar sobreviventes. Delcy decretou estado de emergência, convocou médicos e enfermeiros a se apresentarem ao trabalho para atender os feridos e afirmou que hotéis e abrigos seriam disponibilizados para os desabrigados. Os Estados Unidos e vários países da América Latina anunciaram o envio de ajuda humanitária e equipes de resgate. Delcy afirmou que parte desses grupos, além de equipes da República Dominicana, El Salvador, México e Catar, começaria a chegar ao país já nesta quinta-feira. “Estaremos ao lado de nossos novos e grandes amigos”, escreveu Trump na Truth Social, acrescentando que “os primeiros relatos não são bons”. Nas primeiras horas da manhã desta quinta-feira, o secretário de Estado, Marco Rubio, afirmou que os EUA estavam enviando “imediatamente” equipes de busca e resgate, recursos médicos e ajuda humanitária. Delcy agradeceu a Trump em uma publicação no X, escrevendo que seu país “jamais esquecerá a mão estendida” pelos Estados Unidos. O presidente de El Salvador, Nayib Bukele, afirmou que seu país preparou 50 toneladas de equipamentos e suprimentos, além de 300 socorristas que estão “prontos para partir rumo a Caracas”. Os presidentes do Equador e do México também anunciaram o envio de ajuda, enquanto o brasileiro, Lula (PT), afirmou que o Brasil avaliará que tipo de assistência poderá oferecer ao que chamou de sua “nação irmã”. O chefe de ajuda humanitária da ONU, Tom Fletcher, afirmou que a organização está “totalmente mobilizada” para apoiar a população venezuelana, incluindo o envio rápido de equipes de busca e resgate e o reforço de sua missão humanitária no país. Por sua vez, a União Europeia (UE) ativou seu sistema de vigilância por satélite para auxiliar nos trabalhos de recuperação e está pronta para “ampliar a assistência”, afirmou a comissária europeia para Gestão de Crises, Hadja Lahbib. Crise econômica e política A Venezuela enfrenta anos de crise econômica e sanções severas impostas pelos Estados Unidos, e os terremotos representam um desafio imediato para a presidente. Em janeiro, forças americanas invadiram, capturaram e depuseram o presidente Nicolás Maduro, levando-o para os EUA para responder a acusações federais relacionadas ao tráfico de drogas. Trump escolheu Delcy como sucessora e prometeu que a mudança “desencadearia prosperidade” ao revitalizar a indústria petrolífera venezuelana. Forte terremoto atinge a Venezuela 1 de 16 Equipes de resgate seguem em uma corrida contra o tempo para encontrar sobreviventes soterrados em Caracas — Foto: Federico PARRA / AFP 2 de 16 Um homem inspeciona um prédio de apartamentos que desabou após um terremoto em Catia La Mar, no estado de La Guaira, a cerca de 30 km a noroeste de Caracas, em 25 de junho de 2026 — Foto: FEDERICO PARRA / AFP X de 16 Publicidade 16 fotos 3 de 16 Prédios destruídos, feridos e pânico: imagens mostram destruição causada por terremoto na Venezuela — Foto: Juan Barreto/AFP 4 de 16 O governo venezuelano declarou estado de emergência após dois fortes terremotos atingirem o país quase consecutivamente — Foto: Juan Barreto/AFP X de 16 Publicidade 5 de 16 Os tremores foram sentidos até na Colômbia e no Brasil — Foto: Federico Parra/AFP 6 de 16 As cenas em Caracas eram de destruição e pânico — Foto: Federico Parra/AFP X de 16 Publicidade 7 de 16 Pessoas do lado de fora gritavam os nomes de seus parentes, e alguns voluntários escalavam os escombros — Foto: Federico Parra/AFP 8 de 16 Diversas áreas ficaram sem energia elétrica. Muitas ruas estavam cobertas de cacos de vidro — Foto: Manaure Quintero/AFP X de 16 Publicidade 9 de 16 Pessoas que evacuaram prédios em Caracas esperaram mais de uma hora antes de retornar — Foto: Manaure Quintero/AFP 10 de 16 Prédios desabaram em diferentes partes de Caracas — Foto: Manaure Quintero/AFP X de 16 Publicidade 11 de 16 Terremotos causaram destruição na Venezuela — Foto: AFP 12 de 16 Terremotos na Venezuela: país registra 10 réplicas após abalos que deixaram ao menos 32 mortos — Foto: AFP X de 16 Publicidade 13 de 16 Equipes de socorro, incluindo integrantes da Cruz Vermelha Venezuelana, procuram pessoas que possam estar presas sob os escombros — Foto: Federico PARRA / AFP 14 de 16 Busca por pessoas que possam estar soterradas em Caracas — Foto: Federico PARRA / AFP X de 16 Publicidade 15 de 16 Nos próximos dias, o esforço humanitário deverá se concentrar no resgate de sobreviventes — Foto: Federico PARRA / AFP 16 de 16 As pessoas retiradas dos escombros estão recebendo atendimento médico em clínicas locais — Foto: Federico PARRA / AFP X de 16 Publicidade Prédios desabaram em diferentes partes de Caracas Seis meses depois, há poucos sinais de uma recuperação econômica significativa sob o governo de Delcy, cuja taxa de aprovação caiu para 25% em maio. Os cofres públicos continuam praticamente vazios, deixando o governo sem condições para financiar serviços básicos. Embora o governo Trump tenha concedido isenções especiais às sanções para empresas interessadas em fazer negócios na Venezuela, nenhuma anunciou publicamente investimentos significativos no país. A inflação anual está em queda, mas continua sendo a mais alta do mundo; a moeda segue se desvalorizando e, embora os salários tenham aumentado, permanecem insuficientes para tirar a população da pobreza extrema.