Um apanhado de restaurantes que valem a pena — e um que é cenografia 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Buenos Aires é interessante de um jeito que só ela sabe ser: tem personalidade própria — Foto: Unsplash/Mario Amé RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 24/06/2026 - 16:48 Buenos Aires: Gastronomia autêntica e resiliência em meio à crise Buenos Aires encanta com sua autenticidade, mesmo em meio a crises. A cidade oferece uma rica experiência gastronômica, embora com preços elevados. Destaque para o Aramburu, que entrega técnica impecável, e o Corte Comedor, que surpreende com tradição inovadora. O Autre Monde oferece vinhos únicos. Já o Niño Gordo decepciona com excesso de visual e pouca substância. Buenos Aires celebra a imperfeição como forma de resistência e transformação. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Este texto foi enviado na newsletter semanal O Crítico Antigourmet, em que Ian Oliver faz resenhas da gastronomia de São Paulo. Quer receber o conteúdo um dia antes da publicação on-line? Clique aqui para se inscrever. Buenos Aires é a prova de que o equívoco nem sempre produz decadência. A capital portenha não possui a eficiência de Tóquio, a riqueza de Nova York ou o brilho de Paris. Mas é interessante de um jeito que só ela sabe ser. Buenos Aires tem personalidade própria. A Argentina atravessou crises que teriam condenado muitas capitais à ruína, mas, caminhando por Palermo ou Recoleta, a sensação é de uma cidade que reage contra o próprio declínio. Os prédios carregam marcas do tempo e as calçadas revelam décadas de improviso, mas a vida cultural e gastronômica continua lá. Não tenho dúvidas de que cultura é resultado de um processo histórico que pouco tem a ver com riqueza material. Passei três dias lá em um fim de semana recente. O choque de realidade começa no bolso: os preços estão assustadores. Exceto pelo vinho, Buenos Aires hoje habita a mesma faixa de preço de São Paulo, quando não a supera. Para ajudar o viajante a não queimar pesos em vão, preparei uma lista do que vale a pena e do que é pura teatralidade vazia. Onde o acerto acontece Aramburu: a técnica sem risco Único biestrelado da cidade, na Recoleta, o restaurante entrega um serviço eficiente e uma execução técnica irrepreensível. O problema? Falta risco. Em uma era em que os grandes menus degustação buscam criar linguagem própria, o Aramburu parece satisfeito em executar clássicos contemporâneos com enorme competência. É muito bom, de fato, mas talvez caro demais para ser “apenas” muito bom. Se dinheiro não for o problema e você busca apenas prazer sensorial, vá. Mas não espere ser desafiado. Aramburu: satisfeito em executar clássicos contemporâneos com enorme competência — Foto: Ian Oliver Nuestro Secreto: a inércia do luxo Instalado no Four Seasons, também na região da Recoleta, entrega uma experiência correta e agradável, mas raramente empolgante. Não há erros graves, mas também não há grandes acertos. É o tipo de lugar "intermediário" que cobra como se fosse o destino final. Caro, bem caro, para uma entrega que não tira ninguém da zona de conforto. Nuestro Secreto: não há erros graves, mas também não há grandes acertos — Foto: Ian Oliver Corte Comedor: a grande surpresa Parrilla de verdade, sem discurso sobre defumação, pinças desnecessárias ou camisas do Maradona penduradas para forçar autenticidade. Apenas carne excelente, domínio técnico da grelha e uma compreensão rara de que tradição não precisa ser conservadora. De todos os lugares visitados, este em Belgrano é o que apresenta o preço mais justo pela entrega. É a inovação respeitando a história. CA - Buenos Aires - Corte Comedor: carne excelente e compreensão de que tradição não precisa ser conservadora — Foto: Ian Oliver Autre Monde: vinho fora do óbvio Fora dos restaurantes, é parada obrigatória. Em tempos de cartas previsíveis, a loja em Palermo oferece algo raro: curiosidade. Há produtores pequenos e regiões menos óbvias que dificilmente apareceriam em prateleiras convencionais. É o lugar para quem quer beber a Argentina diversa que não aparece nos rótulos de importação. CA - Buenos Aires - Autre Monde: produtores pequenos e regiões menos óbvias — Foto: Ian Oliver Fuja, que é cilada Niño Gordo: o fenômeno de plástico Aqui, o volume visual e o excesso de estímulos tentam substituir o sabor. Não conseguem. O restaurante se tornou um fenômeno de Instagram, mas a conta chega com ambições de alta gastronomia que a comida não sustenta. Gastar o equivalente a R$ 350 em um katsu sando de carne bovina absolutamente medíocre é uma experiência memorável apenas pelo arrependimento. Fuja: é cilada para turista digital. Niño Gordo: experiência memorável apenas pelo arrependimento — Foto: Ian Oliver Por sua conta e risco Lugares que não visitei desta vez, mas que habitam o imaginário (e as listas de espera) da cidade: Julia: cozinha argentina em clima de bistrôMishiguene: cozinha judaica com foco em saborAnchoita: onde o produto é valorizado Gran Dabbang: a fusão que costuma dar certoPony Line: para ver a fauna da Recoleta com um drink na mão Buenos Aires, afinal, nos ensina que a perfeição é um tédio. Que o que importa é a resistência e que a transformação depende do conflito. E, em meio ao caos, uma taça de bom Malbec (sim, eles existem) para acompanhar o seu admirável declínio.
Buenos Aires e a estética do erro acertado
Um apanhado de restaurantes que valem a pena — e um que é cenografia
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