Interagir e conversar compartilhando a boa mesa torna-se ainda mais significativo em tempos de desencanto 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Roda de samba na Pedra do Sal, na região central do Rio — Foto: Alexandre Cassiano/Agência O Globo RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 11/06/2026 - 22:22 O Papel Cultural e Social da Cerveja na Sociedade Brasileira A cerveja transcende o simples hábito, sendo uma prática cultural rica em tradições. Luiz Antonio Simas destaca seu papel histórico e social, desde leis antigas até a cultura popular brasileira, ressaltando a importância do convívio comunitário em tempos de distanciamento social. Campanhas de consumo responsável e o mercado de cervejas sem álcool refletem a evolução desse cenário, mantendo viva a essência do encontro e da celebração. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Gosto de definir cultura como campo de construção de práticas e sentidos de mundo dos diversos grupos sociais. Fazem parte da cultura nossas formas de brincar, festejar, rezar, celebrar os vivos, relembrar os mortos, plantar, colher, comer, beber, se vestir, educar as crianças etc. Para ser mais preciso, pensemos no samba. Mais que ritmo ou coreografia, o samba é um fato cultural que organiza o mundo. Em torno de uma roda de samba circulam ritos e práticas que definem uma cultura: as formas de cantar, bater na palma da mão, versar um partido-alto, se vestir, degustar a feijoada, tomar a cerveja gelada, encontrar as pessoas, celebrar coletivamente o pertencimento à roda e reconstruir a vida como experiência de pertencimento a uma comunidade. É nesse sentido que posso definir o ato de tomar cerveja com as amizades, compartilhando o balcão de um botequim ou a mesa de um restaurante, como algo que vai além de um simples hábito. É uma prática cultural ancorada numa tradição passada por gerações. Estar na rua, interagir e conversar compartilhando a boa mesa torna-se ainda mais significativo em tempos de desencanto. A vida é condicionada pelo tempo acelerado do relógio, as ruas parecem cada vez mais moldadas para a circulação de carros, as telas dos celulares capturam a atenção e transformam o convívio humano em algo mediado pelo algoritmo das redes. As diversas abas abertas ao mesmo tempo num computador fragmentam e dispersam nossa atenção, os bons debates (travados na base do olho no olho) são substituídos por tretas virtuais. Por tudo isso, o convívio comunitário se torna raro, e as sociabilidades e afetos que nos humanizam vão para a cucuia. A história da cerveja acompanha o próprio desenvolvimento das civilizações. Leis sobre a produção e o comércio de cerveja estão presentes no Código de Hamurabi (estabelecido na Babilônia por volta de 1750 a.C.) e no governo do faraó Ramsés III no Egito (1184 a.C.). O Kalevala — poema épico nacional da Finlândia, que conta as façanhas do bardo Wainamoinem e do ferreiro Ilmarinen — tem mais recitativos sobre a origem da cerveja que sobre a origem da humanidade. Na tradição do cristianismo, são inúmeros os “ cervejeiros”. O compositor Johann Sebastian Bach recebia, anualmente, 30 barris de cerveja como pagamento por serviços musicais prestados aos duques de Weimar. Se sairmos da Alemanha e chegarmos ao Brasil, encontraremos centenas de referências à cerveja na cultura popular. Campanhas que alertam sobre o consumo responsável, de mais qualidade que quantidade, o crescimento do mercado das cervejas sem álcool, a variedade de marcas e opções de sabor são realidades bem-vindas e hoje amplamente debatidas no meio cervejeiro. O ato de beber cerveja, entranhado na História, é dinâmico e variável no tempo e no espaço. O que permanece ao longo dos séculos, em meio a tantas mudanças, é aquela característica que define, para mim, a boa cultura cervejeira: a história da cerveja é indissociável do ato de compartilhar a mesa, apoiar o cotovelo no balcão, frequentar ambientes comunitários, perceber a rua como espaço de encontro, socializar, trocar a urgência do relógio pela fluidez do tempo lento, celebrar os vivos e brindar aos mortos queridos. Tomar cerveja é também uma maneira de tecer cotidianamente o que pode ainda nos definir como humanos: a celebração da arte bonita do encontro. *Luiz Antonio Simas é professor, escritor e compositor
A cerveja e a celebração da arte bonita do encontro
Interagir e conversar compartilhando a boa mesa torna-se ainda mais significativo em tempos de desencanto
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