Tinha tamboretes em vez de cadeiras, e a indefectível toalha de plástico, estampada com uma profusão de frutas 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Copa que se preza fica no meio do caminho entre a cozinha e a sala de jantar — Foto: Fabio Rossi RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 02/07/2026 - 17:02 A Evolução das Copas: Memórias e Transformações de 1966 a 2026 O artigo narra memórias afetivas ao redor das copas de casas familiares, começando em 1966 em Viçosa, passando por diferentes cidades e transformações até 2026. Descreve a copa como um espaço de refeições informais e convivência, contrastando com a formalidade da sala de jantar. A evolução das copas reflete mudanças sociais e arquitetônicas, culminando na ausência desse espaço em cozinhas modernas e americanas, gerando nostalgia. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO A primeira copa de que me lembro é a de 1966, em Viçosa. Ficava, como toda copa que se preze, no meio do caminho entre a cozinha e a sala de jantar. Servia para as refeições sem cerimônia: o café com pão da manhã, o arroz com feijão do almoço, o mexidão da janta. Jantar pedia outra mesa, outras cadeiras, outro cardápio — e outras pessoas, outro lugar. Na casa da minha avó — telha vã, piso de vermelhão, fogão a lenha —, a copa era suficiente. Não fazia sentido sala de jantar numa casa em que jantar algum era servido, e onde o banheiro não passava de um cubículo de tábuas, com um buraco no chão, em balanço sobre a ribanceira. A copa seguinte, de 1970, foi a maior de todas. Era o coração da casa em Unaí. Para ela convergia todo o resto: cozinha, banheiro, quartos, sala de visitas. Por ela é que se entrava, usando a porta lateral que dava para a garagem. A enorme porta de vidro só era aberta em ocasiões especiais, como quando meu pai virou a televisão de frente para a rua, e o jardim ficou apinhado de vizinhos para assistir ao pouso da Apollo 11 na Lua e à final Brasil x Itália no Estádio Azteca. Ali minha mãe costurava roupa, ali fazíamos o dever de casa. Mais copa que a própria copa era o rancho, um resumo da casa fora da casa, misto de cozinha, varanda, galpão, área de serviço e o que mais o morador quisesse — com a vantagem de ser o espaço mais amplo, mais fresco e mais adequado à canícula do sertão. A copa de 74 foi improvisada no hall da escada que ligava os dois pavimentos da grande casa de esquina, em Andrelândia. Tinha tamboretes em vez de cadeiras, e a indefectível toalha de plástico, estampada com uma profusão de frutas. No andar de cima, a sala de jantar guardava a toalha de linho, a louça boa, a pouca porcelana e as antiguidades que, para desespero do meu pai, minha mãe começava a colecionar. Em 78 não havia copa na quitinete da Ilha do Governador. Tampouco em 82, no apertado apartamento de Botafogo, república de estudantes, com sala escura, em formato de cachimbo. No Rio, copa só nos apartamentos antigos e talvez nas casas de subúrbio — aquelas com cadeiras na calçada, e na fachada escrito em cima que é um lar. Voltei a tê-la nas casas mineiras de Esmeraldas: a copa de 1986 com piso de cerâmica, mesa de madeira maciça (as mesas de copa, até então, eram todas de fórmica), quadro da Santa Ceia, calendário, cristaleira. Era o lugar da conversa sem pressa, do pão de queijo, da “fatia” (um bolo que, acho, só existe por lá). Em 94 e 98 recriei a copa na generosa cozinha do apartamento de Curitiba, mantendo a distinção entre o formal e o íntimo, entre o que vai direto da panela para o prato e o que faz escala nas travessas. De 2002 a 2026, de volta ao Rio, já não encontrei copa alguma, escanteada pela cozinha americana — um balcão com banquetas, pia e fogão carentes de privacidade — e o arremedo de uma varanda gourmet. Tive avós, tive pais, tive alpendres, ranchos, quintais. Hoje tenho uma cozinha devassada, sem alma, num canto da sala. A copa é apenas um arcaísmo na memória. Quando outra Copa me lembra dela, ainda dói.