Montagem do portfólio é fundamental para assumir diferentes operações que visam o mesmo segmento Rogério Gabriel: “Aplicamos sinergia para tudo que está mais distante do cliente” — Foto: Divulgação Imagine ter debaixo do guarda-chuva as maiores marcas franqueadoras de um mesmo segmento. Para muitos, um risco, para outros, uma oportunidade de ampliar a oferta de negócios para franqueados. Pois esse é o modelo de negócio da americana Purpose Brands, maior rede global de franquias de saúde e bem-estar, responsável por gigantes como Anytime Fitness, Waxing the City e Basecamp Fitness. São mais de 5 mil unidades, 6 milhões de clientes em 40 países e um faturamento de US$ 3,9 bilhões em 2025. “No mercado americano as franqueadoras multimarcas são comuns. No Brasil, o movimento ganha mais corpo à medida que avança o nível de profissionalização e aumenta o número de grupos multifranqueados estruturados”, afirma Lyana Bitterncourt, CEO do Grupo Bittencourt. “Trata-se de uma evolução natural de um sistema maduro, que precisa continuar a crescer sem limitações.” O segredo, segundo ela, está na montagem do portfólio. As marcas têm de ter sinergia, serem complementares, para que se possa aproveitar estrutura, redes de relacionamento e processos, mas sem provocar competição. O desafio passa também pelo desenvolvimento de uma cultura que esteja atrelada ao crescimento do todo. Embora a retaguarda seja a mesma, com ganhos de escala, há de se ficar atento para a não pasteurização das redes. O posicionamento de marca e produto precisa ser individualizado, afirma Bittencourt. É o que faz a MovEdu, responsável pelas redes Microlins, Prepara IA, Ensina Mais Turma da Mônica e Yázigi, na área de educação. “Cada uma tem um head de gestão e times de consultoria pedagógica e de campo próprios”, diz Rogério Gabriel, CEO do grupo, que com mais de mil operações e faturamento estimado em R$ 580 milhões em 2026. “Aplicamos sinergia para tudo que está mais distante do cliente, como logística, tecnologia e fornecedores. Para o que está próximo, a gestão é exclusiva.” A opinião é compartilhada por Antonio Augusto de Souza, CEO da Antaris Foods Brands, dona das redes Boulangerie Carioca, Cuor di Crema e Vassoura Quebrada. “Consolidamos o portfólio com marcas com forte potencial de expansão, porém, sinérgicas”, afirma. “Procuramos adotar o processo padrão correto de acordo com as características de cada rede, respeitando a multiplicidade de culturas.” A holding espera faturar R$ 350 milhões em 2026, ante os R$ 300 milhões obtidos no ano passado. À frente do Grupo Morana, que abriga as marcas Morana e TodoModa, com mais de 360 operações, Jae Lee observa que o mercado tem levado os franqueados a adquirirem mais de uma operação, o que está alavancando a diversificação das franqueadoras. “Há duas décadas a rentabilidade oferecida por uma única unidade era atraente para quem buscava um padrão de vida médio. Hoje, não”, diz. “Para se alcançar a mesma lucratividade é preciso ter duas, três franquias.” Soma-se a isso a expansão para cidades de pequeno porte, que não comportam mais de uma unidade da mesma rede. “Para manter os bons franqueados na base é essencial oferecer boas e variadas opções de negócios”, diz Lee. Com o propósito de ampliar a plataforma de negócios e gerar novos canais de receita, o Grupo Roth, dono das marcas 5aSèc e LavPop, começa a operar em julho o primeiro marketplace do setor de lavanderias. O projeto, que levou um ano para ser concebido, nasce com a participação dos 12 principais fornecedores de insumos do setor. “A plataforma será aberta para todas as lavanderias, independentemente do porte”, diz Fabio Roth, CEO do grupo. “Terá impacto especial, porém, para os franqueados, porque quanto mais volume transacionam com os fornecedores, melhores são as condições. Todo ecossistema ganha.” As redes 5aSèc e LavPop somam 760 operações no país e geraram faturamento de R$ 330 milhões em 2025. Juarez Leão, CEO do Leão Group e conselheiro da ABF, alerta que a ampliação do portfólio de marcas traz benefícios para a franqueadora, mas também pede atenção. “Se por um lado amplia a rede de potenciais investidores com diferentes cheques de entrada, diversifica riscos e transforma franqueados em grupos de negócios escaláveis, por outro, exige investimento robusto em estrutura, regras de gestão e compliance bem definidas, e muita capacidade de gestão para arcar com novos investimentos sem comprometer a eficiência da marca mãe”, afirma. “Não é um movimento simples.”