Pesquisas mostram que mais de 70% dos brasileiros já demonstram interesse em planos funerários, mas, por trás do dado, está uma mudança silenciosa na forma como as famílias conversam sobre morte, herança e cuidado mútuo. 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Tiago Oliva Schietti — Foto: Divulgação Conversar sobre a própria morte, ou sobre o funeral de um parente ainda vivo, era, até pouco tempo atrás, um assunto evitado nas rodas familiares brasileiras. Hoje, esse silêncio começa a ceder espaço a uma conversa mais prática e menos carregada de desconforto. Uma pesquisa da Amar Assist Insurtech mostra que cerca de 73% dos brasileiros já demonstram interesse em planos funerários, principalmente para evitar burocracia e gastos imprevistos em um momento de dor. Essa mudança de comportamento não é isolada, expõe Tiago Oliva Schietti. Ela acompanha transformações mais amplas na forma como as famílias brasileiras lidam com planejamento financeiro, antecipação de decisões e divisão de responsabilidades entre gerações, um movimento que atravessa também o trabalho diário de empresários deste setor. De assunto evitado a tema de conversa em família Durante décadas, falar sobre funeral era quase sinônimo de desejar a morte de alguém, uma associação simbólica que travava qualquer conversa prática sobre o tema dentro de casa. Esse tabu começa a se dissolver à medida que mais famílias passam a tratar o planejamento funerário como parte de um pacote maior de organização: ao lado de testamento, previdência privada e seguro de vida. Essa mudança costuma começar pelos próprios idosos da família, que preferem decidir em vida os detalhes de sua despedida, espaço, forma de sepultamento, tipo de cerimônia, para não deixar essa decisão emocionalmente pesada sobre os filhos em um momento de luto. É justamente esse tipo de demanda, cada vez mais frequente, que tem moldado a rotina dos profissionais, como transmite Tiago Oliva Schietti, empresário do setor cemiterial e funerário. O papel da geração que cuida dos pais Outro fator que explica a mudança é a chamada "geração sanduíche": adultos entre 40 e 60 anos que cuidam simultaneamente dos filhos e dos pais idosos. Para esse grupo, o planejamento funerário antecipado representa uma forma de reduzir a carga de decisões urgentes em um momento já naturalmente difícil. Esse comportamento se conecta a uma tendência mais ampla de organização financeira familiar, na qual o planejamento de longo prazo passa a incluir decisões sobre o fim da vida como parte natural do processo, e não como exceção evitada. Nesse sentido, essa antecipação tende a reduzir conflitos familiares no momento do óbito, já que decisões sensíveis, como tipo de cerimônia e local de sepultamento, já foram conversadas e registradas previamente. Cremação ganha espaço como escolha consciente Entre as mudanças de comportamento mais visíveis está o crescimento da procura por cremação, impulsionado por questões práticas, financeiras e ambientais. A prática evita renovações periódicas de jazigo, reduz custos de manutenção ao longo dos anos e ocupa menos espaço físico em cemitérios já pressionados por capacidade limitada nas grandes cidades. Segundo Tiago Oliva Schietti, esse movimento reflete uma mudança cultural mais profunda: famílias passam a decidir o destino do corpo não apenas por tradição religiosa ou regional, mas a partir de critérios práticos e até ambientais, discutidos abertamente entre os membros da família. Tecnologia aproxima quem está distante A digitalização também tem papel relevante nessa mudança comportamental, indica o empresário do setor cemiterial e funerário, Tiago Oliva Schietti. Velórios transmitidos online, memoriais digitais e plataformas de homenagem virtual permitem que familiares distantes geograficamente participem da despedida, mesmo sem estarem presentes fisicamente, uma realidade que ganhou força durante a pandemia e se consolidou como prática permanente em funerárias de diferentes portes. Para famílias com membros morando em diferentes cidades ou países, essas ferramentas reduzem a sensação de exclusão em momentos de luto e tornam o processo de despedida mais inclusivo e menos centrado exclusivamente na presença física. Conversar sobre morte para cuidar melhor da vida Talvez o efeito mais significativo dessa mudança comportamental seja simbólico: ao tratar o planejamento funerário como tema de conversa legítima dentro de casa, famílias brasileiras começam a encarar a finitude como parte natural do ciclo de vida, e não como um assunto a ser evitado a qualquer custo. Esse amadurecimento social, ainda em curso, sugere que o tabu em torno da morte no Brasil está cedendo espaço a uma abordagem mais racional, organizada e, paradoxalmente, mais humana, em que conversar sobre o fim da vida se torna também uma forma de cuidado mútuo entre gerações.
Planejamento funerário ganha espaço entre as famílias brasileiras: empresário do setor cemiterial e funerário, Tiago Oliva Schietti, aborda mudança de comportamento
Pesquisas mostram que mais de 70% dos brasileiros já demonstram interesse em planos funerários, mas, por trás do dado, está uma mudança silenciosa na forma como as famílias conversam sobre morte, herança e cuidado mútuo.









