Sabe-se que Freud criticou a religião, classificando-a como ilusão e neurose. Por sua vez, a psicanálise foi hostilizada pela Igreja Católica, que a considerava um caminho perigoso, capaz de desviar o fiel da fé. Mas agora um psicanalista recebe o título de doutor por notório saber (também chamado de honoris causa) pela PUC-RS por investigar exatamente este campo. Como foi possível? Alguma dimensão foi aplainada?
A vida e obra do agraciado Carlos Dominguez Morano, teólogo e psicanalista, sugerem que não. Ele é autor de livros como "El psicoanálisis freudiano de la religión" (a psicanálise freudiana da religião) e "La aventura del celibato" (a aventura do celibato), alguns dos quais lhe renderam censuras e silenciamentos.
Acompanhar sua trajetória ajuda a entender como chegou aqui. Nascido na Espanha em 1946, no seio de uma família devota, entrou na Companhia de Jesus aos 16 anos. Lá viveu uma combinação de experiências interiores intensas e estudos filosóficos amplos, o que o levou a querer conhecer as profundezas do psiquismo. Um dos seus últimos livros, "Psicodinámica de los Ejercicios Ignacianos" (psicodinâmica dos exercícios inacianos) documenta a riqueza desse diálogo.
Na Espanha sob a ditadura do general Franco, a psicanálise soava subversiva. Na cerimônia de outorga do título, Morano comentou: "abrir as portas da subjetividade foi e seguirá sendo uma ameaça para toda instituição que pretenda impor-se autoritariamente sobre os indivíduos". Ressonância dos seus conflitos com a Igreja?








