Aliados e integrantes do governo Lula atribuíram anúncio de novas tarifas à atuação do senador e de seu irmão, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, junto ao governo americano Flávio Bolsonaro — Foto: Vittor Sales/Divulgação O senador Flávio Bolsonaro (RJ), pré-candidato do PL à Presidência, se inscreveu para participar da audiência pública promovida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) sobre a proposta de tarifa de 25% contra produtos brasileiros. A audiência está marcada para 6 de julho, em Washington. Leia mais: Segundo documento protocolado, Flávio participará presencialmente da sessão e fará sua exposição em inglês durante os cinco minutos de fala normalmente concedidos aos participantes. No pedido encaminhado ao USTR, o senador afirma que defenderá a suspensão da tarifa proposta pelo órgão americano e a abertura de um mecanismo bilateral de negociação entre Brasil e Estados Unidos. A proposta de um novo tarifaço contra produtos brasileiros foi anunciada no início do mês, uma semana após Flávio visitar o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na Casa Branca. Aliados e integrantes do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pré-candidato à reeleição pelo PT, atribuíram o anúncio à atuação de Flávio. O senador negou ter relação com a medida e disse ter tratado com Trump do combate ao crime organizado no Brasil. No resumo do depoimento apresentado às autoridades americanas para participar da audiência, Flávio sustenta que a sobretaxa não alcançaria o objetivo de eliminar as práticas questionadas pelos EUA e poderia produzir efeito contrário ao pretendido. Segundo ele, a medida acabaria beneficiando o governo brasileiro atualmente no poder ao mesmo tempo em que prejudicaria exportadores brasileiros, importadores e consumidores americanos, além da própria oposição brasileira. O senador também informa que pretende abordar os seis temas investigados pelo USTR: comércio digital e serviços de pagamento eletrônico (que inclui principalmente o Pix), tarifas consideradas injustas, aplicação de leis anticorrupção, proteção à propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e desmatamento ilegal, apresentando pontos de concordância, discordância e possíveis propostas de solução. “Vou defender os interesses do povo brasileiro! Vou fazer a minha parte para evitar que empresas brasileiras sejam ainda mais taxadas do que já são com o governo Lula”, escreveu Flávio nas redes sociais nesta terça-feira (23). Na mesma postagem, acrescentou: “Como era de se esperar, Lula não move uma palha para evitar que elas sejam tarifadas. E a razão é muito simples: ele acredita que isso pode beneficiá-lo nas urnas em outubro, mesmo que isso custe quebrar as empresas brasileiras”. O USTR havia informado anteriormente que o prazo para inscrição de interessados na audiência se encerraria na segunda-feira (22). Reação do governo Segundo apurou o Valor, o Ministério das Relações Exteriores (MRE) não enviará representantes para a audiência por entender que o evento é destinado à manifestação de entes privados, não de governos. A estratégia do Itamaraty é concentrar sua atuação nos canais diplomáticos, por meio de documentos escritos e reuniões virtuais e presenciais com autoridades americanas. A definição sobre a proposta de tarifa de 25% deverá ocorrer em 15 de julho, após a conclusão das negociações entre Washington e Brasília. A partir dessa data, a sobretaxa poderá ser implementada pelo governo americano, embora não haja obrigação de adoção imediata. Desgaste político para Flávio O anúncio de uma nova proposta de tarifas ao Brasil gerou repercussão política e foi explorada pelos adversários de Flávio, que acusaram o senador de atuar contra o país juntamente com seu irmão, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP). No ano passado, Eduardo, que vive nos EUA, confirmou ter articulado junto a autoridades americanas tarifas impostas contra o Brasil em reação ao julgamento da ação penal da chamada trama golpista envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal (STF), que resultou em sua condenação à prisão por 27 anos e três meses. Logo após o anúncio da nova proposta, Flávio afirmou ter pedido, no encontro na Casa Branca, para Trump não impor novas tarifas às empresas brasileiras. Depois, com o novo anúncio, ele enviou uma carta em inglês ao governo americano manifestando oposição à sobretaxa. Ainda assim, a associação entre a família Bolsonaro e a iniciativa dos EUA passou a ser explorada por governistas. Levantamento da Nexus Pesquisa e Inteligência de Dados mostrou que a proposta de tarifa gerou reação predominantemente negativa ao senador nas redes sociais. Entre cerca de 34 mil menções analisadas em português no X, Facebook e Instagram, 78% tiveram teor crítico a Flávio Bolsonaro, 12% foram favoráveis e 10% foram classificadas como neutras ou informativas. Pesquisa Genial/Quaest realizada após o anúncio também apontou que 47% dos brasileiros concordavam com a versão apresentada pelo presidente Lula, segundo a qual Flávio teria atuado em favor das tarifas. Outros 35% afirmaram acreditar na versão do senador, que sustenta ter pedido a Trump que não adotasse novas sobretaxas contra o Brasil. Os que não souberam ou não responderam somaram 18%. Apesar das sucessivas rodadas de negociação entre os dois países, integrantes do governo Lula avaliam com pessimismo o andamento das tratativas, conforme mostrou o Valor anteriormente. A percepção no Planalto é de que os EUA ainda não indicaram de forma clara quais pontos estariam dispostos a negociar, o que reduz as perspectivas de um acordo definitivo. Ainda assim, o governo brasileiro pretende manter o diálogo aberto. Nos bastidores, auxiliares do presidente avaliam que abandonar as conversas poderia fortalecer críticas da oposição de que o governo desistiu de buscar uma solução para o impasse comercial. Uma nova rodada de negociações entre os dois países é esperada para os próximos dias.
Flávio Bolsonaro se inscreve para audiência nos EUA sobre tarifaço
Aliados e integrantes do governo Lula atribuíram anúncio de novas tarifas à atuação do senador e de seu irmão, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, junto ao governo americano








