O banco Digimais, controlado pelo bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, entrou no centro de uma investigação da Polícia Federal sobre crimes contra o Sistema Financeiro Nacional. A Operação Miragem, deflagrada nesta terça-feira, apura suspeitas de manipulação de balanços, ocultação da real situação financeira da instituição e operações supostamente ilegais realizadas durante a gestão do banco. O caso também reacende o histórico de Aldemir Bendine, ex-presidente do Banco do Brasil e da Petrobras, indicado por Dilma Rousseff para comandar a estatal em 2015, no auge da crise da Lava-Jato. Bendine foi aprovado pelo Banco Central, em dezembro do ano passado, para assumir a presidência do Digimais, em uma tentativa de estabilizar a instituição de Edir Macedo. Antes disso, já havia sido personagem de polêmicas envolvendo a socialite Val Marchiori, acusada de ter sido favorecida por empréstimos concedidos pelo Banco do Brasil quando ele presidia a instituição. A chegada de Aldemir Bendine ao Digimais, aprovada pelo Banco Central em dezembro de 2025, foi interpretada como uma tentativa de mudar a estratégia para estabilizar a operação. Conhecido como Dida, ele presidiu o Banco do Brasil e a Petrobras e era um nome proeminente no mercado e no PT quando foi preso na Lava-Jato e condenado pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região por recebimento de propina. Sua condenação, no entanto, foi posteriormente anulada pelo Supremo Tribunal Federal, e ele não tinha pendências judiciais, fator considerado na análise do Banco Central. Bendine assumiu o comando da Petrobras em fevereiro de 2015, indicado pela então presidente Dilma Rousseff para substituir Graça Foster em meio à maior crise da história da estatal, envolvida no escândalo de corrupção revelado pela Lava-Jato. A missão era colocar a companhia de volta nos trilhos, acertar as finanças e publicar o balanço de 2014. Antes de chegar à Petrobras, porém, Bendine já acumulava um histórico de polêmicas. Quando presidia o Banco do Brasil, foi acusado de favorecimento à socialite Val Marchiori por meio de empréstimos concedidos pelo banco. Em meio à apuração do caso, Bendine chegou a prestar depoimento na sede da Polícia Federal em São Paulo para esclarecer a linha de financiamento disponibilizada pelo BB à empresa de Marchiori, a Torke Empreendimentos. Foram liberados R$ 3 milhões para a empresa realizar uma compra de caminhões. A Torke utilizou R$ 2,79 milhões e, depois, Marchiori entrou com um pedido para usar o restante do crédito no financiamento da compra de um Porsche para uso pessoal. O procedimento e o oferecimento do crédito foram alvo de um inquérito da PF aberto a pedido do Ministério Público Federal em São Paulo. De acordo com reportagem da “Folha de S. Paulo”, em 2013 o BB emprestou R$ 2,7 milhões a Marchiori a partir de uma linha subsidiada pelo BNDES, o que contrariaria normas internas dos dois bancos, já que a empresária teria crédito restrito por não apresentar capacidade financeira, além de não ter pago empréstimo anterior ao BB. Bendine negou irregularidades. Para rebater a denúncia, o banco afirmou que a análise do empréstimo foi feita por três comitês, envolvendo no mínimo 17 técnicos de carreira, antes do aval do BNDES. Em 2015, o ex-vice-presidente do Banco do Brasil Allan Toledo disse em depoimento ao Ministério Público Federal que Bendine deu carona para Val Marchiori em um jato a serviço do Banco do Brasil, na época em que era presidente da instituição. Toledo afirmou que estava presente na viagem a Buenos Aires, em missão oficial em abril de 2010, para concluir a aquisição do Banco da Patagonia. Bendine e Marchiori teriam ficado hospedados no mesmo hotel. Na época, a assessoria do BB negou que ela estivesse no avião. Quando Bendine foi preso pela Lava-Jato, em 2017, Val Marchiori divulgou nota para negar ter recebido benefícios indevidos. Sem querer comentar a prisão do “senhor Aldemir Bandine”, como escreveu, a socialite afirmou que tinha convicção de que não praticou ilegalidades, “tampouco recebeu quaisquer espécies de benefícios indevidos do BB”. Na nota, iniciada com seu conhecido “hello”, Marchiori afirmou que a operação “foi absolutamente regular e transparente” e lembrou que a 10ª Vara Criminal Federal de São Paulo rejeitou a denúncia do Ministério Público Federal. Disse ainda que o contrato de financiamento foi injustamente colocado sob suspeita e que ele “não causou qualquer prejuízo aos cofres públicos, já que, além de ter sido feita de acordo com os trâmites legais, se encontra com os respectivos pagamentos em dia”. “Tenho a convicção, contudo, de que a rejeição da denúncia será mantida, porque a acusação é absolutamente insubsistente!”, concluiu Marchiori à época. A crise do Digimais também teve reflexos políticos. O Republicanos, partido controlado pela Igreja Universal, ainda não decidiu quem apoiará na eleição presidencial deste ano. Integrantes da cúpula da legenda estão focados em salvar o banco, que tem rombo estimado em R$ 8,5 bilhões. A eventual neutralidade na disputa passou a ser considerada uma alternativa em meio às negociações para tentar viabilizar a solução financeira. Desde a Semana Santa, a histórica postura da Universal contra o PT mudou de tom. Embora a igreja tenha passado o mês de março anunciando que enviaria um recado crítico à esquerda nos eventos da Sexta-feira da Paixão em estádios lotados pelo Brasil, isso não ocorreu. Depois disso, o presidente do Republicanos, o bispo licenciado Marcos Pereira, passou a dar entrevistas cogitando não apoiar Flávio Bolsonaro na corrida presidencial, uma aliança considerada natural diante da maior aceitação de nomes da direita no segmento evangélico. Enquanto não resolve a situação do Digimais e sua posição na eleição, o Republicanos segue alimentando especulações sobre seu futuro. Nos últimos dias, integrantes da sigla passaram a falar da possibilidade de o senador Cleitinho Azevedo se lançar ao Planalto. Cleitinho lidera pesquisas para o governo de Minas Gerais, mas ninguém no estado acredita que ele será candidato de fato. Para a Presidência da República, menos ainda.
Digimais: CEO de banco de Edir Macedo presenteou socialite Val Marchiori com Porsche; relembre
Operação Miragem mira instituição controlada pelo fundador da Universal e reacende histórico de Aldemir Bendine, ex-presidente de BB e Petrobras indicado por Dilma e ligado a polêmica com empréstimo à socialite












