A corrida pelo trono da computação mundial sofreu uma reviravolta histórica. A mais recente edição da lista TOP500, que classifica duas vezes por ano as máquinas mais poderosas do planeta, colocou a China novamente no topo. O herói desta proeza chama-se LineShine, um supercomputador instalado no Centro Nacional de Supercomputação em Shenzhen. A máquina ultrapassou o anterior líder, o norte-americano El Capitan, com uma vantagem confortável de vinte por cento de performance extra.Esta conquista quebra um jejum chinês que durava desde 2017, altura em que o Sunway TaihuLight liderava a tabela. O LineShine atingiu a marca impressionante de 2,198 exaflops. O que significa que sistema consegue realizar mais de dois quintilhões de cálculos matemáticos por segundo. É o equivalente a colocar toda a população mundial a fazer contas de cabeça, sem pausas para descansar, durante milhares de anos.No entanto, o topo da lista continua a ser dominado pelos Estados Unidos, que consegue colocar três máquinas nos quatro primeiros lugares. O primeiro supercomputador europeu vem logo a seguir, no quinto, lugar. Trata-se do Jupiter Booster, no Jülich Supercomputing Centre na Alemanha.Portugal tem um único computador nesta lista, o Deucalion da FCT, na posição 353 – no final do ano passado, este sistema construído pela Fujitsu ocupava a posição 323.A estratégia da força brutaMais do que a sua velocidade estonteante, o que realmente surpreende no LineShine é a forma como foi construído. Nos últimos anos, a administração norte-americana impôs severas restrições à exportação de chips de última geração para a China, com o objectivo claro de travar o avanço tecnológico de Pequim. Sem acesso aos cobiçados processadores gráficos da Nvidia, que equipam a maioria dos supercomputadores ocidentais, os cientistas chineses tiveram de ser criativos.A solução passou por ignorar os chips gráficos e apostar tudo nas unidades centrais de processamento, as chamadas CPU, de fabrico inteiramente doméstico. O LineShine funciona com uma plataforma personalizada chamada LingKun, equipada com os processadores LX2 de 304 núcleos, desenvolvidos através de uma arquitectura associada à Huawei. No total, a máquina junta uma imensidão de quase 14 milhões de núcleos de processamento, geridos pelo sistema operativo Kylin.De acordo com o comunicado oficial da organização do TOP500, o LineShine alcançou um feito inédito ao tornar-se “o primeiro sistema na lista a ultrapassar dois exaflops de desempenho sustentado utilizando apenas CPU”. É uma espécie de exército digital onde a união de milhões de cérebros mais pequenos compensa a ausência de um super-cérebro importado.Contudo, esta opção arquitectónica traz algumas desvantagens práticas. Os especialistas apontam que um modelo baseado exclusivamente em CPU consome mais energia e perde eficácia quando o objectivo é o treino intenso de modelos complexos de inteligência artificial generativa. Nesses cenários específicos, os chips gráficos ocidentais continuam a ser muito mais ágeis. Trata-se, portanto, de um compromisso necessário para contornar o bloqueio geopolítico. O LineShine é extraordinariamente veloz a resolver problemas matemáticos tradicionais, mas não foi desenhado para ser o motor principal da próxima vaga de inteligência artificial.Sistemas que salvam vidasEstas máquinas gigantescas têm uma utilidade prática que vai muito além de alimentar o orgulho nacional de americanos ou chineses. Os supercomputadores são fundamentais para acelerar descobertas na área da saúde, permitindo simular o comportamento de novas moléculas em poucos dias, algo que em laboratórios tradicionais demoraria décadas.A enorme capacidade de processamento do novo supercomputador de Shenzhen será aplicada em simulações de dinâmica de fluidos, estudos avançados de ciências da vida e na melhoria dos modelos de previsão meteorológica global. No fundo, a capacidade de prever um desastre natural com maior antecedência ou de desenhar um medicamento eficaz contra uma doença rara depende directamente deste tipo de tecnologia.