A queda da patente de moléculas usadas na fabricação de canetas emagrecedoras abriu nova oportunidade para os laboratórios nacionais, que já lideram o varejo de medicamentos no país. Com o fim da exclusividade da liraglutida e, mais recentemente, da semaglutida, a Associação dos Laboratórios Farmacêuticos Nacionais (Alanac) estima que a indústria nacional disputará uma fatia que pode alcançar até metade do mercado combinado dessas duas moléculas nos próximos três anos. No ano passado, as duas movimentaram R$ 5,7 bilhões em vendas no Brasil. A patente da liraglutida, princípio ativo da primeira geração de medicamentos metabólicos da Novo Nordisk, expirou em 2024. Já a exclusividade da semaglutida, usada no Ozempic (diabetes) e no Wegovy (obesidade), segunda geração dos medicamentos metabólicos da farmacêutica, chegou ao fim em março deste ano. A entidade estima que o volume de vendas das moléculas cresça até 50% no próximo triênio no varejo farmacêutico, com a entrada de novos laboratórios nesse mercado, e que as nacionais poderiam capturar entre 40% e 50% das unidades vendidas, seja com produtos próprios ou com aqueles frutos de parcerias com fabricantes estrangeiras. “A concorrência faz com que o preço caia, o que é muito bom para aumentar o acesso da população a medicamentos inovadores, como os peptídeos [classe das canetas emagrecedoras]”, disse ao Valor Henrique Tada, presidente-executivo da Alanac. Ele cita como exemplo o rivaroxabana, princípio ativo do anticoagulante Xarelto, fabricado pela Bayer. Com o fim da patente, seu volume de vendas aumentou 90% e o preço médio caiu para cerca de um terço do valor original nos últimos quatro anos. Neste ano, versões genéricas e similares respondiam por mais de 90% das unidades vendidas, e quase 70% do faturamento. Para as canetas, o ritmo dependerá da velocidade de aprovação de novos medicamentos pela Anvisa, a agência reguladora brasileira. Até o momento, a EMS, do grupo de Carlos Sanchez, é a única farmacêutica brasileira com autorização para fabricar e vender versões próprias com liraglutida e, desde o mês passado, também com semaglutida. O comportamento das vendas de liraglutida, cuja patente venceu há mais tempo, já antecipa o potencial das nacionais. Em 2025, versões brasileiras dessas canetas praticamente não apareceram nas estatísticas do varejo, mas, neste ano, responderam por 64,5% das unidades vendidas até abril, contra 35,4% das versões de referência. O fator central é preço, já que as canetas nacionais com liraglutida custam em média 36% menos do que as canetas da multinacional, segundo a Alanac. O levantamento não nomeia laboratórios, mas, na prática, mostra que o conglomerado de Sanchez já avançou sobre mais da metade do mercado de liraglutida da Novo Nordisk, uma vez que a dinamarquesa é a multinacional que vende as canetas e ainda não há outra brasileira vendendo versões próprias com liraglutida. “Os resultados observados com a liraglutida demonstram a receptividade do mercado à entrada de lançamentos produzidos pela indústria nacional”, disse o vice-presidente da EMS, Marcos Sanchez. A concorrência faz com que o preço caia, o que aumenta o acesso da população” O cenário é diferente para a semaglutida. O mercado seguia dominado pela Novo Nordisk até abril, quando ela e a Eurofarma ainda eram as únicas que vendiam medicamentos com a molécula no país. As duas mantêm parceria de distribuição desde o fim do ano passado, em arranjo no qual a brasileira distribui e vende versões locais de canetas fabricadas pela dinamarquesa, com a semaglutida biológica das versões de referência, sob os rótulos de Poviztra (Wegovy) e Extensior (Ozempic). Segundo a Alanac, essas versões locais já têm avançado e, até abril deste ano, responderam por 16% das unidades vendidas. Com a chegada da caneta com semaglutida da EMS, a Ozivy, inicialmente indicada para diabetes, além da perspectiva de aprovação de novos medicamentos com a molécula nos próximos meses, a hegemonia do Ozempic e do Wegovy deve continuar mudando. Mas a dinamarquesa tem reagido. Na quarta-feira (17), foi à Justiça contra a EMS e o Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi), alegando que o Ozivy imita elementos de suas canetas. “[O laboratório] Optou por Ozivy, marca curta que começa com Oz, como Ozempic, e termina com Vy, como Wegovy”, disse, na petição à qual a reportagem teve acesso. O Valor apurou que a EMS vê a ofensiva como estratégia para conter a concorrência brasileira. Em nota, o laboratório nacional afirmou que o nome é resultado de processo que respeitou os requisitos do setor e foi concedido após análise técnica. Já a Novo Nordisk, disse, também em nota, que adotou a medida para evitar “confusão” ou “desinformação” na identificação dos produtos. Enquanto isso, laboratórios nacionais como Cristália, Cimed e Prati-Donaduzzi estão otimistas com a entrada no segmento. O Cristália já conta com pedido de registro de medicamento com semaglutida depositado na Anvisa e disse que a estimativa de avanço de farmas nacionais sobre até 50% do mercado é “plenamente realista”. “Estamos adaptando nossas linhas de envase e montagem de dispositivos injetores [as canetas] para absorver a tecnologia do parceiro internacional [com quem estamos desenvolvendo o medicamento]”, disse Rogério Almeida, vice-presidente de pesquisa e desenvolvimento do laboratório, referindo-se à farma indiana Biocon. A Cimed, de João Adibe Marques, espera lançar sua caneta com semaglutida em 2027. O executivo disse que o cenário é promissor para os próximos anos. “O percentual exato [de participação no mercado] dependerá de fatores como aprovações regulatórias, capacidade produtiva, competitividade e acesso dos pacientes”, afirmou. Já a Prati-Donaduzzi, que também desenvolve o medicamento em parceria com uma estrangeira, ainda não depositou o pedido de registro na agência reguladora brasileira. “Estamos finalizando as etapas técnicas e regulatórias para a submissão do medicamento, prevista para os próximos meses”, afirmou, em nota. Para Eurofarma e Novo Nordisk, a chegada de concorrentes é natural. A brasileira disse que é cedo para estimar o potencial de avanço das nacionais. Também afirmou que as canetas com semaglutida para obesidade vendidas por ela e pela Novo Nordisk ainda não possuem concorrentes no país, já que o Ozivy não é inicialmente indicado para sobrepeso. “Novos entrantes concorrem com Ozempic [da Novo Nordisk] e Extensior [da Eurofarma], medicações indicadas para o tratamento de diabetes”, disse Andrea Frazão, diretora da unidade de prescrição médica do laboratório brasileiro. A dinamarquesa não comentou a projeção, mas disse, em nota, que seguirá focada em ampliar o acesso às canetas de referência nos setores público e privado. No público, lançou em março um piloto para mostrar a viabilidade e os benefícios de incorporar seus medicamentos no Sistema Único de Saúde (SUS). No privado, tem promovido condições específicas na compra de combos. “O preço é um fator relevante para pacientes e sistemas de saúde, mas acreditamos que a decisão terapêutica envolve um conjunto mais amplo de aspectos”, completou.