Investimentos na rede e programa federal devem ampliar fornecimento Afuá, no arquipélago do Marajó, assistiu em abril ao desligamento do gerador a diesel que fornecia eletricidade a seus cerca de 40 mil moradores após ser ligada ao Sistema Interligado Nacional (SIN). Com energia firme, a aposta agora é atrair pousadas e restaurantes e movimentar o turismo. Prainha, com seus 35,5 mil habitantes às margens do rio Amazonas a cerca de 580 km em linha reta de Belém, também foi conectada recentemente, ao custo de R$ 70 milhões. Desde 2012 a distribuidora Equatorial Energia já desativou 23 termelétricas no Pará após conectar localidades ao SIN, com mais de R$ 14 bilhões investidos na rede de baixa tensão. Outras nove térmicas devem ser encerradas até 2027. Apesar de ser o quarto maior gerador de eletricidade do país - graças a hidrelétricas como as de Tucuruí e Belo Monte -, atrás apenas de Minas Gerais, Bahia e São Paulo, segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), o Pará convive com o paradoxo de ser também o Estado com mais gente sem acesso a ela: 409.593 paraenses, ou 4,8% da população, de acordo com o Instituto de Energia e Meio Ambiente (Iema). Praticamente um de cada três brasileiros sem rede elétrica vive no Pará. Em maio, o governo federal assinou decreto que prorroga o Luz para Todos até 2028 nas áreas rurais e cria um eixo voltado ao uso produtivo da energia, com exigência de infraestrutura adequada às condições da Amazônia. O Ministério de Minas e Energia calcula que ainda falte garantir fornecimento a cerca de 233 mil famílias no país, a maior parte na Amazônia Legal. O programa terá orçamento de R$ 2,57 bilhões em 2026, para atender até 122 mil delas. “Isso abre possibilidade para sistemas de agricultura familiar no Pará”, afirma Vinicius Oliveira, líder de projetos do Iema, que trabalha com a Aneel no Projeto Energias da Floresta, com foco em levar energia a povos e comunidades que ainda enfrentam barreiras históricas de acesso ao serviço. As hidrelétricas também recebem aporte. A Axia Energia (ex-Eletrobras) aplica R$ 1,5 bilhão na modernização de Tucuruí até 2029, com 80 km de fibra óptica, 5 km de cabos elétricos e cerca de 450 pontos de acesso. A rede abre a usina à automação com inteligência artificial, torna as inspeções mais eficientes, reduz a dependência da comunicação por rádio e aumenta a segurança da operação. Em 2001, as hidrelétricas geravam 85% da energia do país, percentual que caiu para cerca de 50% com avanço das fontes eólicas e solares, mas essas usinas, como a de Belo Monte, ainda papel relevante. “Em um cenário de expansão de fontes intermitentes de energia eólica e solar, Belo Monte se torna ainda mais fundamental por ser uma fonte firme, capaz de atender grande parte da demanda, e flexível, com capacidade de adaptação e resposta rápida a variação do consumo de energia”, explica Luiz Eduardo Osorio, diretor-presidente da Norte Energia, empresa responsável pelo empreendimento. Outro destaque do Pará é o crescimento do mercado livre entre consumidores de média e alta tensão, como indústrias, supermercados e lojas de varejo. É o Estado com a maior participação no segmento: 60% da carga tem liberdade no fornecimento, segundo dados da Associação Brasileira das Comercializadoras de Energia Elétrica (Abraceel) até março de 2026. Cerca de 2 mil unidades consumidoras paraenses estão no mercado livre, mas o volume é impulsionado principalmente pelas mineradoras que atuam no Estado.