Caso de Fatmata Sessay lembra a história que inspirou o filme estrelado por Tom Hanks, mas, desta vez, o cenário é um terminal na capital paraense 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Fatmata Sessay deixou São Paulo em busca do filho de 15 anos e, após uma série de contratempos, permanece no aeroporto de Belém à espera de autorização para seguir viagem — Foto: Redes Sociais RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 22/06/2026 - 13:06 Serra-Leonina Vive Há Seis Meses em Aeroporto de Belém Fatmata Sessay, cidadã de Serra Leoa, vive há seis meses no Aeroporto Internacional de Belém devido a problemas com documentação. Sua situação remete ao filme "O Terminal", estrelado por Tom Hanks. Fatmata teve sua viagem ao Panamá adiada por falta de documentos como visto e comprovantes de vacinação e renda. Apesar de ofertas de acomodação, ela prefere permanecer no aeroporto. O caso realça falhas no atendimento a migrantes em Belém. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Quando o diretor Steven Spielberg levou aos cinemas, em 2004, a história de um homem preso em um aeroporto por causa de problemas com sua documentação, poucos imaginariam que uma trama semelhante pudesse se repetir décadas depois em um terminal brasileiro. Mas é justamente isso que acontece com Fatmata Sessay, cidadã de Serra Leoa que vive há cerca de seis meses no Aeroporto Internacional de Belém e viu, nesta segunda-feira (22), o tão aguardado embarque para o Panamá ser adiado mais uma vez. Assim como Viktor Navorski, personagem interpretado por Tom Hanks em 'O Terminal', Fatmata está presa a uma sucessão de entraves burocráticos e documentais. A diferença é que, enquanto o filme se passa no Aeroporto JFK, em Nova York, a história da imigrante tem como cenário a capital paraense. E, ao contrário da ficção, o caso é real. O Ministério Público do Estado do Pará (MPPA) relatou ao GLOBO que a passagem da imigrante, de 56 anos, foi remarcada para 15 de agosto. O embarque estava previsto para esta segunda-feira, 22 de junho, mas precisou ser adiado porque ainda faltam documentos exigidos para a entrada no Panamá: carteira internacional de vacinação contra a febre amarela, visto, comprovante de renda e comprovante de hospedagem. Segundo o MPPA, o órgão acompanha o caso desde que tomou conhecimento da situação e atua junto a outras instituições para garantir os direitos da estrangeira. O Ministério Público informou ainda que Fatmata continua vivendo no aeroporto por decisão própria. Equipes de abordagem social tentaram convencê-la a aceitar acolhimento institucional e até mesmo uma hospedagem em hotel foi oferecida, mas ela preferiu permanecer no terminal. Fatmata Sessay vive há cerca de seis meses no Aeroporto Internacional de Belém enquanto aguarda a regularização da documentação necessária para seguir viagem ao Panamá — Foto: Redes Sociais A passagem que não aconteceu A remarcação ocorre poucos dias após Fatmata receber a notícia de que finalmente deixaria o aeroporto. Na semana passada, uma passagem havia sido providenciada para que ela embarcasse rumo ao Panamá, onde pretende reencontrar o filho de 15 anos. Ao saber que viajaria, ela se emocionou. — Ninguém me ajudou aqui. Só você que comprou a minha passagem. Muito obrigada. Se Deus quiser, vou encontrar meu filho e recomeçar a vida — disse ao promotor Nadilson Portilho. Mas, antes da data prevista para o embarque, o Ministério Público Federal (MPF) alertou a Justiça Federal para a existência de pendências documentais que poderiam impedir sua entrada no Panamá e também na Colômbia, país onde faria conexão. Na sexta-feira (19), a Justiça Federal do Pará determinou que o Governo do Estado e o Ministério das Relações Exteriores prestassem assistência consular à cidadã de Serra Leoa em até 48 horas. A decisão da juíza Maria Carolina Valente do Carmo prevê a articulação com a representação diplomática de Serra Leoa, sediada em Washington, para regularizar a documentação e viabilizar a obtenção dos vistos necessários. A cidadã de Serra Leoa aguarda a emissão de documentos exigidos para o embarque, após ter a viagem remarcada para agosto — Foto: Redes Sociais Segundo o procurador regional dos Direitos do Cidadão no Pará, Sadi Flores Machado, o problema nunca esteve relacionado à permanência de Fatmata no Brasil, mas às exigências para entrada em outros países. — Ela não tem pendência nenhuma para sair do Brasil. A saída dela não é o problema. A questão é a entrada nesses países. Seria temerário enviá-la sem os vistos porque ela corre o risco de ser deportada ou até presa — afirmou ao GLOBO. O procurador afirma que há informações de que a imigrante já teria sido deportada anteriormente da Colômbia ao tentar ingressar sem a documentação exigida. Para ele, o adiamento foi necessário para evitar que ela enfrentasse uma nova situação de vulnerabilidade. — O que pedimos, e o que a Justiça determinou, foi a regularização documental da viagem. A preocupação é evitar que ela seja deportada ou tenha problemas ao tentar entrar em outro país — disse. De São Paulo ao saguão do aeroporto A trajetória de Fatmata até Belém foi marcada por sucessivos obstáculos. Ela conta que deixou São Paulo, onde viveu por 18 anos, no fim do ano passado para procurar o filho no Panamá. Durante o percurso, afirma ter sido assaltada no Peru e recebido ajuda de voluntários para seguir até o Suriname. De lá, embarcou para a capital paraense. — Fui roubada e as pessoas me ajudaram. Cheguei ao Suriname e compraram uma passagem para Belém dizendo que seria mais fácil conseguir a passagem para o Panamá daqui — relatou. Já em Belém, segundo ela, um novo roubo mudou seus planos. Fatmata afirma que perdeu o passaporte e uma passagem que havia conseguido para seguir viagem. Sem dinheiro e sem documentos, passou a viver no aeroporto. A rotina se repete diariamente há cerca de seis meses. Durante o dia, ela frequenta o Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro Pop), onde se alimenta e toma banho. À noite, retorna ao terminal. — Eu durmo aqui no chão mesmo. Durante o dia eu vou no Centro Pop para comer e tomar banho — contou. Apesar das ofertas de acolhimento, diz sentir-se mais segura no aeroporto. — Não quis ir para nenhum lugar porque quando saio tem gente e carros em cima de mim. Aqui me sinto segura. O caso que lembra o homem que inspirou Tom Hanks A comparação com O Terminal é inevitável. O filme foi inspirado na história real de Mehran Karimi Nasseri, refugiado iraniano que viveu durante 18 anos no Aeroporto Charles de Gaulle, em Paris, após perder documentos e ficar preso em um impasse migratório que o impedia de seguir viagem ou retornar ao país de origem. Assim como Fatmata, Nasseri transformou o aeroporto em casa. Dormia no terminal, recebia ajuda de funcionários e passageiros e passou anos aguardando uma solução para sua situação documental. Sua história inspirou o personagem vivido por Tom Hanks e se tornou um dos casos mais conhecidos envolvendo imigração e burocracia internacional. Mehran Karimi Nasseri, refugiado iraniano viveu durante 18 anos no Aeroporto Charles de Gaulle, em Paris — Foto: Reprodução Falhas no atendimento Para Sadi, o caso também expõe falhas na estrutura de atendimento a migrantes que deveria estar funcionando em Belém desde uma decisão judicial proferida antes da COP30. Segundo ele, União, Estado do Pará e Município de Belém foram obrigados a estruturar um plano integrado de acolhimento humanizado para migrantes, incluindo um posto avançado de atendimento no aeroporto. — Foi instalada uma estrutura de atendimento, mas uma situação como a de Fatmata demonstra que esse plano não está operando da forma como deveria. É inadmissível que uma migrante permaneça durante tantos meses nessa condição sem uma solução efetiva — afirmou. Enquanto aguarda a emissão dos documentos pendentes, Fatmata seguirá vivendo no Aeroporto Internacional de Belém. Como o personagem que marcou o cinema há duas décadas, ela continua esperando a autorização necessária para seguir viagem. A diferença é que, desta vez, a história não está sendo contada nas telas, mas no saguão de um aeroporto brasileiro. Viktor Navorski é o protagonista do filme O Terminal (2004), interpretado por Tom Hanks — Foto: Reprodução