Michel Kuka Mboladinga é um ex-padeiro que se tornou uma espécie de sósia de Patrice Lumumba, um dos principais símbolos da luta anticolonial na África Michel Nkuka Mboladinga posa como estátua do herói da independência do país, Patrice Lumumba — Foto: Siphiwe Sibeko/Reuters Um torcedor da República Democrática do Congo (RD Congo) promete chamar atenção durante o jogo desta terça-feira (23) contra Colômbia. Sem se mexer durante toda a partida, com uma das mãos erguida, e vestindo ternos de cores vibrante da bandeira do país, Michel Kuka Mboladinga é um ex-padeiro que se tornou uma espécie de sósia de Patrice Lumumba, considerado o líder da independência do país e um dos principais símbolos da luta anticolonial na África. O sucesso viral veio durante a Copa Africana de Nações de 2025, quando ele ficava imóvel por 90 minutos nas arquibancadas, reproduzindo a postura da estátua erguida em homenagem ao ex-primeiro-ministro em Kinshasa, capital do país. Após o sucesso, a delegação oficial da seleção do seu país o convidou para integrar a comissão da Copa do Mundo de 2026. Contudo, Mboladinga não conseguiu viajar a tempo do jogo de estreia contra Portugal, na última quarta-feira (17), devido às restrições por conta da epidemia de ebola na RD Congo. México, Estados Unidos e Canadá unificaram seus protocolos para receberem a seleção congolesa, com quarentena de 21 dias para qualquer pessoa que venha do país. Devido às restrições sanitárias, Lumumba Vea, apelido pelo qual é conhecido Mboladinga, chegou somente nesta segunda-feira (22) ao México, divulgando estar "pronto para luta". Patrice Emery Lumumba foi o principal líder do movimento que levou a República Democrática do Congo à independência da Bélgica em 1960. Em 1958, fundou o Movimento Nacional Congolês (MNC), o primeiro partido político do país a defender a unidade nacional acima das divisões étnicas e tribais, e se tornou a principal voz da independência do país. Durante a cerimônia da conquista da independência congolesa, ocorrida em 30 de junho de 1960, o Rei Balduíno da Bélgica elogiou a “obra civilizadora” do regime colonial sob o comando de Leopoldo II, o segundo Rei dos Belgas de 1865 até sua morte em 1909. Lumumba, em uma resposta fora do protocolo, denunciou os abusos cometidos pelo antigo regime: “Sabíamos que nas cidades havia casas magníficas para os brancos e barracos em ruínas para os negros, conhecemos sofrimentos atrozes; exilados na nossa própria terra natal, a vida era pior que a própria morte.” Os belgas ficaram atônitos com o discurso, de acordo com o acadêmico belga Ludo De Witte, que escreveu o livro “O assassinato de Lumumba”, publicado em 1999. Historiadores estimam que, entre 1885 e 1924, dez milhões de congoleses foram mortos em nome da exploração de recursos naturais, como marfim e látex, usado para produção de borracha. Ainda no dia do discurso, quando o então Congo Belga conquistou sua independência, Lumumba assumiu o cargo de primeiro-ministro, no qual permaneceu pouco tempo. Em setembro do mesmo ano, porém, ele foi derrubado em um golpe de estado que envolveu os serviços de espionagem belga, americano e britânico, que viam o líder quinxassa-congolês como alinhado à União Soviética. O líder foi capturado e executado por separatistas da região rica em minérios de Katanga e mercenários belgas em 17 de janeiro de 1961. Seu corpo nunca foi encontrado, pois foi dissolvido em ácido. O dente de Lumumba Anos depois do atentado, o comissário de polícia belga, Gerard Soete, que supervisionou e participou da destruição do corpo do líder congolês, contou os detalhes do processo e afirmou que, ao final levou consigo um dente de ouro, único resto mortal de Lumumba. A confissão veio em 1999, na série documental de televisão, Histories, produzida e exibida pelo canal público belga Canvas (VRT). Ele descreveu o dente e os dedos que retirou como "uma espécie de troféu de caça". Segundo reportagem publicada pela rede BBC, por conta do livro de De Whitte, uma investigação parlamentar belga sobre o assassinato foi instalada e concluiu, em 2002, que a Bélgica era "moralmente responsável" pela morte de Lumumba. O assunto voltou à tona em 2016, segundo a BBC, quando a filha de Soete, Godelieve, concedeu uma entrevista à revista belga Humo, publicada pouco antes do 55º aniversário do assassinato de Lumumba. A filha de Soete afirmou que sua família deveria receber um pedido de desculpas pela ordem que as autoridades belgas deram ao seu pai e disse que ele mantinha um arquivo particular sobre os acontecidos. Entre esses objetos, estava o dente que ela mostrou ao entrevistador e ao fotógrafo. O objeto foi então apreendido pela polícia belga depois que De Witte apresentou uma queixa e, após uma batalha judicial de quatro anos, um tribunal decidiu que deveria ser devolvido à família Lumumba. Em junho de 2022, a Bélgica entregou o dente para a família Lumumba durante uma cerimônia em Bruxelas. "Não é normal que os belgas tenham guardado os restos mortais de um dos fundadores da nação congolesa por seis décadas", disse o primeiro-ministro belga, Alexander De Croo, em discurso na ocasião. Mais de seis décadas após seu assassinato, um avião transportou o único resto mortal de Lumumba de Bruxelas a Kinshasa para uma viagem de nove dias pela RDC. O dente foi posto em um caixão, que foi levado a lugares simbolicamente importantes na vida de Lumumba. Ao final da peregrinação, o caixão foi depositado em um mausoléu na capital do país, Kinshasa, abaixo da estátua homenageada pelo torcedor Mboladinga. *Estagiário sob supervisão de Diogo Max
Quem é o líder homenageado pelo torcedor-estátua da RD Congo
Michel Kuka Mboladinga é um ex-padeiro que se tornou uma espécie de sósia de Patrice Lumumba, um dos principais símbolos da luta anticolonial na África
Michel Kuka Mboladinga, ex-padeiro congolês, virou fenômeno viral como estátua viva de Patrice Lumumba na Copa da África 2025, conquistando convite para Copa do Mundo 2026. Seu impacto demonstra como narrativas históricas e simbolismo cultural geram engagement global exponencial via redes sociais.















