Pelos cálculos da entidade, a economia brasileira pode sofrer impacto negativo de R$ 240 bilhões, caso todas as montadoras passem a importar veículos semiprontos ou prontos, em vez de produzir aqui As montadoras que produzem no país poderão ir à Justiça, caso a Câmara de Comércio Exterior (Camex) decida, nesta terça-feira (23), pela prorrogação das cotas de importação de veículos eletrificados semimontados (SKD) e importados prontos (CBU). “Se possível, vamos judicializar”, disse o presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Igor Calvet. Se adotada, a medida irá contra um cronograma estabelecido pelo próprio governo em julho do ano passado, o que traz insegurança para os investimentos, acrescentou. Além disso, a discussão tem sido conduzida sem transparência e as empresas contrárias não tiveram chance de se manifestar. Por isso, o processo poderá ser questionado na Justiça. Pelos cálculos da entidade, a economia brasileira pode sofrer impacto negativo de R$ 240 bilhões, caso todas as montadoras passem a importar veículos semiprontos ou prontos, em vez de produzir aqui. A perda abarca perda de empregos e de poder aquisitivo, redução de arrecadação tributária, queda nas exportações. A medida também poderá colocar em dúvida os planos de investimento das montadoras, de R$ 140 bilhões, para a produção local de automóveis eletrificados a partir da Nova Indústria Brasil (NIB). “Estão mudando a regra do jogo quase no fim”, afirmou. “Eu fico imaginando a cabeça lá dos investidores, botando R$ 140 bilhões para o novo portfólio de produtos eletrificados, e agora estão mudando.” Um total de 14 entidades sindicais enviou ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva uma carta em que defende a indústria nacional e a retomada da tributação sobre veículos elétricos. O pedido se junta ao feito pela Anfavea na sexta-feira (19). Não estamos sendo ouvidos, nem chamados, nem respondidos sobre a questão”, afirmou Calvet. “A pergunta que fica para a gente é por que nesse momento, a seis meses de conclusão do cronograma que o próprio governo estabeleceu, há uma tentativa de mudar esse cronograma.” A previsão é que, em 1º de julho, as cotas isentas de tarifa de importação sejam encerradas e as importações de SKD e CBU fora da cota, taxadas em 28%, passarão a pagar 35%. Em janeiro, as importações de CKD, veículos totalmente desmontados, passarão a ser taxadas em 35%. Ele comentou que na manhã desta segunda-feira (22), véspera da reunião da Camex, ainda não havia pauta publicada. Na sexta-feira passada (20), uma reunião do Comitê de Análise de Tarifas (CAT), de nível técnico, recomendou a prorrogação. No entanto, essa reunião não foi informada pelos canais oficiais, como é praxe. As montadoras contrárias à medida não tiveram oportunidade de se manifestar. Essa condução do processo pode ser base para judicializar a prorrogação das cotas, disse Calvet. Na visão do presidente da Anfavea, o governo contraria sua própria diretriz de política industrial, de estimular a produção e agregação de valor no país, ao prorrogar estímulos à importação de SKD. Se todas as montadoras passassem a importar SKD em vez de produzir localmente, o impacto negativo na economia chegaria a R$ 240 bilhões, calcula a Anfavea. O maior impacto seria visto na cadeia de fornecedores. A redução de compras locais de autopeças chegaria a R$ 103 bilhões em um ano e a queda na arrecadação tributária relativa à cadeia cairia R$ 26 bilhões. O mercado de trabalho direto receberia um choque de R$ 17 bilhões, sendo R$ 5 bilhões a menos na arrecadação federal sobre a folha em um ano e R$ 8 bilhões em queda do poder aquisitivo, com diminuição de 69 mil empregos. Já no mercado de trabalho indireto, relacionado aos fornecedores o impacto chegaria a R$ 52 bilhões. O poder aquisitivo cairia R$ 27 bilhões, com perda de 227 mil empregos. Haveria ainda redução de R$ 42 bilhões em queda nas exportações de veículos leves. Presidente da Anfavea, Igor Calvet — Foto: Rogerio Vieira/Valor