Frequentemente comparado ao xadrez, o jiu-jítsu brasileiro exige que seus praticantes antecipem os movimentos do adversário, definam estratégias e tomem decisões críticas em frações de segundo. A diferença é que tudo isso acontece enquanto os dois competidores estão fisicamente entrelaçados no chão, em uma disputa intensa na qual a técnica costuma prevalecer sobre a força bruta. Entre chaves, imobilizações e alavancas, o objetivo final é a finalização do oponente. Conhecido internacionalmente pela sigla BJJ (Brazilian Jiu-Jitsu), o esporte surgiu a partir de uma adaptação brasileira do jiu-jítsu japonês realizada na década de 1920. Apesar de sua origem mais antiga, a modalidade só ganhou projeção mundial em 1993, quando o brasileiro Royce Gracie venceu o primeiro torneio do Ultimate Fighting Championship, derrotando adversários maiores e mais pesados por meio das técnicas da modalidade. Crescimento acelerado Um dos principais nomes do jiu-jítsu na Argentina, o faixa-preta Javier Cardozo acredita que a modalidade cresceu rapidamente por combinar eficiência prática com um ambiente mais descontraído do que o encontrado em algumas artes marciais tradicionais. — Acho que cresceu tanto em tão pouco tempo por sua grande efetividade e por ser uma arte marcial sem tantos formalismos orientais. O ambiente costuma ser mais leve. Nas academias, as pessoas geralmente são muito receptivas, o que faz com que os iniciantes se sintam confortáveis. Além disso, proporciona uma sensação de segurança que poucas artes marciais oferecem — afirma. Segundo ele, o jiu-jítsu atua como uma espécie de equilíbrio para diferentes perfis de praticantes. — Se a pessoa é muito medrosa, ganha coragem. Se é muito agressiva, aprende a se acalmar. Essa é a principal transformação que observo ao longo dos anos. O esporte ajuda em todos os aspectos da vida cotidiana. Resolver problemas em segundos Cardozo destaca que uma das características mais marcantes da modalidade é a necessidade constante de resolver situações complexas em pouquíssimo tempo. — Durante a prática, você está o tempo todo solucionando problemas em milésimos de segundo. Por isso, os treinamentos são baseados em inúmeras repetições de posições, técnicas e cenários específicos. O objetivo é automatizar respostas e tornar a tomada de decisões mais eficiente. — Esse método de treinamento faz com que o praticante desenvolva maior capacidade de resiliência — afirma. Frutas congeladas e vegetais enlatados são tão saudáveis quanto os alimentos frescos? Especialista explica Benefícios além do tatame A professora de ioga Florencia Melo pratica jiu-jítsu há três anos e afirma que a modalidade é menos agressiva do que muitos imaginam. — Não há socos nem chutes. É perfeitamente possível aprender posições, técnicas e finalizações sem se machucar. Ela também destaca a cultura de respeito presente nas academias. — Como mulher, sempre me senti muito respeitada por professores e colegas. Existem códigos importantes dentro e fora do tatame, e o principal deles é o respeito. Todos cuidam uns dos outros, especialmente dos menos experientes. Segundo Melo, a prática trouxe mais confiança e consciência corporal. — Nunca sabemos exatamente como vamos reagir em uma situação de emergência, mas tenho certeza de que hoje possuo mais ferramentas para me defender. Também passei a compreender melhor meu corpo e seus movimentos. Ela acrescenta que a necessidade de concentração total transforma o esporte em uma espécie de meditação ativa. — O jiu-jítsu ensina a parar, a não entrar em pânico e a agir de forma racional para sair de situações difíceis. O que dizem os estudos Pesquisas recentes reforçam os benefícios relatados pelos praticantes. Um estudo publicado em 2025 por pesquisadores na Suíça identificou que anos de prática estão associados a maior resistência mental, mais resiliência e melhor autocontrole. Outra pesquisa, divulgada em 2022 pelo International Journal of Environmental Research and Public Health, apontou que a modalidade pode auxiliar pessoas com transtorno de estresse pós-traumático e contribuir para o controle da ansiedade. Uma lição de humildade O enfermeiro e professor Oscar Gastón Paz, também faixa-preta, acredita que o jiu-jítsu funciona como uma verdadeira escola de adaptação. — O esporte desenvolve agilidade mental e ensina a se movimentar de maneira inteligente. A capacidade de adaptação ultrapassa o tatame e passa a fazer parte da vida. Para ele, uma das maiores lições da modalidade está na relação com o próprio ego. — No tatame, é inevitável se render em algum momento. Existe uma linha muito tênue entre não desistir e se machucar. Em determinadas posições, continuar resistindo não faz sentido. O praticante aprende que reconhecer limites não é sinal de fraqueza. Segundo Paz, esse processo também favorece o desenvolvimento da empatia. — Como treinamos com outra pessoa, aprendemos a cuidar dela e evitar lesões desnecessárias. Ganhos físicos e coordenação motora O fisioterapeuta e preparador físico Mateo Chiodi, que pratica jiu-jítsu há seis anos, destaca os benefícios físicos da modalidade. — Há melhorias significativas na força e na resistência devido à exigência constante de enfrentar outro indivíduo fisicamente. Ele ressalta ainda o alto nível de coordenação exigido pelos movimentos técnicos. — O esporte melhora a propriocepção, a consciência corporal e aquilo que chamamos de "engrama motor", que é a memória neurológica responsável por automatizar movimentos. Segundo Chiodi, os primeiros anos costumam ser os mais desafiadores. — A combinação entre a dificuldade da prática e a falta de experiência pode gerar frustração. Por isso, desenvolver resiliência e tolerância aos erros é fundamental. Em uma rotina marcada por excesso de estímulos e distrações, ele acredita que o jiu-jítsu oferece um contraste interessante. — É um ambiente de luta onde muitas pessoas acabam encontrando tranquilidade.
Saiba qual a arte marcial que ajuda a desenvolver foco, autocontrole e tomada de decisões sob pressão
Estudos apontam benefícios para a saúde mental, como aumento da resiliência e redução da ansiedade; modalidade exige estratégia, concentração e respostas rápidas a situações complexas









