De origem japonesa, mas reformulada no Brasil, essa arte marcial é praticada por meio da repetição de movimentos, com o objetivo de automatizá-los e otimizar as respostas 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O jiu-jitsu é praticado por meio da repetição de movimentos com o objetivo de automatizá-los e otimizar as respostas — Foto: Reprodução/ Unplash RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 17/06/2026 - 17:41 Jiu-jítsu brasileiro: mais que um esporte, um estilo de vida estratégico O jiu-jítsu brasileiro, uma adaptação da arte marcial japonesa, é comparado ao xadrez por exigir estratégia e antecipação dos movimentos do oponente. Além de promover resiliência e autocontrole, a prática melhora a força mental e ajuda no controle da ansiedade. Estudiosos destacam sua capacidade de desenvolver a coordenação e a consciência corporal, transformando-o em mais que um esporte, mas um estilo de vida. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Foi comparado ao xadrez, já que é preciso se antecipar aos movimentos do oponente, definir uma estratégia e tomar decisões críticas sob pressão. No entanto, no caso do jiu-jítsu, o lutador precisa fazer isso enquanto está desconfortavelmente entrelaçado com o adversário. A intensidade é absoluta. Os dois corpos se enroscam no chão e a força bruta fica em segundo plano diante da técnica. Entre chaves, pegadas e alavancas, chega a finalização. O BJJ, como é conhecido o jiu-jítsu brasileiro, tem suas origens em 1920, quando a modalidade japonesa foi reformulada em solo carioca. No entanto, só começou a ganhar notoriedade mundial em 1993. Foi quando Royce Gracie, filho de Hélio Gracie, um dos responsáveis por adaptar e popularizar o esporte, venceu o UFC (Ultimate Fighting Championship), nos Estados Unidos, derrotando adversários maiores e mais pesados graças às habilidades dessa arte marcial. Javier Cardozo é um dos maiores expoentes do BJJ em seu país. Entre seus títulos, destacam-se três campeonatos sul-americanos, o vice-campeonato mundial no World Pro Abu Dhabi em 2016 e o título brasileiro de 2025, entre muitas outras medalhas. Foi um dos primeiros argentinos a praticar a modalidade e acompanha seu crescimento desde a academia GF Team Argentina. — Acredito que cresceu tanto em tão pouco tempo por sua grande eficácia e por ser uma arte marcial sem tantos formalismos orientais. O ambiente é mais descontraído. Em geral, nas academias, as pessoas são muito receptivas, o que faz com que quem chega para treinar se sinta à vontade. Além disso, oferece aos praticantes uma sensação de segurança que poucas artes marciais proporcionam — afirma o especialista. Segundo Cardozo, o jiu-jítsu é um nivelador: — Se a pessoa é medrosa, ganha coragem; se é muito brigona e gosta de confusão, encontra tranquilidade. Essa é a grande mudança que observo há anos entre aqueles que aprendem a modalidade. Ela ajuda em todos os aspectos da vida cotidiana — garante o mestre, como é chamado o treinador. — Além disso, ao praticá-lo, você passa o tempo todo resolvendo situações em frações de segundo — explica Cardozo. Por esse motivo, o treinamento é baseado em repetições, com o objetivo de automatizar movimentos e otimizar respostas. — A forma de treinar tantas repetições de posições, técnicas e situações faz com que o praticante desenvolva uma capacidade maior de resiliência — afirma o faixa-preta. Florencia Melo é professora de ioga e pratica jiu-jítsu há três anos. — O mais incrível é que não é tão agressivo quanto parece. Não há socos nem chutes, e é perfeitamente possível aprender as pegadas, posições e finalizações sem se machucar — explica. Ela acrescenta: — Como mulher, sempre me senti muito acolhida e respeitada pelo meu professor e pelos meus colegas. Inclusive, treinei grávida durante seis meses! Existem códigos muito importantes dentro e fora do tatame (superfície acolchoada onde a modalidade é praticada), e o principal deles é o respeito. Todos cuidam uns dos outros, especialmente dos que têm menos força e menos experiência. Melo destaca: — O jiu-jítsu me deu mais confiança. Embora nunca saibamos como vamos reagir diante de uma emergência ou de uma situação violenta, tenho certeza de que hoje possuo mais ferramentas para me defender. Além disso, adquiri mais conhecimento e domínio do meu corpo: tenho mais consciência do que estou fazendo com cada parte dele e sinto que consigo pensar com o corpo (por mais contraditório que isso pareça). O jiu-jítsu exige concentração absoluta no presente, funcionando como uma forma de meditação ativa. Além disso, segundo Melo, por exigir constantemente a resolução de situações sob pressão: — O BJJ ensina a parar, não se desesperar e agir para sair de uma situação de forma positiva. O Jiu-jitsu é praticado por meio da repetição de movimentos com o objetivo de automatizá-los e otimizar as respostas — Foto: Reprodução/ Unplash Resiliência e autocontrole Em 2025, um estudo publicado na Suíça pelo MDPI (Multidisciplinary Digital Publishing Institute) demonstrou que esse esporte de contato contribui, ao longo dos anos de prática, para uma maior força mental, além do desenvolvimento da resiliência e do autocontrole. Outro estudo, publicado em 2022 pelo International Journal of Environmental Research and Public Health, mostrou como ele pode ajudar em casos de estresse pós-traumático e no controle da ansiedade. Oscar Gastón Paz é enfermeiro. Seu tempo livre é dedicado ao tatame. Além de faixa-preta e medalhista de ouro em Florianópolis em 2025, ele também é professor. — O jiu-jítsu proporciona agilidade mental e ensina a se mover de maneira inteligente, tornando a pessoa mais eficiente. A capacidade de adaptação se expande para além do tatame, e a prática diária de não se desesperar diante de situações desconfortáveis — como alavancas ou imobilizações — acaba se transformando em um estilo de vida — afirma. Para Paz, o BJJ funciona como um remédio para o ego: — No tatame, sempre é necessário bater. Existe uma linha tênue entre não querer desistir e acabar se machucando. Diante de determinadas posições ou alavancas, não faz sentido continuar resistindo e, se você não bater, pode se lesionar. É preciso deixar de lado a ilusão de que não bater é sinônimo de vitória ou demonstração de força. Ao mesmo tempo, esse esporte nos torna mais empáticos: como treinamos com outra pessoa, buscamos não machucá-la nem lesioná-la — explica. Mateo Chiodi pratica a modalidade há seis anos. — Na minha experiência como fisioterapeuta e preparador físico, percebi melhorias principalmente na força e na resistência, devido à demanda constante de lutar contra outra pessoa. Outra qualidade importante desse esporte de combate é o alto nível de coordenação exigido pelos movimentos técnicos. Sem dúvida, ele obriga a desenvolver a propriocepção, a consciência corporal e aquilo que, na fisioterapia, chamamos de “engrama motor”: a marca neural ou padrão de movimento armazenado no sistema nervoso central, responsável por automatizar gestos biomecânicos — afirma o especialista. Segundo Chiodi, os primeiros anos podem ser estressantes devido à combinação entre a dificuldade da prática e a falta de experiência. — Por isso, a resiliência e a tolerância à frustração construídas dia após dia são fundamentais. Em um mundo que nos estimula o tempo todo, o jiu-jítsu oferece o paradoxo perfeito: um espaço de luta onde se encontra a paz.