Presença do Irã no Mundial prova, de uma vez por todas, que não há como fazer um evento desta magnitude ignorando o que acontece extracampo; embora tenham assinado um acordo de paz, a tensão continua no ar 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O zagueiro Rezaeian (à esq.) é celebrado pelos companheiros após marcar o primeiro gol do Irã nesta Copa do Mundo , em Los Angeles — Foto: Patrick T. Fallon/AFP/15-6-2026 RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 20/06/2026 - 17:45 Tensões Diplomáticas Marcam Copa do Mundo nos EUA com Presença do Irã A Copa do Mundo nos EUA destaca a inevitável mistura entre futebol e política, especialmente com a presença do Irã, país em guerra com o anfitrião. Apesar de um acordo de paz, tensões persistem, afetando a logística e a moral da seleção iraniana. A Fifa enfrenta desafios de organização, e o evento ressalta como o futebol se entrelaça com questões diplomáticas e sociais globais. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO O futebol não era uma preocupação dos Estados Unidos quando, em conjunto com Israel, atacaram o Irã e começaram uma guerra em 28 de fevereiro. Porém, ao fazê-lo, o país que sedia a maior parte dos jogos da Copa do Mundo trouxe caos inédito à competição esportiva mais popular do planeta. Um país-sede estar em guerra com outra nação classificada para a Copa é algo sem precedentes. A saia-justa da Fifa foi enorme, embora um acordo de paz tenha sido assinado nesta semana, com a competição em andamento. Isso não põe fim à inimizade de décadas entre EUA e Irã. Enquanto a seleção iraniana ainda estiver na disputa, haverá tensão entre ela e o governo local, ainda mais com o tratamento desigual que a equipe vem recebendo. Campo minado Desde que o número de vagas na Copa do Mundo começou a crescer, EUA e Irã se tornaram figurinhas carimbadas na competição. Quis o sorteio que elas se enfrentassem duas vezes, em 1998 e 2022. Em 1998, foi o chamado “jogo da paz”, com os atletas trocando flores no gramado e o futebol levando esperança para a resolução dos problemas que vinham desde a Revolução Iraniana de 1979. Em 2022, já não havia mais essa expectativa, mas os protestos internos no Irã colocaram até a rivalidade entre as nações em segundo plano. O sorteio dos grupos da Copa do Mundo de 2026 anunciou a possibilidade bastante real de que EUA e Irã, além de se enfrentarem no campo de batalha, se encontrassem no campo de futebol mais uma vez: o duelo entre o segundo colocado do grupo D e o segundo colocado do grupo G acontece no dia 3 de julho, em Houston, no que seria a partida mais política da história dos Mundiais. Participar ou não participar? Seria um jogo entre países que acabaram de sair de uma guerra, na véspera do aniversário de 250 anos dos EUA. Os anfitriões, porém, venceram seu grupo com uma rodada de antecedência e espantaram essa possibilidade. Hoje, os iranianos, que empataram com a Nova Zelândia na primeira rodada, encaram a Bélgica. Quando a guerra explodiu, especulou-se que o Irã não jogaria a Copa do Mundo. O ministro do esporte iraniano, Ahmad Donyamali, chegou a falar nisso, mas era uma conclusão precipitada. O Irã bateu o pé e decidiu que jogaria, afinal, ganhou a vaga em campo e poucas coisas unem tanto um povo como o futebol. Seria uma boa para o próprio governo iraniano, posto em xeque entre o fim de 2025 e o começo de 2026, com novas e grandes manifestações tomando suas ruas. Milhares de pessoas foram mortas: a contagem exata varia de acordo com a fonte, mas os números do próprio regime passam de três mil. Donald Trump, que chegou a afirmar que “não podia garantir a segurança da delegação iraniana”, parecia torcer para que o Irã não fosse. Já a Fifa se viu numa sinuca de bico: uma desistência iraniana por motivos políticos seria uma vergonha histórica, já que a entidade fracassaria em fazer ressoar seu slogan de que “o futebol une o mundo”. Por outro lado, a participação do Irã imporia uma sequência de desafios relacionados à logística, à organização do torneio e até ao próprio futebol. Tratamento nada especial Embora faça os três jogos da fase de grupos nos EUA, o Irã precisou mudar seu planejamento: a seleção pensava em treinar no Arizona, mas teve de ir a Tijuana, cidade fronteiriça no México, para montar sua base. Além disso, é o único time dos 48 a ter de ficar “trancado para fora”: vai ao país apenas para jogar e precisa deixá-lo horas depois da partida. Isso obviamente interfere na questão fisiológica, já que o time precisa encarar uma viagem antes de dormir. O processo de recuperação não é bem feito, o que pode interferir na performance, ainda mais numa Copa do Mundo que já se mostrou equilibrada. “Acho que a Fifa precisava nos ajudar mais do que está fazendo”, disse o experiente atacante Mehdi Taremi, capitão do Irã, que joga sua terceira Copa do Mundo. Gianni Infantino, o presidente da entidade, tenta manter as aparências. Foi ao vestiário iraniano após o empate de estreia, contra a Nova Zelândia, e disse aos jogadores que estão “fazendo história”. Talvez ele esperasse, em sua proximidade com Trump, que o mandatário dos EUA lhe permitisse mandar na sua própria competição. Mas, se esse foi o cálculo, deu errado. Trump faz questão de comandar suas próprias fronteiras com mão de ferro, algo pouco adequado quando se pretende receber tantos outros países. Por dentro do Irã Por outro lado, o governo do Irã usa a seleção para contar o seu lado da história. Os jogadores chegaram ao México com broches em seus paletós com o número 168, quantidade de vítimas de um bombardeio dos EUA a uma escola em Minab, no início da guerra. Um dos melhores jogadores do país, o centroavante Sardar Azmoun, que também jogou as últimas duas Copas do Mundo, não foi convocado. Seu nome teria sido vetado pelo governo por ele ter postado fotos com lideranças de Dubai, onde joga atualmente, durante a guerra. Os Emirados Árabes Unidos são aliados dos EUA, e supõe-se que Azmoun estaria declarando “apoio ao inimigo” ao veicular as imagens em suas redes sociais. Ou seja, Gianni Infantino tem certa razão: a participação do Irã no Mundial já é histórica. Ao menos para provar, de uma vez por todas, que o futebol e a política se misturam, de maneira que nem EUA nem Irã escondem. O projeto Copa Além da Copa traz ao GLOBO textos que relacionam política, cultura, história, arte e sociedade com o futebol