O fato provavelmente não é um grande consolo para quem se incomoda com o cricrilar dos grilos no meio da madrugada, mas, em diversos casos, a própria evolução está atuando para tornar esses insetos mais discretos, ou mesmo totalmente silenciosos. É isso o que mostrou um estudo de pesquisadores brasileiros, que mapeou o intrigante fenômeno da perda do canto dos grilos ao longo do tempo evolutivo.

De acordo com o estudo, publicado neste mês na revista especializada Journal of Systematics and Evolution, o desaparecimento da capacidade de produzir e de ouvir esses sons aconteceu múltiplas vezes ao longo da trajetória evolutiva de um dos subgrupos de grilos que é comum no Brasil, o dos Oecanthidae, que tem mais de 1.400 espécies espalhadas pelo mundo.

O trabalho, conduzido por pesquisadores da USP e do Museu Nacional de História Natural da França, revelou ainda que existe um elevado grau de "coordenação" entre os sistemas associados ao canto –os grilos que perdem a capacidade de cantar tendem a perder também a de ouvir–, embora existam espécies dotadas de combinações aparentemente mais enigmáticas, apelidadas de "ouvintes silenciosos" e "cantores surdos".

É possível que mudanças no habitat e a pressão trazida pelos predadores sejam responsáveis por "calar" certos grilos ao longo da evolução.