De acordo com pesquisa, 51% dos brasileiros ouvem o streaming pelo menos ocasionalmente, a maior taxa entre os países analisados. São, em média, 10 horas por semana 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O som do silêncio: entenda porque os momentos de quietude são tão importantes — Foto: Shutterstock RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 09/07/2026 - 12:00 Silêncio em Alta: Equilíbrio Mental no Consumo de Áudio no Brasil Em meio à explosão de consumo de áudios, como podcasts e músicas, especialistas ressaltam a importância do silêncio. No Brasil, 51% da população ouve podcasts regularmente, em média 10 horas semanais. O uso excessivo de estímulos sonoros pode levar à dessensibilização e abstinência, impactando a saúde mental. Momentos de silêncio são essenciais para reflexão e equilíbrio emocional, segundo psicólogos. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO O silêncio é artigo raro na rotina da fotógrafa paulista Jaquelini Cornachioni, de 31 anos. Todos os momentos do seu dia, do trabalho à faxina em casa, são preenchidos com algum estímulo sonoro. O hábito, explica, tornou-se latente após sair da casa dos pais, em 2023. “Fui morar sozinha e não tinha mais ninguém para conversar. Por um tempo, o silêncio era agradável, até virar um incômodo. Daí, vieram os podcasts, audiolivros, música, vídeos no YouTube.” Mesmo com tanta informação e conteúdos interessantes, Jaquelini entendeu que os sons se tornaram prejudiciais ao chegarem na cama. “Vivi o extremo de não conseguir dormir sem um ruído. Colocava um vídeo, pegava no sono, e acordava no meio da noite para encontrar outros. O assunto tem sido tema da minha terapia”, diz ela. Por enquanto, as doses sem barulho têm sido homeopáticas: já conseguiu se livrar da música na hora do banho e evita pegar o celular um pouco antes de dormir. A fotógrafa Jaquelini Cornachioni, de 31 anos — Foto: Arquivo pessoal Rolar a tela dos gadgets infinitamente e passar horas em frente às telas, absorvido pelas imagens das redes sociais já se tornaram, há tempos, alvo de discussões e estudos. Mas pouco se debate sobre o imenso volume de áudios ao qual somos expostos. Pesquisa da Nielsen, empresa focada em medição de dados em veículos de comunicação e consumo em varejo, aponta que os americanos ouvem quase quatro horas de áudio por dia. E não ficamos atrás. Por aqui, de acordo com estudo de 2023 da empresa global de dados alemã Statista, 51% dos brasileiros ouvem podcasts pelo menos ocasionalmente, a maior taxa entre os países analisados. São, em média, 10 horas por semana. “Embora o excesso de telas seja mais estudado, pesquisas mostram que ouvir músicas e áudios que geram muito prazer libera dopamina e ativa os mesmos sistemas de recompensa cerebral que a comida, o sexo, o dinheiro e as drogas”, explica o psiquiatra Alaor Carlos de Oliveira Neto, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo. O consumo prolongado, de áudio ou de vídeo, afirma o médico, leva o cérebro a um estado de dessensibilização e ao desenvolvimento de tolerância a esses estímulos. “A estimulação contínua provoca o que nós chamamos de regulação negativa. Ao cessar abruptamente o estímulo sonoro, a pessoa pode sofrer de abstinência, sentindo-se ansiosa, irritada, deprimida ou entediada”, afirma. O UX writer Rodrigo Bio, de 43 anos — Foto: Arquivo pessoal Embora saiba o quanto os sons atrapalhem o seu dia a dia, o UX designer Rodrigo Bio, de 43 anos, não consegue tirar os fones para trabalhar. “Tenho milhares deles. No tempo livre, às vezes estou vendo um jogo da Copa enquanto escuto um podcast e estou no celular. É uma carga cognitiva grande e, quando me dou conta, paro”, conta ele. Ciente de que os estímulos sonoros já se tornaram um problema, Rodrigo também sente a pressão para sempre consumir algo novo. “Preciso conhecer uma banda ou artista novos e me atualizar, senão parece que estou perdendo algo.” Para a psicóloga Carla Cavalheiro, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, é vendida, culturalmente, a ideia de que precisamos estar constantemente estimulados. “E os momentos de tranquilidade, reflexão e devaneio são essenciais para a saúde mental, porque fazemos diálogos internos importantes, constroem quem somos, o que queremos, o que gostamos.” A solução para equilibrar tantas demandas sonoras, avisa a psicanalista Michèle Mayer, é aceitar nossos próprios limites. “Não vamos assistir a todos os filmes, ouvir todos os podcasts ou saber tudo sobre todos os assuntos. Somos seres marcados pela falta, e talvez seja justamente essa impossibilidade que nos convida a escolher, desejar e dar sentido às nossas experiências.”