[RESUMO] Retrospectiva monumental de Marcel Duchamp no MoMA devolve ao público uma visão de conjunto da sua trajetória, cuja leitura tende a ser reduzida a episódios emblemáticos. O artista abandonou a representação como problema e propôs que a escolha feita pelo olhar do espectador, antes de qualquer intervenção técnica ou habilidade manual, já pode ser arte.
Marcel Duchamp (1887-1968) ficou em silêncio diante da própria tela por um longo momento. Tratava-se menos de admiração e mais de avaliação —até porque havia duas. Na sala de Walter e Louise Arensberg em Nova York, dois exemplares de "Nu Descendo uma Escada nº 2" pendiam quase lado a lado, do mesmo tamanho, igualmente convincentes.
Um era o original, de 1912, o quadro do escândalo da Armory Show —"uma explosão em uma fábrica de telhas", segundo um jornal. O outro, Duchamp fabricou em 1916: como Arensberg não tinha conseguido comprar o original, o artista mandou ampliar um cartão-postal da obra até o tamanho da tela e o retocou a lápis, tinta e aquarela até que passasse por pintura. Em 1919, o original enfim chegou, adquirido de Frederick Torrey depois de o colecionador John Quinn ter recusado os US$ 1.000 dólares pedidos.
Os dois passaram a dividir a parede. Era 1920. Duchamp encarava a um só tempo o próprio passado e a cópia que havia feito dele. Olhava um e outro como se fossem obra de um estranho.













