Projeto, que reúne disco e filme, revela o capítulo mais íntimo de seu reencontro com a música 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Lenine em sua casa, na Urca — Foto: Marina Calderon RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 19/06/2026 - 16:23 Lenine lança "Eita", álbum que celebra resistência e intimidade Após 11 anos, Lenine retorna com o álbum "Eita", revelando seu lado mais íntimo e a reconexão com a música. O projeto, que inclui um filme, combina memórias e afetos, destacando o Nordeste e colaborações com artistas como Maria Bethânia e Maria Gadú. Durante a pandemia, Lenine enfrentou depressão e encontrou na botânica uma nova paixão. O álbum marca um recomeço e celebra a resistência e a intimidade. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Às 10h40 da manhã de uma terça-feira, Lenine atende em ponto o telefone fixo de sua casa, na Urca, e diz que já aguardava pela ligação. Não parece preocupado em soar anacrônico. Durante a conversa, aliás, ele próprio recorre ao termo ao falar sobre o novo trabalho. Depois de 11 anos sem lançar um álbum de estúdio, o pernambucano apresenta “Eita”, que estreia neste sábado (20) no palco do Vivo Rio e já passou por Fortaleza, São Paulo e Salvador com ingressos esgotados. — Uma coisa é fazer canções, e eu sou um cancionista. Outra coisa é gravar essas canções. É o álbum. Vou soar anacrônico falando assim. Tem todo o processo de transformar isso em disco. No estúdio, naquele ambiente quase hospitalar, você grava e esculpe emoções nas canções. Transformar isso em um ritual no palco é bem diferente. Eu gosto dos três processos, mas o melhor de tudo está no final da cadeia, que é subir no palco. É a resposta imediata, sem filtro. O público responde ao que acontece naquele momento, e aquilo não se repete. É ímpar — analisa. Essa relação entre passado e presente atravessa “Eita”. O Nordeste, marca permanente em sua trajetória, ganha papel de protagonista no projeto, mas o álbum também dialoga com a própria história do artista, que diz ser um repórter sonoro de seu tempo. Depois de um período em que chegou a acreditar que poderia viver longe dos palcos e afastado da música, Lenine volta a circular pelo país com a sensação de quem recomeça: — A cada novo lançamento é um recomeço, porque eu me imponho, ao longo desse tempo, ir aonde eu não fui. Eu me estimulo a estar em um lugar diferente, onde não estive. Gosto desse incômodo de trabalhar com algo com que ainda não trabalhei. La Ursa. Lenine com a máscara que é um dos símbolos mais tradicionais do carnaval de Pernambuco — Foto: Marina Calderon Embora chegue ao público apenas agora, “Eita” nasceu antes da pandemia. Em algum momento, porém, Lenine deixou o projeto de lado. Foi seu filho Bruno, que também assina a produção do disco e estreia como diretor musical do espetáculo, quem insistiu para que ele retomasse o trabalho. — Foi um projeto de maturação longo. Perdemos dois anos que foram apagados da nossa memória. Foi um momento muito distópico. E continuamos vivendo isso. Vai levar muito tempo até alguma normalidade da realidade voltar. O combate é o que nos move. A gente pode ter medo, mas tem que enfrentar. Essa desconstrução sistemática da realidade, que é mundial, precisa ser combatida. Nós, que temos algum tipo de ferramenta, devemos fazer isso. Eu trago isso na minha música. A resistência está muito presente. Resistir e persistir na existência — afirma. Por isso, o lançamento carrega um significado especial. Lenine afirma que o retorno à música coincidiu com a recuperação de um período difícil, em que chegou a enfrentar uma depressão. — Foi uma depressão, e não fui só eu que sofri. A pandemia, o pandemônio, o fascismo, a Idade Média que experimentamos... Eu fui colocado em um lugar cinza. Não queria mais fazer música, e o Bruno me mostrou o quanto eu estava errado ao achar que poderia viver sem isso. Está sendo muto bacana fazer as pazes com a expressão musical. Fiz as pazes comigo e meus prazeres, e é muito bom falar sobre isso tudo, ter o retorno desse trabalho novo. Rodar o Brasil, estrear em cada cidade, tudo isso faz me sentir que estou vivo — recorda. Estreia movida pela intimidade Lenine conta que “Eita” é o trabalho em que mais decidiu expor a própria intimidade. Um álbum movido por afetos, memórias e vínculos familiares, compartilhados agora com o público. Cada canção foi gravada por um coletivo de músicos escolhido por ele, assim como as participações especiais de Maria Bethânia, Maria Gadú, Siba e Gabriel Ventura. Bethânia divide com o pernambucano a faixa “Foto de família”, composta por Lenine e seu filho João Cavalcanti. A canção nasceu de uma fotografia dos pais do artista cercados pelos 13 netos. Já com Maria Gadú, a parceria acontece em “O rumo do fogo”, um manifesto em homenagem à resistência dos povos originários brasileiros. — Foi a intimidade que moveu esse trabalho. Com Bethânia eu tenho isso, e a canção precisava do peso das palavras que só ela dá. A Gadú era a pessoa perfeita para falar sobre os povos originários por causa da sua história e do seu ativismo — ressalta. No palco. Lenine durante apresentação do espetáculo em São Paulo — Foto: Divulgação/Malu Freire Essa rede de afetos se estende para além das participações musicais. Nomes como Alcione, Djavan, Ivete Sangalo e até o presidente Lula também tiveram um papel singular na construção do disco. — Foi um jeito que encontrei de reafirmar ainda mais o Nordeste no álbum. Falei para eles: “Preciso de um ‘eita’ seu”. Era quase uma brincadeira, como um “Onde está Wally?”. Uma pequena caça ao tesouro sonora. Foi uma reverência ao povo nordestino — explica. “Eita” também inaugura uma nova frente criativa na trajetória de Lenine. Avesso aos videoclipes por acreditar que eles significavam dublar músicas já gravadas, Lenine estreia agora como diretor do média-metragem homônimo, com 30 minutos de duração. Gravado entre Recife, São Paulo e Rio de Janeiro, o filme costura 11 clipes e funciona como um mosaico de memórias, afetos e símbolos. Se o disco foi concebido para ser visto, o longa, segundo ele, foi pensado para ser ouvido. — Essa carga de intimidade me fez perceber que eu não preciso atuar, preciso dividir minha intimidade. E o audiovisual é uma paixão antiga que pude realizar. O meu fazer música se transformou em uma espécie de religião. Meu pai dizia que, para a gente se conectar com o divino, bastava ouvir música. Foi assim que minha mãe perdeu todos os seus parceiros de igreja de uma só vez — conta. Lenine, na mureta da Urca, bairro que escolheu para morar — Foto: Marina Calderon A ideia era construir uma narrativa contínua, quase como um plano-sequência, capaz de conduzir o espectador por diferentes camadas de sua memória afetiva. — Liguei para o George Moura e para seu filho, João Moura, para encomendar o roteiro. Bernardo, meu filho mais novo, foi o assistente de direção. Todo esse universo familiar trouxe muita verdade. Ainda consegui colocar minha parceira, Anna Barroso, que nunca gostou de ser fotografada, para me ver cantar. Em “Meu xamego”, disse a ela que precisava do seu incômodo. Nossos olhares dizem tanto durante o processo — destaca. O percurso do filme começa no Teatro Santa Isabel, em Recife, cidade natal do cantor, e segue para o Terreiro Xambá, em Olinda, cenário escolhido para ilustrar uma canção encomendada por um amigo já falecido, que pretendia lançar no carnaval o “boizinho”, uma versão infantil do boi-bumbá. Em São Paulo, Lenine gravou em estúdio para reunir as participações especiais e criar aquilo que define como o interior de sua própria cabeça. Já no Rio, na Urca, montou uma espécie de caixa-preta para registrar a participação de Gadú. — Todos os símbolos e objetos que aparecem são a minha vida. Os livros foram importantes para cada um dos meus filhos. Nada foi cenário. E a Anna eu considerei como a única pessoa real, que habita em meu interior — explica. Botânica, a paixão que floresceu longe dos shows Durante o período em que esteve afastado da música, Lenine encontrou um novo objeto de fascínio — e quase uma nova devoção. Foi na Botânica que ele mergulhou quando a música deixou de ocupar o centro de sua vida. O interesse, que começou como curiosidade, transformou-se em estudo, prática e rotina. Até hoje, ele reserva especialmente as segundas e terças-feiras, dias que considera seu fim de semana particular, para se dedicar às plantas. — Tudo começou com as orquídeas. Foi fulminante. Como a música me leva para diferentes lugares, em cada um deles procuro um endemismo daquela região específica. Procuro os outros “orquidoidos” como eu, troco mudas, conhecimento sobre cortes, podas. Tudo isso faz com que eu tenha um bando de memória. Cada planta é associada a um show — detalha. Lenine mostra a tillandsia que mantém em seu apartamento — Foto: Marina Calderon A coleção, porém, rapidamente extrapolou as orquídeas. À medida que aprendia sobre uma espécie, outras passavam a despertar sua curiosidade. O olhar atento de observador, tão presente em suas composições, encontrou um novo campo de investigação: — Tem as que andam e disputam a luz do sol na copa das árvores. Eu queria saber quais eram as que dividiam espaço com as orquídeas. Aí vieram as bromélias, as trepadeiras. A cada momento chegavam novas famílias de plantas. Esse universo é lindo, e a botânica é muito ampla. Estou aprendendo em demasia. O interesse cresceu a ponto de ocupar um espaço central em sua rotina. Hoje, Lenine fala das plantas com a mesma minúcia com que descreve arranjos ou canções ou processos criativos. Em seu apartamento na Urca, mantém apenas as tillandsias, conhecidas como plantas do ar, capazes de absorver água e nutrientes diretamente da atmosfera. — É incrível a forma como elas sobrevivem sob estresse hídrico. A botânica foi uma descoberta que tomou minha vida de assalto. Cheguei a achar que só ela me bastaria — observa. Apaixonado pela Urca, bairro onde vive há décadas, Lenine costuma dizer que mora em uma espécie de cidade do interior incrustada dentro do Rio de Janeiro. Um lugar onde parte importante de sua história pessoal se desenrolou. — Eu tinha um grande amigo que morava em uma quitinete aqui. Quando cheguei, ele me disse que eu poderia cair na casa dele. Foi também o bairro onde conheci a Anna. Eu estava recém-separado, com um filho pequeno, o João. Ela já é a terceira geração da família nascida aqui. Essa ligação com a Urca se mostrou muito cedo — relata.