Formado na adolescência, grupo defende presença de crianças em recitais 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Danish String Quartet — Foto: Divulgação Mesmo com sua seleção fora da Copa do Mundo, o dinamarquês Asbjørn Nørgaard, violista do Danish String Quartet, sabe que futebol é coisa séria. Indagado se torceria mais pela Noruega ou pela Suécia, vizinhos escandinavos, ele não hesitou. —Definitivamente pela Noruega; nosso violoncelista é norueguês! E Noruega e Dinamarca foram o mesmo reino até 1814. Aliás, é uma vergonha que a Dinamarca não tenha se classificado para esta Copa! Ótimo, já temos algum rigor em comum, músicos e plateia. O DSQ toca no sábado, 20 de junho, às 16h, no Theatro Municipal do Rio, pela Série O Globo/Dellarte Concertos Internacionais. É formado pelos violinistas Frederik Øland e Rune Tonsgaard Sørensen, pelo próprio Nørgaard e pelo violoncelista norueguês Fredrik Schøyen Sjölin. Três dinamarqueses e um norueguês, portanto, unidos por uma intimidade musical rara mesmo num gênero em que a palavra “entrosamento” costuma ser usada com facilidade excessiva. No caso deles, ela faz sentido. Øland, Sørensen e Nørgaard se conheceram ainda adolescentes, num acampamento de verão para músicos amadores. Em 2001, quando tinham 15 e 16 anos, foram acolhidos por Tim Frederiksen, professor da Real Academia Dinamarquesa de Música, que os treinou com os quartetos de Haydn. Sjölin juntou-se ao grupo em 2008. O resultado é uma sonoridade moldada desde cedo não pela soma de quatro carreiras prontas, mas pela construção coletiva de uma linguagem. —Crescemos juntos— diz Nørgaard—Desenvolvemo-nos como músicos, mas também como pessoas. Para ele, isso aparece no modo de produzir som nos instrumentos de cordas e, sobretudo, na confiança interna do grupo: —Vamos nos segurar se alguém cair. A infância, nesse caso, não é apenas uma anedota biográfica. Nørgaard conta que todos ouviram música de câmara desde muito cedo, embora não necessariamente em recitais formais. Para eles, a música de câmara era antes “uma maneira divertida de passar tempo com os amigos”. Depois das muitas horas solitárias de estudo de um instrumento, tocar com os outros parecia a própria razão de todo aquele esforço. A frase ajuda a entender o DSQ: antes de ser uma especialidade, a música de câmara foi uma forma de sociabilidade. Por isso, Nørgaard defende também a presença de crianças nos concertos. —A música clássica não deveria ser algo que não se pode tocar ou compartilhar com pessoas reais. Não somos um museu—afirma. A ressalva vem do pai de filhos pequenos: crianças são bem-vindas, desde que se comportem com respeito ao ambiente. A observação é simples, mas toca num ponto sensível: a música de concerto só sobrevive como linguagem viva quando deixa de ser tratada como patrimônio intocável. Essa ideia de música como convivência atravessa também o programa carioca, que reúne a Suíte italiana, de Stravinsky, extraída do balé Pulcinella; o Quarteto de cordas nº 16, op. 135, último quarteto de Beethoven; e um conjunto de canções folclóricas nórdicas a serem anunciadas. Para Nørgaard, a obra de Stravinsky é uma “peça mística”. Construída sobre melodias barrocas, pode parecer arcaica e tradicional à primeira escuta. Mas, sob a superfície de dança antiga, o compositor espalha seu veneno moderno: “pequenas gotas de ácido numa bela pintura”, como define o violista. É uma imagem precisa para uma música que sorri, mas sorri de lado. Beethoven, por sua vez, aparece no programa em estado de enigma. O op. 135 carrega a célebre pergunta escrita pelo compositor no último movimento — “Deve ser?” — e a resposta: “Deve ser!”. Nørgaard observa que ninguém jamais soube exatamente a que esse “deve” se refere. Para ele, a peça também pode parecer clássica e evidente, mas está cheia de desvios estranhíssimos. —É um pequeno cubo de música, curto, denso e místico. Entre Stravinsky e Beethoven, as canções folclóricas não entram como descanso, concessão ou número de simpatia. O Danish String Quartet se tornou conhecido também por trazer melodias nórdicas para o centro de sua identidade, em discos como Wood Works, Last Leaf e Keel Road. Nørgaard diz que todos cresceram cercados por canções e danças escandinavas, embora elas ocupassem pouco espaço na formação clássica. Primeiro, uma melodia arranjada por Rune entrou como bis. Aos poucos, o folclore “começou a rastejar” para dentro dos programas principais. —Não vemos conflito em passar da música clássica mais intelectual para uma simples melodia folclórica. Esse ‘conflito’ foi inventado por pessoas que não entendem realmente de música— afirma.