PUBLICIDADE 'Para ele, comer é um ato que beira paixão e desejo. Até sua produtora se chama ‘El Deseo’', diz o professor e pesquisador de Almodóvar, Filippo Pitanga. 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Restaurante La Barra — Foto: Divulgação RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 19/06/2026 - 11:54 "Natal Amargo": Almodóvar Explora Gastronomia e Desejo em Novo Filme Em "Natal Amargo", novo filme de Pedro Almodóvar, a gastronomia ganha destaque, refletindo paixão e desejo, temas centrais do cineasta. A comida, sempre presente em suas obras, é usada para desenvolver personagens e criar reviravoltas na trama. Madrid, cenário do filme, é celebrada por sua rica tradição culinária, com novos restaurantes revigorando seu status de capital gastronômica europeia. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Tomate, pepino, pimenta, cebola e um pouquinho de alho. O suficiente para todos começarem a desmaiar. O que ninguém contava era com um ingrediente extra: tranquilizante. Pepa fala pausadamente: Óleo, sal, vinagre, pão dormido e água. A receita de gaspacho, a sopa fria típica da Espanha, é servida pela personagem da atriz Carmen Maura no filme “Mulheres à beira de um ataque de nervos”, de Pedro Almodóvar (1988), confirmando uma façanha do cineasta, que sempre elegeu a comida como personagem de suas obras. Em seu mais novo trabalho, “Natal amargo” (Amarga Navidad) - em cartaz nos cinemas -, ele retoma a receita. Desta vez com homens cozinhando. "Para ele, comer é um ato que beira paixão e desejo. Até sua produtora se chama ‘El Deseo’”, diz o professor e pesquisador de Almodóvar, Filippo Pitanga. Mais do que papel relevante na narrativa, a comida nos filmes do cineasta é a extensão de alguns fatores, desde o desenvolvimento de personagem e na direção de arte (por causa das cores fortes de elementos cenográficos gastronômicos) até momentos de reviravoltas, vide o inebriante gaspacho de Pepa. “Nos seus filmes mais recentes, ele decora os apartamentos como se fossem réplicas de sua própria casa, especialmente em ‘Dor e Glória’, em que a cozinha, bastante parecida com a sua, serve de lugar para conversas que ditam o rumo da trama”, cita o crítico e Bonequinho do GLOBO, Marcelo Janot. La Barra — Foto: Divulgação Eleita pela "Time Out” a capital gastronômica europeia da vez, Madrid ocupa lugar de destaque em “Natal amargo”, mas desta vez menos por sua cozinha pujante e mais como personagem da trama que se desenrola nos campos da interiorização e da crise criativa. Na contramão do que apresenta a capital espanhola à mesa. Com obras para todo lado e um centro histórico totalmente revitalizado, algumas novidades saborosas honram o título da revista inglesa. Uma delas é o novíssimo La Barra de Ultramarines, restaurante estilo taberna que fica nas instalações do hotel Thompson Madrid, do grupo Hyatt, de portas voltadas para a rua. Foi inaugurado em abril junto com a obra da histórica Plaza del Carmen, com mesinhas e cadeiras ao ar livre. O cardápio é madrilenho raiz, mas com toques contemporâneos: vermutes (€3,5), sangrias (uma carta inteirinha para elas; €6), patatas bravas, anchova no palito e muito mais. Detalhe, o Jamón é cortado na faca, como pede a cartilha ibérica, nada de máquina. Para quem é fã de arrozes e mariscos, tem de montão, incluindo a tão popular paella, que diferente da sua origem , em Sevilha (Andaluzia), é servida ali na versão mista, com carnes e frutos do mar. “É o típico local que celebra Madrid, o encanto das tabernas, o aconchego das tapas clássicas, ou ‘de toda la vida’ como se diz aqui”, defne Ofélia Marin, co-fundadora do grupo Lamucca, proprietária do La Barra de Ultramarines, o vizinho Makáá e outros mais 13 estabelecimentos na Espanha. Por falar em sangria, a bebida de “Volver" (2006), quando a protagonista Raimunda (Penélope Cruz) encontra seu marido morto, é um dos carros-chefe do Los 33, um sucesso madrilenho (Bib Gourmand no Guia Michelin) que ganhou uma roupagem nova esse ano. Isso inclui seis lugares no balcão diante da brasa, os assentos mais disputados. Quem se lembra de "Fale com ela" (2002) e o fogo representando o amor passional que queima e consome? O sanduíche bikini, de presunto grelhado (€12) e a chuleta de carne bovina (€12) com aspargos na brasa, servidos com espuma de amêndoas (€12), são um hit. A alguns passos dali, a Los Gabrielles, uma taberna de 1907, foi reaberta no início de abril, depois de 22 anos fechada para reforma. Outrora, conhecida como "A Capela Sistina dos Azulejos", ficou famosa também pelo Jerez e a salada russa, que os ibéricos tanto amam. As porções são fartas, todas para dividir, entre elas os hits cocido (um ensopado tradicional espanhol); dobradinha; feijão com presunto e ensopado galego. Uma ida lá fica em mais ou menos €40. Na cartela de clientes assíduos, só medalhões, como Manolete, Ernest Hemingway, Ava Gardner, Federico García Lorca e (olha ele) Pedro Almodóvar. Afinal, mais do que uma declaração de amor a Madrid à gastronomia espanhola, essas aparições na telona são um brinde à tradição e ao espírito único preservado por seu povo. E qualquer semelhança com a obra de seu maior cineasta não é mera coincidência.