As imagens dos jogos da Copa do Mundo de 2026 têm revelado um elemento em comum nos pés de alguns dos principais jogadores do planeta: as chuteiras rosas. Mais do que um detalhe visual ou uma coincidência entre fabricantes, a presença da cor no maior palco do futebol mundial evidencia uma convergência rara entre moda, comportamento, marketing e transformação cultural. Muitos fatores envolvem o fenômeno, que transcende os campos de futebol. Contraste: a escolha óbvia Para a consultora de imagem e especialista em cores Luciana Ulrich, a escolha tem explicações que vão muito além da estética. — O rosa é um tom complementar ao verde. Sendo assim, chama muita atenção no gramado, porque são cores completamente opostas no círculo cromático. Nossos olhares se voltam para as chuteiras mais facilmente — explica. O rosa pode não ser a primeira cor que vem à mente quando se pensa em tons neutros — até porque de neutro, o fúcsia não tem nada. No entanto, na Copa, ele assume lugar de neutralidade quando não é associado a nenhum país. Enquanto o Brasil é conhecido pelo tom de amarelo canário, por exemplo, o rosa não "pertence" a nenhuma seleção que disputa a taça. A princípio, a explicação parece suficiente: todas as marcas querem destaque. No entanto, a opção das marcas pelo rosa passa por diversos fatores. Um deles é a pesquisa de marketing desenvolvida para as coleções. Chuteiras usadas por Vini Júnior na estreia do Brasil na Copa do Mundo de 2026 — Foto: Hannah Peters - FIFA/FIFA via Getty Images Marcas e tendências globais Nike, Adidas, Puma e New Balance, quatro das maiores marcas esportivas do mundo, apostaram em modelos com tons vibrantes de rosa para esta temporada. O resultado foi imediato: as chuteiras se destacaram em campo e se tornaram um dos símbolos visuais mais marcantes do torneio. No Brasil, o sucesso foi refletido no consumo. O GLOBO mostrou que a Netshoes, do grupo Magalu, registrou aumento de 15% nas vendas de chuteiras da paleta desde o início da Copa, enquanto na Centauro, a procura pelo produto cresceu quase 50% no mesmo período. A estratégia visual se soma a uma leitura ainda mais ampla das tendências globais. Não à toa, o tom conhecido como "Electric Fuchsia" foi apontado há dois anos pela WGSN, uma das principais consultorias internacionais de tendências, como uma das cores de destaque para a primavera-verão de 2026 no hemisfério norte, período em que ocorre a Copa. A escolha também representa uma mudança de direção após anos de domínio dos tons neutros na moda e no design. Nos últimos dois anos, a Pantone escolheu tons mais suaves como "Cores do Ano": o "Mocha Mousse" e o "Cloud Dancer", um marrom frio e suave e um tom de branco. — Viemos de uma onda muito forte dos neutros. Mas as cores mais vibrantes voltaram a aparecer nas lojas. Está no inconsciente coletivo. E o rosa dessas chuteiras é extremamente vivo, vibrante e cheio de energia — afirma Luciana. Segundo a especialista, o fato de concorrentes globais terem chegado à mesma aposta cromática é um indicativo de que a decisão foi baseada em pesquisas de mercado, análises comportamentais e leitura de tendências culturais. — Quando gigantes do mercado convergem para a mesma escolha de cores, existe um olhar compartilhado e muito direcionado para comportamento, cultura e desejo do consumidor. São pesquisas, análises de tendências, dados de consumo e leituras culturais trabalhando juntos. É o inconsciente coletivo em ação. De tabu masculino a protagonista do futebol A ascensão do rosa nos gramados também carrega um simbolismo histórico. Durante séculos, a cor esteve associada a diferentes significados sociais. Na Idade Média, era considerada predominantemente masculina. Apenas posteriormente passou a ser vinculada à feminilidade, criando um estigma que acompanhou gerações. Chuteiras rosas durante a sessão de treino aberta da Espanha antes da primeira partida da Copa do Mundo de 2026 contra Cabo Verde — Foto: MI News/NurPhoto via Getty Images Por décadas, o uso da cor por homens esteve cercado de preconceitos, especialmente em ambientes públicos e esportivos. A Copa do Mundo de 2026 parece representar um novo capítulo dessa trajetória. — Hoje, essa mesma cor aparece justamente no esporte mais associado à masculinidade no Brasil e no mundo, no maior campeonato do planeta e nos pés dos maiores jogadores. Quando uma cor quebra uma regra, ela chama atenção. Isso é muito maior do que uma tendência de moda. É uma virada cultural — avalia a especialista. Na prática, o rosa deixou de ser apenas uma escolha das fabricantes e passou a ser associado ao próprio torneio. E depois da Copa: o rosa fica? Para especialistas, a tendência não deve desaparecer com o encerramento da Copa. Pelo contrário. A expectativa é que a exposição global impulsione a procura por chuteiras e artigos esportivos na mesma tonalidade. — Coincidência definitivamente não foi. Com certeza veremos mais rosa nas vitrines das lojas e é natural que a busca por chuteiras rosas aumente significativamente depois da Copa. Veremos mais jogadores usando nas partidas e o próprio público em geral também — projeta Luciana. Se dentro de campo o futebol continua sendo decidido por gols, fora dele a Copa de 2026 mostra que a disputa pela atenção do público também passa pelas cores. E, neste Mundial, nenhuma delas brilhou tanto quanto o rosa. Brasil e Marrocos: as fotos da partida 1 de 17 As bandeiras nacionais do Brasil e de Marrocos — Foto: Angela WEISS / AFP 2 de 17 Vini Jr. e Bruno Guimaraes comemoram primeiro gol da seleção — Foto: Getty Images via AFP X de 17 Publicidade 17 fotos 3 de 17 Neymar antes do início da partida — Foto: Getty Images via AFP 4 de 17 O meio-campista Lucas Paquetá e o zagueiro marroquino Noussair Mazraoui disputam a bola — Foto: CHARLY TRIBALLEAU / AFP X de 17 Publicidade 5 de 17 O meio-campista Lucas Paquetá e o zagueiro marroquino Noussair Mazraoui disputam a bola — Foto: CHARLY TRIBALLEAU / AFP 6 de 17 Neymar observa durante a partida — Foto: Jewel SAMAD / AFP X de 17 Publicidade 7 de 17 Elenco brasileiro — Foto: Getty Images via AFP 8 de 17 Técnico da seleção brasileira Carlo Ancelotti — Foto: Jewel SAMAD / AFP X de 17 Publicidade 9 de 17 Ismael Saibari, número 11 do Marrocos, marca o primeiro gol de sua equipe — Foto: Getty Images via AFP 10 de 17 Ismael Saibari, número 11 do Marrocos, marca o primeiro gol de sua equipe — Foto: Getty Images via AFP X de 17 Publicidade 11 de 17 O atacante brasileiro número 11, Raphinha — Foto: CHARLY TRIBALLEAU / AFP 12 de 17 Vinicius Junior, número 7 do Brasil, domina a bola sob pressão de Bilal El Khannouss, número 23, e Ayoub El Kaabi, número 20 — Foto: Getty Images via AFP X de 17 Publicidade 13 de 17 Vini Jr. na partida — Foto: Jewel SAMAD / AFP 14 de 17 Marquinhos vê a bola após o meia marroquino Ismael Saibari marcar o primeiro gol de sua equipe — Foto: Mauro PIMENTEL / AFP X de 17 Publicidade 15 de 17 Ayyoub Bouaddi, número 6 do Marrocos, disputa a bola com Fabinho, número 17 do Brasil — Foto: Getty Images via AFP 16 de 17 Igor Thiago em Brasil 1x1 Marrocos — Foto: Kevin C. Cox/Getty Images/AFP X de 17 Publicidade 17 de 17 Ancelotti durante Brasil 1x1 Marrocos — Foto: Darrian Traynor/Getty Images/AFP Perguntada sobre quais uniformes mais combinam com as famosas chuteiras, Luciana avaliou as combinações opostas e análogas. Como o verde é a cor complementar do rosa, seleções que utilizam essa tonalidade acabam criando um contraste ainda mais forte: México, Senegal e Arábia Saudita estão entre os exemplos em que a combinação potencializa a visibilidade das chuteiras durante as partidas. Já equipes que utilizam vermelho, como Portugal, Espanha, Suíça, Bélgica e Marrocos, criam uma composição considerada mais harmônica. Isso porque vermelho e rosa são cores análogas no círculo cromático, ou seja, estão posicionadas lado a lado. Além disso, o rosa também mantém boa compatibilidade visual com tons neutros, como preto e branco, presentes em diversos uniformes da competição. Fica a dica para combinar sua chuteira em "looks" que vão continuar mesmo após o fim do torneio.
Muito além da chuteira rosa: como o calçado se tornou o símbolo inesperado da Copa do Mundo de 2026
Escolha adotada por gigantes do mercado esportivo vai além da estética e reflete tendências globais de comportamento, consumo e identidade; especialistas apontam que o rosa se tornou um dos protagonistas do Mundial de 2026













