Se solta, mister. 'Per piacere', desabotoe o colete, destrave a Seleção. Queremos mais raça e ousadia 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O que estará escrito na bola de cristal de Ancelotti, neste momento delicado da Copa? Vitória ou fracasso? — Foto: Reprodução Carlo Ancelotti é um técnico vitorioso aos 67 anos. O maior do Real Madrid, com 15 títulos. Comandou outros gigantes, como Milan, PSG, Bayern. Conquistou Ligas dos Campeões e Mundiais de Clubes. Apesar desse currículo impressionante, é estreante em Copas do Mundo como treinador. Neste momento, 10 entre 10 torcedores brasileiros estão decepcionados com ele. No empate melancólico com o Marrocos, meus netos deram o tom. “Tenebroso, tenebroso”, repetia a neta de 13 anos, depois de passar a tarde pintando ruas de verde-amarelo. O neto de oito anos abandonou entediado o sofá e a TV, queria brincar de pique-esconde. “Esse jogo tá muito chato, quero sorvete”. O meio de campo tinha mais buraco do que queijo suíço. A impaciência nacional contrastava com a calma de Ancelotti. Elogiado como “camaleão tático”, demorou demais a perceber que tinha escalado errado. Demorou a fazer alterações. E ousou pouco. Onde estaria Endrick? Luiz Henrique entrou aos 17 do segundo tempo e Danilo Santos só no final. Onde estariam a leveza, a criatividade e a polivalência de nosso futebol? Nos times vencedores, todos atacam e defendem. Onde estariam os rodízios, os passes encantadores e precisos? A garra que vimos, não só nas seleções favoritas, mas na Colômbia? Então, quando o tranquilo Ancelotti, na insossa entrevista coletiva, diz que o problema foi “a ansiedade”, e que não ficou “nem decepcionado nem satisfeito” com a Seleção, a gente pensa. É esse o verdadeiro espírito de liderança? Guerreiro? Competitivo? “Liderança tranquila” é o título do livro de Ancelotti em 2018. São boas as lições. Controle não é gritar mais alto e abusar da autoridade. Escutar pode ser mais útil do que falar. Calma, respeito e inteligência emocional conseguem alta performance. No esporte e no mundo empresarial, sair berrando e dando bronca não leva a nada. Mas, ti prego, queremos mais energia. Somos brasileiros, queremos um técnico que entregue um pouco mais de alma para esse time. E que não se feche na patota veterana. O time está sem alma. Ou precisamos chamar o Bernardinho para uma palestra motivacional? Queremos sangue nos olhos, entrega, raça, gás. Filho de agricultores humildes, Ancelotti veste terno impecável, sob medida, cores sóbrias, sapatos clássicos de couro, como Oxfords e Derbys (mas masca chiclete de boca aberta). Pode lhe fazer bem desabotoar alguns botões do colete. Destrave o look, Ancelotti, e com isso a Seleção. Se solta, “mister” (não entendo essa obsessão dos jogadores em chamar técnicos de mister). Somos o país do samba, da capoeira, do frevo, da ginga e da velocidade nos pés. Brasil não é travado, temos jogadores rápidos, a melhor defesa pode sim ser o ataque. É um clichê, mas faz sentido. O ataque começa na construção da jogada, em conjunto, a partir da defesa, o que é impossível a partir de uma defesa pesada. O volante Casemiro andava em campo, sua velocidade foi a menor do Brasil, 26.5 km/h. Não podemos depender apenas do lampejo de um único jogador. Vini Jr, o mais veloz, nos salvou de uma estreia com derrota. Um pouco menos de tranquilidade, per piacere, Ancelotti! Você, que foi tão firme ao defender Vini Jr contra o racismo nos estádios na Espanha. Senti admiração por você ali. Como disse Vini: “Ele é um pai para mim”. E isso é bonito. Saudades de técnicos empunhando pranchetas e gritando à beira do campo. Vamos de futebol-raiz, sem mister, sem mistério. Podemos aprender com os gringos. Mas a identidade brasileira da alegria nos pés não pode ser sufocada. Empatia sim. Apatia, nunca. Com ou sem Neymarketing em campo, Ancelotti, seja tranquilo ma non troppo. Deixe claro, logo no início do jogo, que o Haiti não é aqui.