Ao ler a notícia da morte de Maria Eduarda Rodrigues, de 21 anos, lançada sem corda de uma altura de 40 metros durante um salto de rope jump em Limeira (SP), Luiz Cardoso foi transportado de volta a 2020. — Na hora, eu lembrei do meu filho — contou. O filho dele, Adam Esteves Cardoso, morreu aos 25 anos após um acidente semelhante durante a prática do mesmo esporte em Minas Gerais. Segundo as investigações, a extensão da corda foi calculada de forma errada, fazendo com que o jovem atingisse o solo e morresse instantaneamente. Agora, enquanto acompanha as investigações sobre a morte de Maria Eduarda, Luiz diz esperar um desfecho diferente daquele que marcou sua própria família. — Espero que a Justiça condene os responsáveis e que eles paguem pelo que fizeram. No caso do meu filho, isso não aconteceu — afirmou. Luiz Cardoso e o filho Adam, que morreu em 2020 na prática de rope jump — Foto: Arquivo Pessoal / Reprodução O pai afirma que a morte de Maria Eduarda reabriu feridas que jamais cicatrizaram. Seis anos após perder o filho, ele diz que ainda convive diariamente com a saudade. — A gente nunca esquece. Eu mudei totalmente depois da morte dele. Sempre me emociono quando lembro. Com o tempo, tento guardar as lembranças boas, mas a dor continua — disse. Falhas humanas e protocolos de segurança descumpridos A semelhança entre os casos vai além da modalidade esportiva. Nas duas ocorrências, investigações apontaram falhas humanas e possíveis descumprimentos de protocolos de segurança. No caso de Adam, a Polícia Civil concluiu que o organizador do salto não apenas errou o cálculo da corda, como também operava a atividade com procedimentos considerados precários e sem equipe suficiente para garantir a segurança dos participantes. Apesar disso, o responsável não chegou a ser preso. Indiciado por homicídio culposo, quando não há intenção de matar, o investigado firmou um Acordo de Não Persecução Penal (ANPP) com o Ministério Público. A punição limitou-se ao pagamento de R$ 3 mil e 44 parcelas de R$ 500. A decisão deixou a família inconformada. — Foi muito difícil aceitar. Meu filho perdeu a vida e a sensação que ficou foi de impunidade — afirma Luiz. Em Limeira, três pessoas seguem investigadas por homicídio com dolo eventual — quando se assume o risco de provocar a morte. A suspeita é de que Maria Eduarda tenha sido lançada sem que estivesse presa ao sistema de segurança. Para Luiz, a diferença de enquadramento pode representar uma chance de responsabilização mais rigorosa. — Espero que a justiça seja diferente, que eles paguem pelo que fizeram e que não ocorra da forma como foi feito aqui em Minas com meu filho. Eles têm que pagar pelo que fizeram com essa menina. Digo para a família dessa jovem para ficar com Deus e orar. Aceitar é difícil. É difícil para um pai perder um filho assim. Relembre o caso do Adam Adam Esteves Cardoso subiu no parapeito de um viaduto para estrear nos esportes radicais com um salto de rope jump. O empresário estava amarrado por cordas e equipado com um capacete para se lançar em um vão de 107 metros de altura. A corda que prendia o corpo de Adam Esteves deveria ter ficado a, no mínimo, cinco metros do chão quando esticada. Dessa forma, o corpo do empresário balançaria de um lado para o outro, como um pêndulo. Assim que o movimento parasse, ele seria colocado no chão com segurança. Adam saltou, foi imediatamente de encontro ao solo e morreu na hora por politraumatismo craniano. Viaduto da prainha, local onde Adam praticava o esporte, que tem um vão de 107 metros — Foto: Reprodução / CBMMG Adam Esteves foi a décima sexta pessoa a saltar no dia do acidente. Foi antecedido por um primo que o acompanhava no passeio. Depois de esse primo saltar, os instrutores soltaram a corda lentamente até que ele alcançasse o chão, descesse e retirasse o equipamento. Em seguida, o primo aguardou no ponto de pouso para assistir ao salto de Adam Esteves. Traumatizado, o parente precisou ser levado para o hospital em razão do choque. O Ministério Publico ofereceu ao réu, indiciado por homicídio culposo (sem intenção), um Acordo de Não Persecussão Penal (ANPP). A advogada que representa Adam no processo, Isadora Aires, explicou que, mesmo com a rejeição por parte da vítima, não é possível impedir a celebração do acordo. Com o aceite do réu, apontado como líder do grupo responsável por organizar o evento, a Justiça homologou o acordo e que previu o pagamento de R$ 3 mil e 44 parcelas de R$ 500. Empresário do ramo de informática, Adam Esteves era dono da MegaNet. A empresa fornecia internet banda larga para clientes em Nova Era, município de quase 18 mil habitantes situado a 140km de Belo Horizonte. Hoje, em homenagem a ele, a fornecedora foi rebatizada de Adamnet e, por levar internet para lugares remotos, Luiz receberá uma moção de apalusos na Câmara Municipal da cidade. *Estagiário sob supervisão de Cibelle Brito
Pai que perdeu filho em trágedia de rope jump em 2020 revive a dor: ‘Espero que desta vez a justiça seja feita’
Adam Cardoso morreu aos 25 anos após erro no cálculo da corda durante salto de rope jump em Minas Gerais; réu, que nunca foi preso, pagou indenização de R$ 3 mil mais 44 parcelas de R$ 500














