Presidente do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores (INESC) e do comité de acompanhamento da Agenda Nacional de Inteligência Artificial, Arlindo Oliveira considera que “o Estado tem feito um péssimo trabalho a reduzir a burocracia”. Sobre o projecto Amália, garante que já está a ser utilizado, mas que pode não se traduzir em ganhos de produtividade.Na sua primeira encíclica, o Papa Leão fala sobre a ideia de desarmar a inteligência artificial. O que é preciso desarmar na inteligência artificial?Não é só desarmar. A encíclica inclui um conjunto de preocupações muito relevantes. O desarmar deve ser visto no sentido vasto, não só na componente das armas, mas também na componente de até que ponto é que a inteligência artificial não é uma tecnologia que pode prejudicar, de alguma maneira, diversas componentes da sociedade actual, quer através da criação de comportamentos viciantes, quer através da criação de heterogeneidades no acesso à informação, da concentração do poder económico.Há ainda uma outra preocupação relativamente ao transumanismo e à ideia de que a tecnologia virá, de alguma maneira, a superar a natureza humana. Uma das visões que Silicon Valley tem vindo a propagar é essa ideia de que o futuro ser humano será diferente do actual, com vida mais longa, eventualmente através do aumento das plataformas digitais. O futuro da humanidade provavelmente não vai ser assim tão parecido com o passado como nós pensamos.Uma das coisas curiosas é que existem evidências bastante claras de que o Claude foi usado de maneira bastante extensa na escrita da encíclica.A Anthropic acaba de sugerir uma pausa temporária no desenvolvimento da inteligência artificial de ponta. Deve ser levado a sério?Eu não levo muito a sério. Geralmente, quem propõe um congelamento de tecnologia são sempre as empresas que estão à frente. Em alguns casos, também pode ser visto como uma manobra de marketing. Quando se diz: “Isto é muito perigoso, o modelo é tão poderoso que nós nem sequer o podemos libertar”, é uma maneira de dizer: “Fazemos os melhores modelos do mundo, esta empresa vai ser fundamental no futuro da inteligência artificial.” É difícil destrinçar as verdadeiras motivações.Mas não acredita nesta ideia de que 80% do código é a máquina que está a produzir? Não me custa muito a acreditar. No último ano, em particular, houve uma alteração profunda na maneira como se escreve software. Grande parte do software é escrito através da interacção com modelos, como o Codex ou o Claude.Neste momento, de facto, é mais um diálogo e uma interacção com os modelos do que propriamente escrevermos nós o código linha a linha.E, desse ponto de vista, levanta-se aquela questão: será que chegámos ao ponto em que o modelo escreverá a próxima versão do próximo modelo? Já estivemos mais longe do auto-aperfeiçoamento recursivo. Se me tivesse perguntado há dois anos, provavelmente teria dito: “É uma ideia interessante, conceptualmente, mas estamos muito longe.” Neste momento, já não é assim tão óbvio que seja uma ideia disparatada.
Arlindo Oliveira: “Não existe” um plano para uma utilização integrada da IA no Estado
Professor do Instituto Superior Técnico alerta para “riscos e incertezas” da IA no futuro próximo e defende que os alunos devem “voltar atrás” e fazer exames em papel ou em orais.








