Como o tempo que alterna momentos ensolarados e chuvosos em Morristown, a seleção brasileira busca encontrar o equilíbrio com a Copa do Mundo em andamento. E precisou de alguns dias para restabelecer a calmaria, a transparência e a clareza perdidas depois do empate com o Marrocos na estreia, no sábado. Depois de um dia de folga com familiares, treino fechado para convidados e a semana iniciada com a expectativa sobre a volta de Neymar — que ontem, enfim, entrou em campo junto com o elenco e participou do aquecimento com os demais jogadores, mas ainda se recupera de forma individualizada —, coube ao experiente Danilo a missão de passar a limpo todos os assuntos que circundam o elenco e também expor o que se passa internamente, sem rodeios. Em 40 minutos de entrevista, o zagueiro/lateral falou sobre projeções e hipóteses em relação ao time que deve ir a campo na segunda rodada, admitiu que o ciclo conturbado da seleção, com muitas trocas de comando técnico, dificulta os trabalhos no Mundial e respondeu sobre o clamor popular pela entrada de Endrick no time titular. — A não criação de uma identidade e as trocas constantes também influenciam na questão da ansiedade. Quando se tem um plano e uma coisa construída, coesa, quando as coisas começam a ficar difíceis, você se agarra naquilo. A gente não conseguiu construir isso, é claro e óbvio. Não temos a maturidade da França, da Argentina, enquanto equipe — analisou Danilo, indo além: — Não quer dizer que não podemos fazer um bom papel. Mas temos que ter ferramentas diferentes. Talvez ficar mais baixo na marcação, não pressionar tanto, aceitar a posse de bola e o comando de jogo do adversário. Isso é maturidade. E, quando tivermos brecha, temos Vini, Raphinha, Rayan, Endrick, para fazer o gol. Um dos líderes do grupo, o experiente jogador de 33 anos usou uma metáfora para argumentar que, diante da preparação longe da ideal nos últimos quatro anos, o Brasil precisará se fortalecer com as armas que tem, de maneira improvisada, para fazer uma Copa honrosa. — Hoje existe planejamento, organização das melhores que já tive aqui dentro. E isso vai trazer benefício para essa Copa do Mundo e, a médio prazo, para a criação da identidade dos jogadores que crescem na base da seleção. Mas tem a parábola do bambu chinês. Você bota a semente e tem que regar por quatro a cinco anos. Ele fica construindo uma raiz por baixo. E vai crescer por muitos metros em um espaço curto de tempo. Acredito em uma trajetória bonita nessa Copa. Mas essa organização vai trazer frutos a longo prazo, tem que esperar os processos, nem sempre é fácil — emendou o defensor. Entre os frutos esperados de imediato está o atacante Endrick. Em meio a bastidores que dão conta de um aproveitamento cuidadoso do jovem de 19 anos por Carlo Ancelotti na seleção, Danilo deixou claro que, se levar em conta o que o jogador faz nos treinos, trata-se, sim, de uma “joia rara” que pode em breve ter minutos na Copa. O defensor cobrou inclusive mais clareza sobre o tema, lembrando uma entrevista do volante Casemiro que deixou em dúvida a receptividade do grupo do Brasil ao jovem talento. — Casemiro falou de forma que pode ter dado margem à interpretação. Cabe a nós, quando usarmos a voz, comunicar da maneira mais clara possível. O Endrick é muito importante, joia rara, tem poder de decisão, estrela. Acontecem as coisas e a gente não sabe por que ele faz gol. A gente quer tê-lo perto. Fez gols no treino, deu chute que quase tirou o goleiro Nanetti do treino. Queremos fazer as coisas para que eles sintam que esse espaço é deles. Ele não entrou porque o Bruno (Guimarães) sentiu. Mas falo muito para ele: “Mantenha a cabeça fresca”. Quando entrar, serão cinco, dez minutos, e ele irá ajudar. Time titular é mistério Para o jogo com o Haiti, Ancelotti faz mistério sobre a escalação. Assim como para a estreia, o técnico — há apenas um ano no comando da seleção — tem feito testes em todos os setores ao longo da semana, como numa busca incessante para compensar o pouco tempo de trabalho. Na expectativa de ser titular na lateral direita no lugar de Ibañez, Danilo ressaltou que é normal que os titulares sejam conhecidos em cima da hora, mas que a seleção se prepara com uma base de equipe em relação ao adversário e questões físicas. — Isso no último jogo teve importância exagerada. Hoje temos 80% do time que vai jogar na sexta-feira definido, e três ou quatro que ainda não se sabe, por vários motivos. Os treinadores têm uma cabeça maluca, às vezes não têm uma explicação lógica. São escolhas e decisões. Eu espero jogar. Sem Neymar, Ancelotti testa endrick Em mais um dia de observações táticas em treino fechado, o técnico Carlo Ancelotti testou o atacante Endrick no ataque da seleção brasileira ontem, antevéspera do jogo com o Haiti. O jovem de 19 anos alternou minutos com Igor Thiago e Matheus Cunha na atividade, atuando por dentro, no comando do ataque. Em outros momentos do treino, o italiano repetiu os testes com Luiz Henrique e Rayan observados na frente, Fabinho e Éderson no meio-campo e Alex Sandro na defesa. A linha de zaga, porém, só deve mudar com a entrada de Danilo, praticamente confirmado na vaga de Ibañez, ao lado de Marquinhos, Gabriel Magalhães e Douglas Santos. Nos últimos dias, houve precaução com as situações de Gabriel Magalhães e do atacante Raphinha. O zagueiro sofre com desgaste no adutor da coxa esquerda, e há cautela, enquanto o atacante cuida de bolhas no pé direito. Hoje, o Brasil faz o último treino em Morristown antes de seguir viagem para a Filadélfia, onde encara o Haiti amanhã, no estádio Lincoln Financial Field. O atacante Neymar foi a campo pela primeira vez junto aos demais jogadores, mas teve mais um dia de contato com bola durante o trabalho de preparação física. Na etapa inicial da transição, Neymar viaja hoje para a Filadélfia com o elenco, mas não deverá ser relacionado para o jogo com o Haiti. Assistirá do banco de reservas, como na estreia diante do Marrocos. Ontem, sua atividade foi, na maior parte do tempo, individualizada. Companheira, a bola serviu como um elemento lúdico enquanto o astro se movimentava em campo. No começo do treino, Neymar chegou a aquecer junto aos demais atletas. Depois, ficou sozinho com a preparação física e contornou marcações no campo com a bola enquanto corria. Os pequenos cones eram driblados, e Neymar testava a recuperação na panturrilha direita com movimentos para os dois lados, deixando a bola correr e recuperando-a ao alternar de direção. Também brincou fazendo embaixadinhas. Mas não chutou a gol. O camisa 10 segue acompanhado pelos fisioterapeutas e terá a intensidade dos próximos treinos avaliada dia a dia. Na próxima semana, se for entregue à comissão técnica conforme o cronograma previsto inicialmente, passará aos treinos com bola junto aos demais jogadores para encarar a Escócia, dia 24. Danilo projetou a volta do camisa 10 ao time, mas também não se iludiu. — Precisamos lidar com a realidade. Não de forma hipotética. Esperamos que ele esteja bem, se recupere e contribua. Seja cinco, dez minutos. A qualidade dele já foi provada — disse o defensor, sobre o impacto que Neymar pode ter no time do Brasil ainda na Copa. — Neymar vai atrair dois ou três, e outro do nosso time vai ficar sozinho. Pode nos ajudar muito. Só de estar em campo pode desequilibrar tudo que o adversário prepara — explicou Danilo.
Seleção ainda tenta encontrar identidade com mais de um ano de Ancelotti
Preparando-se para jogo contra o Haiti após demora para absorver os impactos da estreia, Brasil tem dia de calmaria e clareza nas limitações do trabalho constatadas














