Quando um terreiro é invadido, não se quebra apenas uma porta, uma imagem ou um atabaque. Atinge-se uma memória religiosa que o Brasil tentou empurrar para a margem por séculos. É por isso que a palavra "intolerância" nem sempre basta.

Intolerância serve para muitos casos: o judeu ofendido, o evangélico impedido de cultuar, o católico ridicularizado, o ateu hostilizado. Mas, quando o alvo são a umbanda, o candomblé e outras religiões de matriz africana, o problema ganha outra camada.

A intolerância parece briga entre crenças. Como se duas pessoas apenas não soubessem conviver. No caso dos terreiros, a história é mais dura. Não se trata só de discordância religiosa. Trata-se de hostilidade a uma fé associada à população negra, tratada durante muito tempo como ameaça.

O Brasil já chamou práticas afro-brasileiras de feitiçaria, curandeirismo e perigo público. Terreiros foram vigiados. Objetos sagrados foram apreendidos pela polícia. Em muitos lugares, a fé negra precisou pedir licença ao Estado para existir.

Enquanto algumas religiões ocupavam calendários, praças e prédios públicos como tradição nacional, outras eram empurradas para a suspeita. A diferença nunca foi apenas teológica. Foi também racial, cultural e política.