Sérgio Gabrielli diz que arcabouço fiscal não está limitando crescimento, mas que isso pode ocorrer diante da necessidade de investir mais; ele diz ser contra que “em nome do equilíbrio fiscal se sacrifiquem as políticas voltadas aos mais pobres e aos trabalhadores brasileiros” 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 José Sérgio Gabrielli — Foto: Lucio Bernardo Jr./Câmara dos Deputados RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 16/06/2026 - 21:06 Gabrielli defende tributação financeira e câmbio estável para economia do PT O coordenador do programa do PT, Sérgio Gabrielli, destaca a importância de tributar rendas financeiras e estabilizar o câmbio para reduzir desigualdade e fortalecer a economia. Ele defende investimentos públicos e sociais, sem sacrificar políticas para os mais pobres. Gabrielli critica a visão de curto prazo do mercado financeiro e propõe diretrizes para um crescimento sustentável, mencionando que a conjuntura definirá o uso das políticas fiscais. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO O programa de governo do PT para um eventual novo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva prevê aprofundar a estratégia: "Pobre no Orçamento e Rico no Imposto de Renda". Apesar de no governo atual já ter sido instituída a taxação de 10% para os mais ricos, a ideia é avançar no processo de tributação das camadas mais abastadas. Nesse sentido, os rendimentos financeiros entram na mira, indicou o coordenador de programa de governo do partido, Sérgio Gabrielli, em entrevista ao GLOBO. — Ao olhar a tributação das pessoas que vivem de rendas financeiras, que são as pessoas mais ricas do Brasil, a alíquota efetiva dessa parte da população é muito baixa para qualquer comparação internacional — disse Gabrielli. —Não sou eu só que estou defendendo isso, vários ricos do mundo têm defendido porque percebem que a desigualdade é um problema no longo prazo. Ela pode dar vantagens no curto prazo, mas no longo prazo é um desastre. Nenhum país se sustenta aumentando a desigualdade. E, para diminuir a desigualdade, a questão tributária é importantíssima — completou. Além desse movimento, o programa preliminar do PT, que ainda pode ser alterado, prevê também redução de benefícios fiscais sem contrapartidas verificáveis. E defende que se condicione a manutenção de benefícios tributários a avaliações periódicas de custo-benefício e que se realoque os recursos para investimentos de maior retorno social. Rejeitando a “pecha de gastador” O economista, que foi presidente da Petrobras por um longo período nos dois primeiros governos de Lula, defende que o arcabouço fiscal não seja um fator a limitar o crescimento econômico. — Eu acho que ele (o arcabouço) não está inibindo o crescimento hoje, porque não está no limite. Mas se vamos crescer mais, pode ser que ele venha a limitar. Se eu estou dizendo que um dos fatores fundamentais para o crescimento econômico é o investimento público, é a expansão dos gastos sociais e a utilização do consumo popular eu vou ter as limitações para a continuidade desse crescimento no âmbito fiscal. É questão lógica. Nós estamos falando do ponto de vista de um programa que tem que olhar cinco anos na frente, não para hoje. Gabrielli diz que o petismo não quer “aceitar a pecha de gastador”, mas tampouco que “em nome do equilíbrio fiscal se sacrifiquem as políticas voltadas aos mais pobres e aos trabalhadores brasileiros”. Questionado se esse discurso de que é possível o governo investir mais, estimular o crescimento para acima de 3% e ao mesmo tempo reduzir os juros não acaba gerando dúvidas sobre a previsibilidade do arcabouço, ele rebate: — Não tira. Você tira a previsibilidade do investidor de curto prazo, do especulador que quer investir às 10 horas da manhã e receber dinheiro às 12 horas do mesmo dia. Mas o que está dito aqui é que nós somos a favor do equilíbrio fiscal, nós somos a favor do ajuste das políticas monetárias e fiscais de forma a viabilizar um crescimento sustentável, nós estamos olhando para cinco anos para frente, nós não estamos olhando para dois dias depois — disse. Ele não vê correlação entre a alta recente das taxas de juros de mercado com a percepção sobre a condução da política fiscal de um eventual quarto governo Lula. — De jeito nenhum. Eu não acho que essa relação direta. (O mercado) vive da notícia de curto prazo — defendeu. O petista reforça que a conjuntura é que vai definir o uso dos instrumentos pelo governo e os movimentos de aperto ou distensionamento das contas e evita sinalizar se, em caso de reeleição, o governo começaria o ano que vem com uma política fiscal mais restritiva. — O programa trabalha com diretrizes gerais, não com implementação específica. Eu não sei o que vai ser feito em janeiro. Tem uma série de coisas que eu não sei e ninguém sabe. São as conjunturas que definem os instrumentos — afirmou. Inflação, câmbio e juros Gabrielli também evitou discutir a política monetária em execução pelo Banco Central, mas ressaltou que o esforço de combate à inflação pode ser feito com múltiplos mecanismos e instrumentos, inclusive por parte do governo. Como no programa de 2022, o PT fala em uso de mecanismos como o uso de estoques regulatórios e outras políticas que melhorem a oferta de produtos. — Para combater a inflação, você tem que analisar as causas, não tem só demanda agregada aquecida. A inflação tem choques de oferta, tem choques de custos na cadeia produtiva, de inexistência de estoques, de atividade especulativa em determinado segmento. Para você combater a inflação, não tem um instrumento só, a taxa de juros é um dos instrumentos. Nesse sentido, o economista também destaca que uma maior estabilidade da taxa de câmbio ajuda a conter o processo inflacionário. E aponta que o governo pode usar diferentes instrumentos para diminuir a volatilidade, inclusive desestimular o fluxo de capital especulativo. — O governo pode fazer várias coisas: induzir a exportação, facilitar a entrada de capitais produtivos de longo prazo, promover mudanças legislativas que dificultem a entrada e saída de capitais de curto prazo, especulativos — disse. — Não é o que o governo está dizendo que vai fazer. É um dos instrumentos que o governo pode vir a usar em determinado momento. Todos os países do mundo, quando tem uma sangria, uma ameaça de uma crise cambial, usa controle de capital. Mas depende da crise, depende do momento. Por isso não está no programa de governo.