Mítica casa de espetáculos da Zona Sul carioca, fechada em 2010, ganha filme, que estreia no In-Edit Brasil, com depoimentos de estrelas que marcaram época no seu palco, como Roberto Carlos, Ney Matogrosso e Alcione 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O cantor Ney Matogrosso e Lucinha Araújo, mãe de Cazuza, em cena do documentário “Canecão – Tantas Emoções”, de Bruno Levinson — Foto: Divulgação O título do documentário do jornalista, poeta, escritor e roteirista Bruno Levinson, “Canecão — Tantas emoções”, não une gratuitamente a memória da mítica casa de espetáculos carioca a um dos eternos motes do cantor Roberto Carlos. O estabelecimento, que funcionou entre 1967 e 2010 num privilegiado ponto de Botafogo, na Zona Sul do Rio, foi de crucial importância para o Rei. Lá, ele estreou em 1970 “A 200km por hora”, ambicioso show no qual faria a passagem da Jovem Guarda para o trono da canção romântica brasileira. Mais tarde, o cantor comporia um de seus clássicos, “Emoções”, com o Canecão em mente, para um dos seus muitos espetáculos que começaram carreira na casa. Roberto deu um comovido depoimento a “Tantas emoções”, filme cuja estreia se dá na 18ª edição do In-Edit Brasil — Festival Internacional do Documentário Musical, que começa esta quarta-feira, em São Paulo (a sessão inaugural do doc é quinta, às 18h30, no Spcine Olido). Mas as tantas emoções que transbordam no longa-metragem não são só as do Rei — tem ainda as de astros como Alcione, Elymar Santos (cantor do subúrbio carioca que ficou célebre por ousar alugar o Canecão por uma noite, nos anos 1980) e Ney Matogrosso (que além de fazer históricas temporadas na casa, ainda dirigiu lá shows de Cazuza e RPM), e aquelas de funcionários e frequentadores do Canecão — entre eles, o próprio Levinson, hoje com 58 anos, que viu ali, criança, o primeiro show da sua vida: o de Roberto Carlos. — Aquilo foi determinante para eu seguir na vida de produtor, de pessoa ligada à música. E, bem mais tarde, fiz a minha cabeça musical vendo shows no Canecão. Um grande marco foi quando eu fiz lá um show do (festival) Humaitá pra Peixe. Foi, tipo, “caramba, estou produzindo um show no Canecão!” — emociona-se o diretor, que, durante sete anos, foi roteirista dos especiais de Natal de Roberto. Bruno conta ter começado a pensar no filme em 2010, quando problemas financeiros dos administradores do Canecão e uma disputa pelo terreno com a UFRJ levaram ao fechamento da casa. — Ali me veio um insight: “Cara, a gente tem que documentar isso, isso não pode ficar perdido na história!” — conta o diretor, que na época entrou em contato com a UFRJ, mas diz que foi sendo jogado de um lado para o outro. Em 2023, quando o consórcio Bonus-Kefler ganhou a licitação para ocupar o espaço e construir o novo Canecão (a ser inaugurado no ano que vem), o empresário Luiz Oscar Niemeyer, da Bonus Track, abriu as portas para Bruno para que ele filmasse na casa, que naquela altura estava praticamente em ruínas. Com a ideia de fazer “um filme bonito, não apenas um documentário com pessoas falando”, ele (que já se associara à produtora Clélia Bessa para a realização do longa) pagou uma faxina e um carinhoso trabalho de cenografia na casa e chamou os convidados para as entrevistas — como se fosse um derradeiro espetáculo no velho Canecão, que foi demolido dias depois de acabarem as filmagens. Alcione foi lá, e cantou, de improviso, uma música de Maysa (que ela viu no Canecão em 1969, na primeira temporada de um artista célebre na então cervejaria). Uma roda com Evandro Mesquita, Lobão, Frejat, Leoni e Bruno Gouveia (Biquini Cavadão), entre outros, lembrou de quando o Rock Brasil tomou aquele espaço que tinha estampado em sua entrada as palavras do produtor Ronaldo Bôscoli: “Nessa casa se escreve a história da música popular brasileira.” — Uma cena, para se estabelecer, precisa de um ponto de encontro. E o Canecão foi esse ponto de encontro. Alceu Valença fala disso no documentário — conta Levinson, que, algum tempo depois das filmagens no Canecão, enfim encontraria Jerson Alvin, diretor artístico da casa por 27 anos, e tomaria o seu depoimento (Jerson morreria em 2025). Estrelas do rock brasileiro dos anos 1980 em cena de documentário sobre o Canecão — Foto: Divulgação/Elisa Bessa O diretor reconhece no Canecão um espaço que, apesar dos muitos problemas, tinha um clima familiar que o fundador, Mario Priolli (1936-2018), tentava manter entre a sua equipe de produtores, garçonetes, assessores de imprensa e seguranças. E foi esse o clima que ele mesmo tentou manter em seu filme, especialmente nas cenas em que vai à Ilha do Governador, com seu carro, pegar Elymar Santos e conduzi-lo até as ruínas, onde o esperava, para sua surpresa, Léa Penteado, a assessora de imprensa da casa que acreditou nele. Casa que, para além da MPB, deu a partida na cultura de equipes de som cariocas (abrigando, em 1970, o Baile da Pesada dos DJs Big Boy e Ademir Lemos) e que promoveu a primeira grande festa assumidamente gay da cidade (o Gala Gay, que estreou lá em 1982), o Canecão nem sempre recebeu de volta o carinho que dispensou aos artistas e ao público. E padeceu com as intempéries (como o show da banda punk americana Ramones, em 1992, que quase acabou em tragédia por causa da interveção de skinheads) e os seus próprios vacilos. — O Canecão não teve muito cuidado com seu acervo de imagens, por exemplo. Eles gravavam os shows em fitas de VHS, mas tudo aquilo foi perdido — lamenta Bruno, que não pôde usar muitas gravações de TV no documentário, porque custariam caro à produção. — Espero que o novo Canecão tenha uma preocupação de registrar os shows, o que hoje é bem mais fácil. E também espero que que lá seja novamente ponto de encontro, de uma nova geração, de outras pessoas.