Magnus Carlsen é o melhor jogador de xadrez da história. Ele foi número um do mundo consecutivamente por mais de uma década, alcançou o maior rating Elo já registrado (2882 pontos) e dominou o jogo nos formatos clássico e rápido como nenhum outro ser humano. PUBLICIDADEMas, quando perguntado em um podcast se venceria o seu próprio celular numa partida de xadrez, Carlsen respondeu sem hesitar que não teria a menor chance.A sua resposta não é uma falsa modéstia. Um aplicativo rodando o algoritmo Stockfish em qualquer smartphone moderno joga acima de 3600 pontos Elo, mais de 600 acima do auge de Carlsen, uma distância que torna a vitória humana praticamente impossível. O melhor jogador de xadrez que já existiu perde de forma humilhante para um programa gratuito que cabe no bolso.Leia tambémVocê prefere uma IA que admite ter dúvidas ou uma que finge saber tudo?Tente ficar vivo para não perder o que a IA ainda vai fazerUm estudo publicado na semana passada por pesquisadores que incluem Yann LeCun, vencedor do prêmio Turing e considerado um dos grandes pioneiros da inteligência artificial (IA), oferece uma explicação para esse fato.PublicidadeO artigo defende que a inteligência humana não é geral. Somos bons apenas em um subconjunto estreito de tarefas que importaram para a nossa sobrevivência, como percepção, locomoção, planejamento imediato e cognição social. Fora dessa área, o desempenho humano é frequentemente medíocre, e quase nunca percebemos isso porque os fracassos ficam fora do nosso campo de visão.O xadrez é um desses fracassos visíveis. Jogar xadrez bem nunca foi uma tarefa evolutivamente relevante, então somos péssimos nisso em termos absolutos. Carlsen é apenas o menos ruim de uma espécie muito ruim no xadrez. Os autores recorrem ao paradoxo de Moravec para reforçar esse ponto, lembrando que aquilo que nos parece trivial, como andar por uma sala, pegar um objeto e reconhecer um rosto, é exatamente o que as máquinas mais demoraram a aprender, enquanto os cálculos que esgotam a nossa mente são corriqueiros para um algoritmo. No lugar da inteligência artificial geral, os autores propõem a SAI, sigla para inteligência adaptável super-humana. A ideia é desenvolver algoritmos de IA direcionados para superar humanos nas tarefas relevantes que fazemos bem, e em algumas tarefas úteis fora do nosso alcance. PublicidadeCarlsen diz que não teria a menor chance contra a IA Foto: PETER PARKS/AFPSegundo os autores, a IA que dobra as nossas proteínas não precisa ser a mesma que dobra a nossa roupa. Diante de recursos finitos, faz mais sentido alocarmos capacidade onde há utilidade, em vez de perseguir uma competência universal que nem mesmo nós temos.Magnus Carlsen entendeu isso antes de muita gente. Perder para o celular deixou de ser humilhação no momento em que ele percebeu que competia em um jogo que nunca foi nosso. Resta saber se o restante da humanidade terá a mesma serenidade quando a lista de jogos perdidos começar a crescer.
Opinião | A mostra que Magnus Carlsen não é bom enxadrista e não somos tão inteligentes
A inteligência humana é limitada, especializada e cheia de fracassos que nem sequer percebemos








