Agrishow: crédito insuficiente e juros altos pressionam o agroPara Tirso Meirelles, custo elevado e queda das commodities ampliam endividamento no campo. Crédito: Edição: Yago BassiGerando resumoDiante das expectativas de inflação do Boletim Focus, a taxa Selic só voltará a um dígito na próxima década. Economistas consultados pela Estadão/Broadcast, no entanto, não descartam essa possibilidade em 2028 ou 2029, desde que o governo se empenhe mais no reequilíbrio das contas públicas e atue em sintonia com o Banco Central.PUBLICIDADEA Selic está em 14,50% e a expectativa do mercado é de um novo corte de 0,25 ponto na decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), a ser anunciada na quarta-feira. A taxa está em dois dígitos há pouco mais de quatro anos, desde fevereiro de 2022, quando passou de 9,25% para 10,75%.Na avaliação do economista-chefe do Banco Bmg, Flávio Serrano, o ponto decisivo para juros mais baixos não é apenas o choque externo, mas a trajetória das contas públicas e da dívida. “A parte fiscal ainda é a mais importante nessa história. O desafio é gerar superávits primários para estabilizar e melhorar a situação da dívida pública”, afirma Serrano.Leia tambémMercado aumenta projeção para inflação, juros, PIB e dólar em 2026Crescimento acima do potencial, inflação alta e juros elevados: entenda os desequilíbrios do BrasilA mediana para a taxa Selic no fim de 2026, no Boletim Focus divulgado nesta segunda-feira, 15, subiu de 13,50% para 13,75%; para 2027, aumentou de 11,50% para 12%; para 2028, subiu de 10% para 10,25%; e para 2029, segue 10%. A estimativa para 2029 passou para dois dígitos no início de maio, de 9,75% para 10%.PublicidadeA deterioração das expectativas de inflação se acentuou nos últimos meses diante do prolongamento dos conflitos entre Estados Unidos e Israel contra Irã e Líbano, que têm gerado choque de oferta com escalada dos preços do petróleo. Além disso, em ano eleitoral, economistas avaliam que o aumento dos gastos públicos tem contribuído para piorar a percepção sobre a trajetória fiscal.Para Serrano, mesmo quando as expectativas de inflação para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) no Boletim Focus marcavam um dígito, ainda estavam elevadas e não tinham relação direta com a guerra. “É uma percepção ao longo do tempo da construção de uma política econômica mais orientada para o aumento de gastos”, afirma.A mediana do relatório Focus para o IPCA de 2026 subiu de 5,11% para 5,30%, distanciando-se ainda mais do teto da meta de inflação perseguida pelo Banco Central, de 4,50%. A mediana para o IPCA de 2027 aumentou de 4,03% para 4,10%; para 2028, aumentou de 3,65% para 3,68%; para 2029, segue em 3,50%. O Banco Central, por sua vez, prevê alta de 4,6% para o IPCA em 2026 e de 3,5% em 2027.O IPCA em 12 meses ficou em 4,72% até maio, superando a mediana das estimativas, que era de 4,68%, e ficou acima do teto da meta de inflação, de 4,5%.PublicidadeDiretores do BC decidem entre terça e quarta-feiras o rumo da taxa Selic Foto: André Duzek/ EstadãoAlém do fiscal, Serrano chama atenção para uma mudança de pano de fundo: juros estruturalmente mais altos no mundo e uma taxa neutra doméstica mais elevada. “Estruturalmente, o mundo vai viver também com taxas de juros mais altas. Tem a questão da guerra, das tarifas. Tudo gera um ambiente de crescimento menos construtivo, com aumento do endividamento dos países avançados.”A taxa de juro neutro, estima o economista, estaria hoje ao redor de 5,5%. “A conjuntura atual talvez demande um juro mais alto porque a gente perdeu um pouco a potência da política monetária.”Serrano afirma que o Banco Central não está conseguindo convencer o mercado de que a inflação voltará à meta, o que o mercado chama de desancoragem das expectativas. “Mesmo com a taxa estável em 15%, as projeções de inflação mais longas estavam desancoradas, e mais pelas expectativas de manutenção da política econômica do governo do que pela política monetária.”Para Luciano Rostagno, estrategista-chefe da EPS Investimentos, a dificuldade é que as políticas fiscal e monetária estariam atuando em direções opostas, algo típico de períodos de maior incerteza eleitoral. “Para ter chance de uma Selic em um dígito, vai precisar de uma mudança importante na política fiscal. O que a gente está vendo é uma política fiscal botando o pé no acelerador, o que força o Banco Central a pisar no freio”, afirma.PublicidadeCONTiNUA APÓS PUBLICIDADEO estrategista lembra que o Brasil convive há anos com inflação acima do centro da meta e que as expectativas ficaram ainda mais desancoradas com o conflito entre Estados Unidos e Irã. “E o ano de eleição está tornando o cenário mais desafiador. Parece uma corrida para ver quem consegue aprovar mais medidas populistas. Estamos sem âncora fiscal.”Fiscal crívelEm meio ao debate sobre o horizonte para a Selic voltar a um dígito, Marcos Vinícius Oliveira, economista e analista da ZIIN Investimentos, avalia que o movimento é possível ainda nesta década, mas depende de condições para se sustentar. “É possível. Se isso seria sustentável, isto é, se pode se manter nesse patamar ao longo desse período, depende de um ajuste fiscal mais crível”, explica. “Quando a gente vê pautas de aumento de gastos ou renúncias fiscais ganhando força, o mercado passa a exigir um prêmio maior para financiar o governo”, acrescenta.O diretor de renda variável da Faz Capital, Alexandre Pletes, diz que o risco fiscal no Brasil “é muito pesado e muito forte” e que o primeiro ponto a ser abordado para a Selic ficar num patamar de um dígito é o controle fiscal, depois uma menor inflação global e também arrefecimento da economia doméstica. “A gente acredita em uma Selic abaixo de dois dígitos em 2028, mas desde que questões macro e fiscais estejam controladas.”O analista da Ouro Preto Investimentos Sidney Lima diz que, para o Brasil voltar a ter uma taxa de juros abaixo de 10%, é preciso uma combinação de inflação convergindo para a meta, expectativas ancoradas e maior confiança fiscal. Para Lima, enquanto o mercado projetar inflação resiliente acima da meta, “o Banco Central terá pouca margem para acelerar o ciclo de cortes e levar a Selic para um dígito, algo que, no momento, só vejo como possibilidade entre o final de 2028 e início de 2029”.PublicidadeGabriel Uarian, analista-chefe da Cultura Capital, diz que, para a Selic voltar a um dígito, é preciso “um compromisso real e palpável com o equilíbrio das contas públicas, que transmita credibilidade ao mercado”. Além disso, ele cita a necessidade de a inflação convergir de forma sustentável para o centro da meta “sem repetidos sustos”, e também um ambiente externo mais benigno, com menor volatilidade cambial. “Sem esses pilares, qualquer corte mais acelerado corre o risco de ser interrompido ou revertido”, afirma.Uarian diz que o processo para reaconcoragem das expectativas de inflação e cenário favorável a uma Selic de um dígito exige paciência, disciplina e reformas consistentes no Brasil. “Só assim poderemos vislumbrar a Selic abaixo de 10% de forma segura, provavelmente a partir de 2028 ou mesmo depois, dependendo de como evoluírem as contas públicas e a confiança dos investidores.”