Aniversários têm disso: convidam a revisitar o passado com o conforto do tempo transcorrido. O que era confuso no calor da hora aos poucos se ilumina. Praticamente dez anos depois do impeachment de Dilma Rousseff, o espetáculo da sessão da Câmara de 17 de abril de 2016 – e o papel dos militares naquela cena e em todo processo – ganha contornos mais nítidos.

Quando Jair Bolsonaro dedicou seu voto contra Dilma “à memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra”, “o terror” da presidente, inaugurou simbolicamente no país uma moralidade pública ancorada na celebração da ditadura. Ao reverenciar um torturador, Bolsonaro subvertia a praxe militar que orientou a transição política no país: esquecer o passado, “virar a página”. Fazia alarde onde antes havia silêncio. Mas ele não era um lobo solitário, e seu arroubo não foi improviso. Era a cristalização de uma antimemória longamente gestada por militares e afins, dentro e fora da caserna.

Desde a redemocratização, as Forças Armadas conviveram mal com campanhas e políticas de memória e direitos humanos. Rechaçaram as denúncias de familiares de mortos e desaparecidos políticos e dos Grupos Tortura Nunca Mais. Incomodaram-se com a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, instalada em 1995, e depois, em meados de 2000, com a Comissão de Anistia, ambas ligadas ao Ministério da Justiça. Em vez de um Estado magnânimo que perdoa subversivos, como na lei de anistia de 1979, a nova comissão, com Paulo Abrão, passou a encarnar um Estado que pedia perdão aos perseguidos e punição aos perseguidores. A cada nova ação do Estado na seara dos legados da ditadura, os militares se viam preteridos.