A introdução de Palmério Dória e Mylton Severiano ao livro Golpe de Estado: o Espírito e a Herança de 1964 Ainda Ameaçam o Brasil, de ambos, editado em 2015 pela Geração Editorial, é uma obra-prima. Uma caminhada pela manifestação de 15 de março daquele ano, na Avenida Paulista, com olhos atentos e discernimento para pinçar na multidão fatos e personagens definidores do momento político. Não é apenas um relato, mas quase um corte sociológico. Se fosse uma pintura, seria sobre o Dia D dos contínuos movimentos contra a democracia brasileira. Mas é História, e o relato de um enredo definidor de uma classe economicamente dominante e politicamente incrustrada na alma do País, um parasita em permanente processo de proliferação e com capacidade de debilitar todo o corpo vivo da nação.

Os personagens são caricaturas dessa classe dominante e do lumpesinato que a ela se mistura, e a ela é servil. São relatos sobre a naturalidade com que convivem e partilham ideais a mulher do banqueiro, o torturador que carrega sua biografia com orgulho e é reverenciado pelos presentes, ou do dono de boate e proxeneta que, juntamente de suas “meninas”, define o momento: “Isto está uma zona. E de putaria eu entendo”. O retrato do recém-nomeado pela mídia como líder jovem, que também é preto e pobre e, do alto de um caminhão de som, grita, histérico: “Golpe! Golpe! Golpe”.