Há poucos eventos ao redor dos quais o povo se pode unir positivamente e para os iranianos em todo o mundo, o Mundial de futebol é um desses eventos. Os iranianos têm-se unido no seu amor pelo futebol e no seu orgulho nacional: desde o empate quase conseguido contra a Argentina (em 2014) até à defesa da grande penalidade de Ronaldo (em 2018), para muitos iranianos no exílio, a equipa iraniana de futebol tem sido um dos únicos pontos de ligação ao Irão a partir do estrangeiro.O Mundial começa e a participação do Irão não está garantida apesar da Team Melli (a alcunha da equipa iraniana) se ter qualificado. A Melli enfrentou muitos desafios, com o regime iraniano a ameaçar retirar-se do evento após o assassinato de Khamenei pelos EUA e Israel, e Trump a ameaçar recusar vistos a jogadores e ao pessoal técnico iraniano, e até mesmo a receber a Melli. Como alternativa, o México já se prontificou a acolher a base de treino da Melli.Sem dúvida, o Mundial deste ano é um evento político para o Irão e ao falar com alguns iranianos dentro do Irão, uma pessoa disse-me: “Não será apenas um jogo de futebol.”De facto, a FIFA diz que tenciona proibir a bandeira com o leão e o sol, uma decisão a que muitos iranianos se opõem firmemente. O leão e o sol aparecem na bandeira do Irão antes da Revolução Islâmica de 1979 e enquanto algumas pessoas associam estes elementos à era de Pahlavi, na realidade, eles fazem parte da bandeira iraniana há muitos séculos e têm um significado mais cultural do que simplesmente político. O primeiro jogo do Irão é a 16 de Junho, contra a Nova Zelândia, em Los Angeles, onde se encontra a maior diáspora iraniana do mundo. É quase certo que os iranianos que lá vivem tentarão contornar esta proibição da bandeira.Até a escolha da equipa foi politizada quando a federação de futebol iraniana decidiu desconvocar Sardar Azmoun, supostamente por causa de um post nas redes sociais. Pode-se mesmo dizer que sob o jugo da República Islâmica, o desporto tornou-se um evento político há já muitos anos. Só há poucos meses, Saleh Mohammadi (19 anos) e Sasan Azadvar (21 anos), ambos atletas, foram executados na sequência de julgamentos absurdos.Indubitavelmente, a República Islâmica usará a cena internacional para tentar reparar a sua imagem. Já se pode ver isto com a postura de "simpatia" para com as vítimas da escola em Minab, onde pelo menos 165 pessoas foram mortas num ataque militar horrível e criminoso pela mão dos EUA. No entanto, não se pode esquecer que foi precisamente essa mesma República Islâmica que assassinou Nika Shakarami (16 anos, 2022), Kian Pirfalak (9 anos, 2022), Melina Asadi (3 anos, 2026), o mesmo governo que abateu o voo PS752, matando todos os 176 passageiros (2020) e tantas outras vítimas da violência da República Islâmica.As vítimas inocentes da guerra feita pelos EUA e Israel devem ser lembradas tanto quanto as da República Islâmica, mas não devem ser usadas como instrumento de propaganda pela República Islâmica, que é igualmente sanguinária para com os seus próprios cidadãos.Os iranianos sentem-se divididos em relação ao Mundial de futebol, e há um espectro completo de reacções à Melli ainda participar este ano. Alguns acham que a equipa só representa a República Islâmica e não a apoiam, outros dizem que são completamente indiferentes e outros ainda que vão ver e apoiar a equipa. Realmente, espero ver algum tipo de acção por parte dos jogadores iranianos, mas também compreendo que isso possa implicar ameaças por parte do regime iraniano, o que foi evidente em 2022 (durante a insurreição de “Mulher, Vida, Liberdade”) depois dos jogadores não cantarem o hino nacional no seu primeiro jogo contra a Inglaterra. Nos jogos seguintes, estes jogadores voltaram a cantar o hino nacional. Isto também aconteceu à equipa feminina iraniana na Copa da Ásia, acolhida pela Austrália este ano.Para ser honesta, fico contente pelo Irão não ter sido excluído do Mundial, porque o país merece estar no centro das atenções: para que o regime iraniano não consiga esconder-se, mas também para que o povo iraniano – infinitamente hospitaleiro, talentoso e culturalmente riquíssimo – seja visto para além das constantes notícias apocalípticas. De qualquer modo, vou ver os jogos com alguma indiferença, e como a maioria dos iranianos colectivamente se sente: jamais seremos as mesmas pessoas que éramos antes de Janeiro.