A edição deste ano da reunião da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO), considerada o maior congresso de oncologia global, em Chicago, colocou em evidência avanços que orientarão a especialidade nos próximos anos. Imagens de médicos aplaudindo de pé os autores de um estudo que deve mudar a perspectiva do tratamento de câncer de pâncreas — um dos mais desafiadores na oncologia — correram o mundo e ressaltaram a importância do investimento em pesquisa e no desenvolvimento de novas tecnologias. Hoje, o olhar para o câncer exige uma abordagem molecular e multidisciplinar de alta complexidade. O futuro do cuidado oncológico está no tratamento cada vez mais personalizado e especializado, para garantir respostas mais ágeis e eficazes. Para discutir as principais mudanças de paradigma na área e o avanço dessas inovações, o Einstein Hospital Israelita, considerado hoje o melhor hospital em Oncologia da América Latina e o 17º melhor do mundo, segundo ranking da revista Newsweek, promoveu, pelo terceiro ano, um espaço de debates no congresso da ASCO. O local reuniu especialistas do Einstein e convidados de outras organizações de excelência, como Mayo Clinic, MD Anderson e Stanford (EUA), e o Instituto Jules Bordet (Bélgica). “Hoje curamos pacientes que eram classificados como incuráveis no passado. Isso é reflexo da união de tecnologia avançada, trabalho médico integrado e centros eficazes e seguros”, afirmou Fernando Maluf, oncologista do Einstein, durante um dos debates no espaço da organização. Retrato molecular Entender o perfil biológico do tumor é a base da chamada oncologia de precisão, que utiliza ferramentas como big data analytics e multiômica — que olha para a integração de diferentes componentes moleculares, como DNA, RNA, proteínas e metabólitos. Os avanços da multiômica pautaram a conversa entre Fernando Moura, Juliana Beal (Einstein) e Vivek Subbiah (Stanford) — Foto: Einstein/Divulgação “Há dez ou 15 anos, a mutação no gene KRAS (abordada no estudo de câncer de pâncreas) era considerada impossível de ser tratada. Há 20 anos, quando identificávamos tumores com 200 mutações, não tínhamos como desenvolver terapias eficazes. Hoje esses são os melhores candidatos para imunoterapia”, observou Vivek Subbiah, diretor médico e chefe do Programa de Desenvolvimento de Drogas de Stanford, em outro painel. “Neste momento, precisamos ter um retrato molecular abrangente de cada paciente que entra pela porta.” E esse será o motor central do novo cancer center do Einstein, o Centro Daycoval de Cuidados e Terapias Avançadas em Oncologia e Hematologia, que será inaugurado em 2027, em São Paulo. “Vamos trabalhar com o conceito de oncologia de precisão, em que tudo começa pelo ‘molecular first’, centrado nas características moleculares do tumor. A jornada de todo paciente será construída de acordo com a assinatura molecular e terá todo um cuidado para oferecer uma abordagem integrativa para o paciente”, destacou Nam Jin Kim, diretor médico de Oncologia e Hematologia do Einstein. A personalização não é apenas uma tendência, mas o norte das inovações apresentadas nos debates. Mitesh Borad, diretor do Laboratório de Terapia Celular, Gênica e Viral para o Câncer da Mayo Clinic, destacou que o câncer de cada paciente é único e “não há duas doenças com as mesmas características genéticas”. “Se você realmente quer saber o que fazer, primeiro precisa entender, no nível mais fundamental, como intervir em um paciente. Agora, somos capazes de analisar genomas individuais de pacientes, o que nos permitiu buscar terapias específicas com base em marcadores específicos”, disse Borad. Pedro Uson (Einstein) e Mitesh Borad (Mayo Clinic) debateram o impacto da IA na oncologia — Foto: Einstein/Divulgação Em conversa com Borad, Pedro Uson, oncologista do Einstein, celebrou o nível de controle e personalização dessa nova era da medicina: “Estamos vendo muitos medicamentos novos, que realmente estão mudando o paradigma do tratamento de muitas doenças que tratamos, como as do pâncreas e das vias biliares”. Em um painel sobre o futuro dos tratamentos, André Fay, oncologista da Santa Casa de Porto Alegre, integrante da Rede Einstein de Oncologia e Hematologia — que visa compartilhar a qualidade e expertise do Einstein com outras organizações—, ressaltou o “avanço enorme em terapias-alvo e dos anticorpos conjugados a drogas”. “São terapias altamente especializadas e dirigidas para a célula doente”, disse. O papel da IA contra o câncer O olhar no nível molecular e a personalização do tratamento, no entanto, geram uma quantidade antes impensável de dados. Nesse cenário, entra a inteligência ampliada (IA) como uma ferramenta fundamental. “Se temos 300 medicamentos aprovados em oncologia, três combinações de medicamentos resultam em 4,5 milhões de combinações. Daqui a 50 anos tudo será personalizado, e a IA nos ajudará a fazer isso”, afirmou Vivek Subbiah. No mesmo painel, Fernando Moura, oncologista do Einstein, observou como a patologia computacional — que utiliza IA e análise avançada de imagens para identificar padrões tumorais e apoiar diagnósticos mais precisos — ajudará a entender melhor os biomarcadores e a selecionar os pacientes para diferentes tratamentos. “É uma tecnologia nova, totalmente acessível e que poderá revolucionar tudo”, disse. Para Juliana Beal, oncologista do Einstein, é importante que as informações sobre novas possibilidades de tratamento cheguem também aos pacientes. “Capacitar essas pessoas para que possam discutir com seus médicos fortalece nossa parceria na tomada de decisão”, afirmou a oncologista. Prevenção e rastreamento Kathleen Schmeler (MD Anderson), Andrey Soares e Donato Callegaro (Einstein) discutiram o papel da prevenção — Foto: Einstein/Divulgação Se a discussão avança muito sobre possibilidades de tratamento, o debate sobre como prevenir o câncer também encontra cada vez mais espaço dentro da oncologia. “Hoje, a prevenção é uma estratégia fundamental e deveria ser o foco para reduzir a incidência do câncer. O melhor tratamento é não precisar tratar o paciente”, afirmou Donato Callegaro Filho, oncologista do Einstein, no painel sobre prevenção. Dentro dessa perspectiva, os exames de rastreamento — e a vacinação, no caso de tumores como o de colo do útero — permitem prevenir ou identificar lesões antes que se tornem cancerígenas. “O principal desafio é garantir que todos tenham acesso a vacinas, a exames de rastreamento e, consequentemente, ao tratamento, se precisar”, disse Kathleen Schmeler, oncologista do MD Anderson Cancer Center. Estima-se que entre 30% e 40% dos casos de câncer estejam associados a fatores de risco modificáveis, como tabagismo, consumo de álcool, sedentarismo e obesidade. O Código Latino-Americano e Caribenho contra o câncer, formulado pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (Iarc/OMS) e pela Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) com apoio da Amigos Einstein da Oncologia e Hematologia (amigo_h), reúne 17 recomendações para reduzir os riscos do desenvolvimento da doença. “É muito importante ter um código que faça recomendações considerando a situação específica de uma região, como acesso, cultura e diferenças entre os sistemas de saúde desses países”, pontuou Andrey Soares, oncologista do Einstein. Pesquisa clínica e educação médica continuada redesenham resposta ao câncer Incentivo a investigações científicas e democratização do conhecimento são motores de transformação do sistema de saúde, especialmente no Brasil À direita: Vanessa Teich e Max Mano (Einstein) e Evandro de Azambuja (Jules Bordet) discutem a pesquisa na oncologia; À esquerda: Formação médica e inovação pautaram a conversa entre Clarissa Baldotto (SBOC), Roberto Pestana e Oren Smaletz (Einstein) — Foto: Einstein/Divulgação Na busca por caminhos que transformem o diagnóstico e o tratamento oncológicos e ampliem o acesso, a pesquisa clínica e a educação médica continuada saíram dos laboratórios e das salas de aula e têm assumido um papel mais relevante na linha de frente contra o câncer. Nos grandes centros oncológicos do mundo, a conexão é cada vez mais estreita entre assistência, pesquisa e ensino, beneficiando os pacientes com o que há de mais avançado em um curto espaço de tempo. “O que faz um paciente sair do Brasil e buscar um centro internacional, muitas vezes na Europa ou nos Estados Unidos, é realmente poder ter acesso a um estudo clínico. E, hoje, ainda temos um percentual pequeno dos estudos que vêm para o Brasil. É fundamental conseguirmos prover acesso a esses estudos para os pacientes brasileiros em um centro brasileiro”, defendeu a diretora de Transformação da Oncologia e Hematologia do Einstein, Vanessa Teich, em um debate realizado no estúdio criado pelo Einstein dentro do maior congresso de Oncologia do mundo, a ASCO, realizada em Chicago. Em seu novo centro, o Einstein impulsionará a pesquisa associada à oncologia e à hematologia. O movimento ocorre em uma fase de virada, em que o país tem recebido mais atenção. “O Brasil vive um momento muito bom da pesquisa, porque houve um aumento associado a reformas na legislação e mudanças no cenário geopolítico, que levou a um redirecionamento de pesquisas de outros países para o Brasil”, disse Max Mano, oncologista do Einstein. Há 23 anos na Bélgica, o brasileiro Evandro de Azambuja, presidente da Sociedade Belga de Oncologia Clínica e coordenador da clínica de mama do Instituto Jules Bordet — organização que registra hoje a inclusão de 13% de seus pacientes em estudos clínicos —, defendeu a importância da pesquisa clínica atrelada à assistência. “Hoje, fomentamos a pesquisa com duas visões: a da inovação e a do acesso. A inovação é muito importante porque queremos ter fármacos novos para testar. E para o paciente, também é uma forma de oferecer um tratamento eficaz e disponível no mundo todo”, disse Azambuja. “No caso do Brasil e de países com menos recursos, a pesquisa é uma forma de ampliação de acesso dos pacientes ao cuidado”, complementou Vanessa Teich, destacando o impacto que a pesquisa clínica pode ter especialmente para pacientes do sistema público. Educação, capacitação e IA Para que todo o ecossistema científico funcione, a educação contínua de médicos e equipes multidisciplinares também exige uma nova abordagem. A capacitação e a atualização constantes nunca foram tão necessárias, especialmente na oncologia. Só que, com um crescimento exponencial de artigos científicos e de novas tecnologias, o desafio deixou de ser a falta de informação e passou a ser a curadoria do conhecimento. “Talvez o papel do professor ou de uma sociedade não seja o de oferecer conteúdo, mas sim o de fazer uma curadoria para ajudar justamente que esse volume de informação não fique perdido”, disse a presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), Clarissa Baldotto, em um dos painéis. Nesse cenário, a inteligência artificial (IA) também se torna uma ferramenta extremamente útil não só para os novos médicos, mas para todo especialista. “Essa ferramenta passou a modular o que fazemos todos os dias, trazendo uma série de novos desafios para a educação médica continuada”, disse Roberto Pestana, oncologista do Einstein. Para o oncologista Oren Smaletz, a inteligência “adaptativa ou aumentada” certamente veio para agregar no dia a dia dos médicos, mas ainda requer cautela, especialmente na formação de novos profissionais. "Os residentes estão mais rápidos na informação, mas vejo isso com certo cuidado. Não podemos ficar apenas no superficial da IA e deixar de ler o artigo e de entender os métodos, os desfechos mais importantes. Existe esse risco, e tentamos mostrar essa preocupação aos residentes”, afirma o oncologista do Einstein. Novo centro impulsionará inovação oncológica no Brasil Espaço integrará, a partir de 2027, pesquisa clínica com terapias personalizadas e moleculares, e terá como base 17 centros de excelência Projeto do novo centro, que integrará oncologia de precisão, pesquisa, inovação e cuidado personalizado — Foto: Einstein/Divulgação Para expandir o seu cuidado oncológico qualificado e de excelência, o Einstein vai inaugurar, em 2027, o novo Centro Daycoval de Cuidados e Terapias Avançadas em Oncologia e Hematologia, dentro do Parque Global, Zona Sul de São Paulo. O espaço multidisciplinar integrará pesquisa clínica, ensino, terapias personalizadas e moleculares sem deixar de lado o tratamento humanizado e integral do paciente. Ele estará estruturado em 17 centros de excelência, que reunirão tratamento, pesquisa, inovação e ensino em torno de tipos específicos de câncer, amparados por uma equipe multidisciplinar para fornecer o cuidado integrado ao paciente. O conceito é ter um atendimento de forma simultânea por uma equipe especializada, em todas as etapas da jornada do paciente, promovendo um cuidado coordenado, ágil e centrado na pessoa. “Entendemos que todo o nosso esforço não deveria estar centrado apenas nas soluções já existentes. Então focamos em montar o melhor arsenal possível contra o câncer — as melhores tecnologias e a busca pelas maiores inovações —, mas também reforçar nossa pesquisa. Porque sabemos que, quando acaba o que tem na prateleira, as esperanças migram para os estudos”, diz Nam Jin Kim, diretor médico da Oncologia e Hematologia do Einstein. O novo centro vai avançar na oncologia de precisão ao oferecer cuidados verdadeiramente personalizados, com base na assinatura molecular dos pacientes. Por meio de big data e análises multiômicas, incluindo testes avançados de sequenciamento e biópsias líquidas, fortalecerá o cuidado baseado em dados e precisão molecular. “Quando assumimos o projeto do novo cancer center, tentamos pensar em como torná-lo um verdadeiro expoente dentro da medicina brasileira para o mundo”, observou Kim. O complexo terá 65 mil metros quadrados e contará com uma infraestrutura robusta, que inclui 191 leitos e o que há de mais moderno em diagnóstico guiado por imagem e radioterapia. A expectativa é que o centro, que contará ainda com 3.000 profissionais altamente qualificados em diferentes áreas da medicina, receba, anualmente, cerca de 10 mil pacientes.
Multiômica e personalização do cuidado revolucionam tratamento oncológico
Em encontro da ASCO, em Chicago, especialistas do Einstein e de outras organizações de excelência estrangeiras debateram os avanços e o futuro do combate ao câncer








